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Primeira advogada trans destaca papel do nome social e desafios da transição de gênero

Entrevista aborda identidade de gênero, importância do nome social, educação e atuação nas comissões da OAB

Por Natalia Costa

Terça - 14/04/2026 às 11:41



Foto: Piauí Hoje Advogada Flávia Cunha compartilha trajetória e atuação em defesa dos direitos da população LGBTQIA+ durante entrevista ao Podcast Mulher Mais.
Advogada Flávia Cunha compartilha trajetória e atuação em defesa dos direitos da população LGBTQIA+ durante entrevista ao Podcast Mulher Mais.

A advogada Flávia Cunha é a primeira mulher trans advogada a obter a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) com nome social no Piauí. Ela compartilhou sua trajetória pessoal e profissional, além de discutir temas como identidade de gênero, educação, mercado de trabalho e direitos da população LGBTQIA+, no Podcast Mulher Mais quinta-feira (9).

A advogada relembrou o momento em que passou a compreender sua identidade de gênero e o processo de transição, marcado por dificuldades dentro do ambiente familiar. Ela relatou que, no início, não contou com apoio da mãe, o que a levou a sair de casa ainda jovem. Apesar dos conflitos iniciais, a relação com a família foi reconstruída ao longo do tempo.

Não tive esse apoio da família, não. Tanto que eu saí de casa devido as minhas constantes discussões com a minha mãe, porque ela não aceitava de jeito nenhum. Ela não aceitava. Foi quando eu disse eu vou deixar crescer o cabelo, porque eu me identificava como mulher. Era horrível se olhar no espelho e ver um menino é péssimo, vocês não tem noção disso. Eu saí de casa e nunca mais eu voltei para morar com ela. Mas hoje nós somos unha e carne.

 Advogada Flávia Cunha, apresentadoras Natalia Costa e Ozelir Santos | Foto: Piauí Hoje

A advogada falou da importância do nome social como instrumento de respeito e dignidade para pessoas trans. Segundo ela, o uso correto do nome vai além de uma formalidade e representa reconhecimento da identidade. 

A Lei do Nome Social foi promulgada na Assembleia Legislativa do Piauí em 2009 e permitiu que pessoas travestis, transexuais e transgêneros utilizem seus nomes sociais em serviços públicos, evitando constrangimentos. A proposta é da ex-deputada Flora Izabel (PT) e segue iniciativas já adotadas em outros estados. No Piauí, a medida não altera documentos oficiais, mas garante o uso do nome social por meio de identificação específica.

"Isso é um marco e eu acompanho muitas situações em que o nome social ainda é desrespeitado frequentemente de propósito, eu vejo pessoas fazerem por pura maldade para poder atingir o ego das mulheres trans. O Piauí foi o primeiro que surgiu dessas situações em posto de saúde", afirmou.

Outro ponto central da entrevista foi o papel da educação em sua trajetória. Flávia Cunha afirmou que a formação acadêmica foi essencial para transformar sua realidade, não apenas no aspecto financeiro, mas também na construção de pensamento crítico e autonomia. Ela enfatizou que o acesso à educação ainda é um desafio para muitas pessoas trans, especialmente devido à evasão escolar causada por preconceito.

A educação te transforma, a forma como você olha as outras pessoas mais simples, a forma como você olha quem tem mais que você. É tudo da base da educação. Isso te transforma espiritualmente, porque você se abre se você se liberta de uma religião específica. Mas isso tudo é base a educação. Ela te liberta, ela te transforma em todos os sentidos, não só financeiramente. Então, na minha vida a educação ela é fundamental até hoje, porque eu nunca deixo de estudar.

Advogada Flávia Cunha, apresentadoras Natalia Costa e Ozelir Santos | Foto: Piauí Hoje

Sobre a atuação profissional, a advogada explicou como é o dia a dia sendo uma advogada trans e destacou que, apesar das expectativas iniciais, nunca enfrentou preconceito direto no exercício da profissão. Ela atua em diversas áreas, incluindo o direito criminal, com presença frequente em delegacias e fóruns.

Ao final da entrevista, Flávia Cunha deixou uma mensagem direcionada a meninas e mulheres trans que enfrentam o processo de transição e buscam, por meio da educação, transformar suas realidades. Ela reconheceu as dificuldades diárias, como o preconceito e os desafios no ambiente escolar e acadêmico, mas reforçou a importância da persistência e da ocupação de espaços.

Sejam fortes. Persistam nos seus sonhos, busquem suas profissões, sejam doutoras, professoras, psicólogas, jornalistas. Vocês também podem ocupar todos os espaços. Não é um caminho simples, mas com persistência é possível chegar lá. E sobre a transição, é muito importante ter cuidado: não façam uso de hormônios sem acompanhamento médico. Isso é muito perigoso. Já vi muitas pessoas sofrerem consequências graves por fazerem isso por conta própria. Procurem orientação profissional e informações seguras. A transição é um sonho, algo que muitas desejam, mas precisa ser feita com responsabilidade.

Assista a entrevista completa:

 

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