A vitória do filme "O Agente Secreto" no Globo de Ouro, conquistando os prêmios de Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura, nesse domingo (11), repercutiu de forma intensa entre artistas nordestinos, que enxergam no reconhecimento um avanço histórico para o cinema brasileiro e regional. No Piauí, cineastas celebram a conquista como um impulso simbólico e prático para quem produz audiovisual fora do eixo Sul-Sudeste.
Para o diretor Cícero Filho, conhecido nacionalmente pelo sucesso Ai que Vida!, o momento foi comparável a uma grande vitória esportiva. Segundo Cícero, a conquista foi celebrada pelo setor audiovisual como uma verdadeira “final de Copa do Mundo” e simboliza o reconhecimento de histórias e vozes do Nordeste em premiações internacionais de grande visibilidade, indo além do valor simbólico do troféu.
Viva o cinema brasileiro, viva a cultura nordestina.
O diretor destacou a importância de ver uma produção realizada por nordestinos ser reconhecida em premiações internacionais como o Globo de Ouro, ressaltando que a vitória evidencia o espaço e a relevância das vozes do Nordeste no cenário global, sobretudo por abordar de forma sensível o período da ditadura.
Cícero também ressaltou o impacto direto desse tipo de conquista para estados como o Piauí, onde o setor audiovisual enfrenta limitações estruturais e de investimento. Para ele, a vitória de Wagner Moura e de produções brasileiras fortalece o imaginário coletivo e encoraja novos realizadores.
Momentos como esse servem de impulso para que mais cineastas, roteiristas e produtores do nosso estado se sintam motivados a contar suas histórias.
Equipe de O Agente Secreto durante premiação no Globo de Ouro
Já Rivanildo Feitosa, roteirista piauiense de reconhecimento nacional, apresentou uma análise ampla sobre o cenário do cinema nordestino, destacando a importância das políticas públicas para o fortalecimento do setor. Segundo ele, estados como Pernambuco, Ceará e Bahia se tornaram referência ao investir de forma contínua no audiovisual, com editais próprios e incentivos à formação profissional. Rivanildo também chamou atenção para a importância do desenvolvimento dos projetos, citando como exemplo o trabalho do diretor Kleber Mendonça Filho, cujos filmes se transformaram em livros, servindo como referência de leitura, reforçando que todo bom projeto começa no roteiro.
O cinema pernambucano é muito forte porque conta com políticas públicas que fortalecem o mercado. Esses estados servem de inspiração para o desenvolvimento do cinema em toda a região.
Segundo Rivanildo, no Piauí ainda há desafios importantes, como a ausência de cursos de formação na área, o que torna essencial a aproximação com outros polos do Nordeste.
Apesar dos desafios, o diretor avalia que há avanços recentes no audiovisual piauiense, impulsionados pela realização de mostras e festivais em Teresina e pelo acesso a editais nacionais. Segundo o roteirista, o estado tem tido a oportunidade de realizar um volume maior de obras, com produções alcançando espaços inéditos, mas ressalta a necessidade de ações continuadas e de uma visão do audiovisual também como indústria.
Para Rivanildo, o respeito internacional conquistado pelo cinema brasileiro — com filmes como Ainda Estou Aqui e agora O Agente Secreto, além de produções como Baby, Manas e O Último Azul — reforça a urgência de investimentos locais.
Ainda temos poucos longas-metragens de ficção no Piauí, mas muitos nomes do cinema atual estão se projetando e construindo carreiras de sucesso.
Edital nacional fortalece cinema regional
Nesse contexto, o Piauí também tem avançado com a adesão aos Arranjos Regionais do Audiovisual. A Secretaria de Estado da Cultura (Secult) destinou cerca de R$ 5 milhões do Governo do Estado para um edital voltado ao audiovisual piauiense. Como contrapartida, o estado deverá receber um investimento cinco vezes maior, em torno de R$ 25 milhões, oriundos do Governo Federal, via Ministério da Cultura (MinC), Ancine e Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
Os Arranjos Regionais são mecanismos de fomento que articulam recursos federais com investimentos estaduais e municipais, com foco no fortalecimento do audiovisual fora dos grandes centros. A iniciativa contempla regiões como Norte, Nordeste e Centro-Oeste, apoiando planos regionais de desenvolvimento audiovisual e a complementaridade com investimentos locais. Ao todo, o programa prevê R$ 300 milhões em recursos, sendo R$ 210 milhões destinados especificamente a essas regiões.
A vitória no Globo de Ouro, portanto, não se restringe a um reconhecimento individual ou pontual, mas se consolida como um marco simbólico para o cinema brasileiro. Para os artistas nordestinos, especialmente os piauienses, o prêmio representa a confirmação de que narrativas produzidas fora do eixo tradicional do audiovisual podem alcançar visibilidade internacional sem abrir mão de suas identidades, temas e contextos históricos. Ao reafirmar a potência cultural do Nordeste e evidenciar a necessidade de políticas públicas contínuas, o reconhecimento internacional renova expectativas, fortalece trajetórias e projeta novos horizontes para o futuro do cinema nordestino e do audiovisual produzido no Piauí.
*estagiária supervisionada pela jornalista Malu Barreto
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