LITERATURA

Frei Betto lança livros três livros e faz palestra em Teresina

Frade dominicano e escritor, ganhou em 1982 o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro de memórias Batismo de Sangue


Livros lançados por Frei Berto em Teresina

Livros lançados por Frei Berto em Teresina Foto: Luiz Brandão

O frade dominiciano, jornalista e escritor brasileiro Carlos Alberto Libânio Christo, ou Frei Betto, lançou na noite desta segunda-feira (17), no Teatro 4 de Setembro, em Terresina, os livros Jesus Militante, O Estranho Dia de Zacarias e Tom Vermelho do Verde.

Os livros

JESUS MILITANTE - Jesus Militante, um evangelho, uma proposta política, consumiu vários anos de pesquisas e leituras do autor. "É uma análise detalhada do Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, e no qual se inspiraram os evangelistas Mateus e Lucas", diz.

Betto explica que o livro é escrito em linguagem acessível, e até mesmo didática. Diz que "tratei de evitar o “teologuês”, de modo que os leitores possam entender o que, de fato, Jesus veio nos propor".

O frei exolica também que "já no catecismo aprendemos que a palavra Evangelho significa Boa Nova. Mas que Boa Nova Jesus veio nos anunciar? Uma nova religião que, inspirada em seu testemunho, ficou conhecida como Cristianismo? Uma nova instituição religiosa chamada Igreja?", pergunta o autor.

E responde: Jesus não teve a pretensão de fundar nada. Quis apenas nos transmitir que Deus nos criou, como registra o Gênesis, para vivermos em um paraíso. Se o projeto de Deus para a história humana foi subvertido pelo abuso de nossa liberdade – inclusive de rejeitar a proposta divina – uma segunda oportunidade Deus nos ofereceu ao se fazer presente entre nós na pessoa de Jesus.

Portanto, Jesus veio nos trazer uma nova proposta civilizatória, política, resumida na expressão Reino de Deus. Aliás, esta expressão aparece 122 vezes nos quatro evangelhos. E o vocábulo Igreja apenas duas vezes, e assim mesmo em um único evangelho, no de Mateus. Contudo, muito falamos de Igreja e pouco de Reino. Isso se explica por duas razões: a tradição cristã cometeu o equívoco de situar o Reino de Deus nas esferas celestiais, quando na proposta de Jesus figura em nosso horizonte histórico. E pelo fato de hoje em dia termos raros reinos, muitos deles meramente decorativos.

Ora, por que Jesus – tão amoroso e misericordioso – morreu cruelmente assassinado na cruz, a pena de morte dos romanos que ocupavam a Palestina no século I? Por razões óbvias: ele ousou, dentro do reino de César, anunciar um outro reino possível, o de Deus. Por isso o condenaram como subversivo. Assim, todos nós cristãos somos discípulos de um prisioneiro político.

A proposta civilizatória de Jesus se baseia em dois pilares – é o que ressalta o Evangelho de Marcos: nas relações pessoais, o amor, incluído o perdão; nas relações sociais, a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. Portanto, a Igreja deveria ser o Movimento de Jesus, ou seja, o movimento que congrega seus discípulos dispostos a abraçar o exemplo de sua militância para instaurar, na história, o projeto politico do Reino de Deus, no qual não haveria opressões e exclusões, nem devastação da natureza".

Frei Betto diz que este é o "conteúdo de JESUS MILITANTE, no qual analiso os diferentes trechos de cada um dos capítulos do Evangelho de Marcos. O modo como Jesus rompeu com a religião esclerosada e fundamentalista do templo de Jerusalém; sua radical opção pelos pobres; suas críticas às injustiças sociais; seu repúdio à ocupação romana da Palestina.

Para o autor "tudo isso reforça a certeza de que, em se tratando de Jesus, estamos diante de um paradigmático militante político em uma época em que ainda não havia discernimento entre religião e politica, pois quem detinha o poder politico tinha também o poder religioso e vice-versa", explica.

TOM VERMELHO DO VERDE - Tom Vermelho do Verde é um romance sobre a amzônia. Para o autor, um romance deve ser avaliado pela crítica e, sobretudo, pelos leitores. "A opinião do autor pouco importa,até porque todo pai ou mãe julga a feiúra do filho a mais bela obra da Criação. Eu mesmo, como todo leitor, admiro obras de ficção que muitos detestam e vice-versa", diz Frei Berto.

"Devo, no entanto, dizer uma palavra sobre meu romance “Tom vermelho do verde” que a Rocco lança neste mês de julho. Ele descreve o genocídio de indígenas amazônicos perpetrado por militares, agentes da Funai e garimpeiros disfarçados de pastores evangélicos. Fato real ocorrido em plena ditadura, entre os anos de 1968 e 1977, narrado no livro “Massacre”, de Silvano Sabatini, que teve como copywriter o jornalista Antônio Carlos Fon, e publicado em 1998.

O livro me impactou por revelar uma face cruel da ditadura militar pouco conhecida do público: a repressão aos povos indígenas. Durante 19 anos fiquei “grávido” do tema, motivado a transformá-lo em romance. Até que em 2017 decidi pôr mãos à obra. Foram cinco anos de pesquisas, entrevistas, consultas a indigenistas e leituras, muitas leituras.

Digo isso porque amigos se surpreendem com a coincidência entre o brutal assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips e o tema do romance. Houve quem me perguntasse se o escrevi a partir das truculências cometidas no Vale do Javari...

Impressiona-me, sim, a linha de continuidade entre o massacre dos Waimiri-Atroari, nas décadas de 1960 e 1970, e a atual omissão da Funai somada à cumplicidade de militares, policiais e autoridades públicas com o garimpo ilegal e outras atividades criminosas.

Há séculos o palco das atrocidades é o mesmo: a Amazônia, alvo da cobiça de brancos que, movidos pela ânsia de enriquecimento rápido, devastam a floresta e exterminam seus legítimos guardiães, os povos originários.

Por isso, é importante, imprescindível e urgente trazer à luz e estancar o sangue que impregna o verde da maior floresta tropical do mundo", explica Frei Berto.

O ESTRANHO DIA DE ZACARIAS - Zacarias é um garoto comum que, ao acordar em uma determinada manhã, percebe que as coisas estão bem estranhas. De repente, os objetos da casa e seus próprios pertences pessoais começam a conversar com ele. “O tempo é administrável, Zacarias”, lhe fala o relógio. “Que tal me fechar enquanto se ensaboa?”, avisa o chuveiro. 

“Zacarias, estou muito pesada!”, alerta a mochila. E o acontecimento mais estranho ainda acontece na escola, justamente no dia da prova de História do Brasil. Em vez de fazer a prova com lápis e papel, sentado na carteira, Zacarias de repente se vê frente à frente com indígenas e portugueses em pleno ano de 1500. 

E é a partir daí que o garoto começa a descobrir que as histórias nunca são definitivas. Ele será confrontado com uma outra versão do descobrimento do Brasil e vai aprender que não existe uma narrativa única.

Quem é Frei Betto

Autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior, Frei Betto nasceu em Belo Horizonte (MG). Estudou jornalismo,j antropologia, filosofia e teologia.

Frade dominicano e escritor, ganhou em 1982 o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro de memórias Batismo de Sangue (Rocco). Em 1982, foi eleito Intelectual do Ano pelos escritores filiados à União Brasileira de Escritores, que lhe deram o Prêmio Juca Pato por sua obra Fidel e a religião. Seu livro A noite em que Jesus nasceu (Editora Vozes) ganhou o prêmio de “Melhor Obra Infanto-Juvenil” de 1998, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 2005, o júri da Câmara Brasileira do Livro premiou-o mais uma vez, agora na categoria Crônicas e Contos, pela obra Típicos Tipos – perfis literários (Editora A Girafa). Em 2011, seu romance policial Hotel Brasil (Rocco) ficou entre as dez obras finalistas do Prêmio Jabuti, no quinto lugar. Em 2012, seu romance Minas do Ouro (Rocco) ficou entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom.

Ainda na área cultural, Frei Betto foi assistente de direção de José Celso Martinez Corrêa no Teatro Oficina, na primeira montagem da peça de Oswald de Andrade, “O rei da vela” e crítico de teatro do jornal Folha da Tarde 1967/1968.

Foi agraciado, em 2009, com o prêmio “ALBA de Las Letras” em reconhecimento ao conjunto de sua obra literária. A premiação é concedida pela Fundação Cultural da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA) a personalidades que consagram sua vida e obra à valorização do patrimônio cultural da América Latina e Caribe com criações originais de todos os gêneros literários.

Em 2016, o Conselho Universitário da Universidad Nacional da Costa Rica outorgou a Frei Betto a “Medalla Universidad Nacional”, “em reconhecimento por seu legado que tanto tem influenciado a arte, a educação e outras formas de expressão e pensamento da humanidade, principalmente na América Latina, além de propagar uma cultura de paz e respeito à terra e à vida humana.”

Frei Betto lançou livros e fez palestra no Teatro 4 de Setembro“Medalha Darcy Ribeiro”, concedida pela Associação dos Economistas de Minas Gerais e Mercado Comum-Comunicação e Publicações Ltda. por destacar-se nas áreas de Educação e Cultura. É membro do Conselho Mundial do Projeto José Martí de Solidariedade Internacional.

Em 24 de março de 2017, recebeu das mãos do presidente do Equador, Rafael Correa Delgado, a “Medalha da Ordem Nacional do Mérito, no Grau de Oficial”, por sua destacada luta em defesa dos Direitos Humanos, trajetória que o tornou referência na história contemporânea da América Latina. No mesmo ano, recebeu do Centro de Estudios del Ideal Latinoamericano.S.C., em Monterrey (México), o “Prêmio Reconocimiento” por sua colaboração nas Conferências Internacionais da Alma-Alternativa Martiana para Nuestra América-Plataforma Histórico Cultural Nuevo Pensamiento del Siglo XXI.

Em outubro de 2020, a Associação Cubana de Comunicadores Sociais agraciou Frei Betto com o “Prêmio Espacio na Categoria Personalidad Internacional” por seu exemplo de “Ética, Profissionalismo e Compromisso”.

Em setembro de 2021 recebeu o “Prêmio Dois Paulos” (Dom Paulo Evaristo Arns e o educador Paulo Freire) pelo trabalho realizado pelo Diálogo Inter-religioso.

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