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Berilo Pereira da Mota: 90 anos

Meu pai nasceu em uma Teresina modesta, interiorana e povoada pela amizade


Berilo Pereira da Mota

Berilo Pereira da Mota Foto: Divulgação

Duas datas importantes são celebradas pela família Mota neste ano de 2020: os 150 anos de nascimento de meu avô João Osório Porfírio da Mota e os 90 anos de nascimento de meu pai, Berilo Pereira Mota, ambos magistrados, juristas e professores, servidores públicos dedicados, cujo trabalho sempre esteve voltado para o bem do nosso estado.

Sobre meu avô já dediquei muito em textos outros, de modo que tentarei traçar um perfil resumido de meu pai, de quem herdo os exemplos vivos como pessoa de bem, um ecologista quando a defesa do meio ambiente sequer era cogitada como fundamental, professor, sempre preocupado com o próximo, profundo conhecedor da alma humana

Meu pai nasceu em uma Teresina modesta, interiorana e povoada pela amizade. Tive a sorte de ter parte dessa cidade, porque passei minha infância no mesmo endereço em que ele nasceu, na rua Areolino de Abreu, 1630, zona central de Teresina. E também segui passos semelhantes, pois meu pai viveu uma infância de banhos de rio no Poti e no Longá, em Barras; de temporadas na fazenda Folha Larga, da curiosidade pelo estudo em livros, uma paixão de meu pai, que nos legou uma biblioteca ampla, na qual seu neto, Berilo Neto, deu seus primeiros passos rumo ao saber. Berilo Neto, ainda criança e no início de seu letrameno, diante de livros em francês, dizia que não aprendia ali o que a professora lhe estava ensinando, já que não conseguia ler os livros em uma língua estrangeira. Mas aprendeu mais! Aprendeu a seguir os passos do avô na vasta estrada do conhecimento.

Uma longa estrada também trilhou meu pai em sua vida e carreira profissional de êxito, sempre pautada por princípios éticos e morais que tenho a sorte de ter incorporado à minha vida. Incluo nesse exemplo a leitura. Meu pai era um leitor compulsivo, seja pela necessidade profissional, seja pela paixão por clássicos de Machado de Assis, Eça de Queiroz e do regionalismo de José Lins do Rego.

Dedicado ao estudo e ao trabalho, meu pai Berilo jamais descuidou do zelo e do amor pela família. O amor que dedicou a mim, a minha mãe Elizalva e de minhas irmãs Ana Leonor e Juliana nos mantém unidos e fortes mesmo depois de muitos anos da ausência física dele, posto que o exemplo segue muito vivo entre nós.

Exemplos construídos no trabalho e no relacionamento afetivo e afetuoso com as pessoas. E disso posso falar com a lembrança viva de eventos familiares, como as viagens a União para os festejos de São Raimundo Nonato que ele adorava, das conversas com meu tio Joca Mota. Lembranças também das rodas de conversa à porta de nossa residência em Teresina, onde a afabilidade de meu pai se destacava a ponto de ser lembrada pelo desembargador José Luís Martins de Carvalho, no discurso de saudação a meu pai, quando de sua posse como desembargador. Disse naquela ocasião o desembargador José Luís que Berilo Mota agradou desde o mais simples vendedor de frutas às mais renomadas autoridades.

Tenho certeza de que meu pai agia sempre pelo bom senso na construção dos laços de respeito que fixou ao longo da vida. Foi juiz e professor por excelência. Diante dos problemas se agigantava, mas sempre com calma, com serenidade, guiado pela sensatez e paciência, virtudes, aliás, mais que necessárias com o exímio julgar. Afirmo isso, aliás, não como um filho, mas usando as palavras do digno dr. João Pedro Ayrimoraes Soares, advogado e escritor, que em artigo publicado em 12 de julho de 2018, afirmou que no seu entendimento, Berilo Mota foi “um dos mais independentes, destemidos e íntegros magistrados piauienses, com quem tivemos o privilégio e a honra de advogar, nesta Capital, durante bastante tempo.”

É reconfortante para mim o reconhecimento dos pares de meu pai, que se formou em Direito no ano de 1953 na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro e ingressou na magistratura na cidade de Batalha, passando por Regeneração, Simplício Mendes, Miguel Alves, Piracuruca, Floriano e finalmente em Teresina, onde atuou por 15 anos até ser alçado ao Tribunal de Justiça, em 1982, ano de sua morte.

É evidente que, órfão, sou tomado até hoje pela dor da perda de meu pai, mas para minha alegria, a admiração que ele angariou ao longo da vida segue como uma força viva em mim.

Essa força viva fez-se de admiração e amizade mantidas por meu pai de modo recíproco com muitas pessoas, entre as quais cito o arcebispo de Teresina e depois primaz do Brasil, dom Avelar brandão Vilela, Paulo Freitas, Antonio Almeida, Vicente Ribeiro Gonçalves, Itamar Fernandes, Edvaldo Moura, Álvaro Brandão Filho, Manfredi Cerqueira, Raimundo Baptista, Luiz Gonzaga Soares Viana, Cinéas Veloso, Cláudio Ferreira, Nerina Castelo Branco, Fides Angelica, Francisco Alberto Gayoso, João Claudino Fernandes, dentre muitos outros. Amigos de uma vida toda, dedicada a construir e cultivar relações harmoniosas, dentro de espaços de sociabilidade simples, das conversas na praça Rio Branco e na “rádio calçada”, das partidas de futebol e da paixão de torcedor pelo River; da religiosidade católica, na qual sempre praticou princípios básicos de caridade e oração.

Tudo isso me faz sentir orgulho de Berilo Mota meu pai. Orgulho e agradecimento, porque seu trabalho e exemplo estão não apenas em meus espaços de memória, mas no âmbito de recordação positiva de tantos quanto o conheceram, como a estimada professora Fides Angélica, que assim sobre ele se expressou: “Era firme e competente, desempenhava suas funções judicantes sem se afastar dos fatos e das normas, agindo com prudência, sensatez e coragem. Seu modo de portar-se como juiz engrandecia a Justiça, porque a administrava com muito zelo e discernimento.”.

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