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Feridas complexas exigem cuidado especializado e prevenção, alerta enfermeira

Professora Sandra Marina contou sua trajetória da Bahia ao Piauí e destacou os desafios para ampliar o atendimento especializado e reduzir amputações relacionadas ao diabetes

Natalia Costa

28 de agosto de 2026 às 10:55 ▪ Atualizado há 1 hora

Ver resumo
  • Feridas em pessoas com diabetes são muito mais complexas e podem levar a complicações seríssimas.
  • Sandra Marina, enfermeira e pesquisadora, compartilha sua trajetória na área de enfermagem, destacando sua origem e sua carreira no Piauí.
  • No Piauí, enfrentou desafios na gestão de unidades de saúde e viu a necessidade de criar ambulatórios especializados em tratamento de feridas.
  • Criou o primeiro ambulatório de feridas, provando que tratamentos adequados geram economia e melhores resultados.
  • Hoje, existem oito ambulatórios no Piauí, mas a estrutura ainda é insuficiente para a demanda existente.
  • O Estado é o terceiro no Nordeste em amputações relacionadas ao diabetes, motivando ações de capacitação e prevenção.
  • A prevenção é essencial e mais econômica, necessitando de políticas públicas focadas principalmente no diabetes.
  • Sandra recomenda atenção especial aos cuidados básicos, orientando sobre medidas iniciais em caso de ferimentos.
  • A profissional ressalta o papel transformador da enfermagem na saúde pública e a importância da capacitação.

Piauí Hoje Professora Sandra Marina
Professora Sandra Marina

Cuidar de uma ferida vai muito além de fazer um curativo. Para pessoas com diabetes ou que apresentam lesões complexas, um ferimento aparentemente simples pode evoluir para complicações graves e até resultar em amputação. O alerta foi feito pela enfermeira, professora e pesquisadora Sandra Marina, durante participação no podcast Mulher Mais, do Portal Piauí Hoje.

Com mais de duas décadas de atuação no Piauí, a profissional compartilhou no programa parte de sua trajetória na enfermagem, desde a infância na Bahia até a chegada ao Estado, onde construiu carreira na assistência, na gestão e na docência. A experiência também a levou a trabalhar pela criação e ampliação de ambulatórios especializados no tratamento de feridas.

A professora contou que escolheu a enfermagem como primeira opção profissional. Depois de concluir a graduação na Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia, mudou-se para São Paulo, onde fez especialização em administração hospitalar e trabalhou na Beneficência Portuguesa. Para ela, a experiência foi fundamental para sua formação.

“E quando você cuida de vida, você tem que dar o seu melhor. Você tem que cuidar de maneira diferenciada, porque a enfermagem é a profissão que cuida da pessoa desde que ela nasce até quando ela morre”, afirmou.

Assista o podcast completo:


Da gestão hospitalar à criação de ambulatórios

Ao chegar ao Piauí, em 2001, Sandra encontrou novos desafios. Ela passou pela gestão de unidades de saúde, entre elas o Hospital do Parque Piauí e o Hospital do Promorar, em Teresina. Foi justamente durante a atuação no Promorar que surgiu uma preocupação que mudaria sua trajetória profissional.

Segundo a enfermeira, era frequente a chegada de pacientes com feridas complexas ao pronto-socorro, que precisava atender também demandas que poderiam ser acompanhadas em um serviço especializado.

“Foi quando surgiu a ideia de abrir um serviço de curativo. Mas todo mundo achava que era loucura. Como é que a enfermeira quer abrir um serviço de curativo no SUS?”, relatou.

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Professora Sandra Marina | Foto: Piauí Hoje

A professora decidiu então pesquisar os custos envolvidos no tratamento. O levantamento mostrou que o tratamento adequado poderia representar economia para o sistema de saúde, além de oferecer melhores condições aos pacientes.

“E aí a gente montou o ambulatório de feridas no Promorar e conseguimos provar estatisticamente que tratar de maneira barata ou tratar de maneira efetiva é mais barato”, explicou.

A experiência contribuiu para a criação de outros serviços especializados. De acordo com Sandra, atualmente existem oito ambulatórios de tratamento de feridas no Piauí, mas a estrutura ainda é insuficiente para atender toda a população que necessita desse cuidado.

Falta de estrutura ainda é desafio

A ampliação dos ambulatórios representa um avanço, mas a professora destaca que ainda existem dificuldades relacionadas à quantidade de profissionais, materiais e investimentos.

“Então a gente precisa de investimento e de projetos de lei para que esses ambulatórios não fiquem necessitando de boa vontade, por exemplo, de hoje ter material, porque quando a gente abriu faltava tudo”, afirmou.

Outro desafio é a concentração dos serviços especializados. Pacientes de diferentes municípios ainda precisam se deslocar para Teresina em busca de atendimento.

A professora também chama atenção para um dado relacionado ao diabetes. Segundo ela, o Piauí é o terceiro estado do Nordeste com maior número de amputações relacionadas à doença.

“O Piauí hoje é o terceiro estado do Nordeste com maior número de amputação relacionada a diabetes. E a gente não pode continuar no estado que tem tanta amputação”, alertou.

Para enfrentar o problema, a professora e seus parceiros têm desenvolvido ações de capacitação de profissionais de saúde em diferentes municípios. A proposta é ampliar o conhecimento sobre prevenção, avaliação e tratamento de feridas.

“O meu sonho é que a gente consiga capacitar todos os profissionais do Piauí e que a gente tenha um fluxo adequado pra gente reduzir as amputações”, destacou.

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Cientista político Ozeli Santos, professora Sandra Marins e jornalista Natália Costa | Foto: Piauí Hoje

Prevenção pode evitar complicações graves

Para Sandra, a prevenção precisa ocupar um espaço maior nas políticas públicas, especialmente quando se trata do diabetes. Ela explica que o acompanhamento adequado pode impedir que pequenas lesões evoluam para quadros graves.

“Porque primeiro é que a prevenção sempre é muito mais barato. Vou focar aqui na diabetes, que hoje é o nosso grande problema de saúde pública”, afirmou.

A professora orienta que pessoas com diabetes tenham atenção especial aos pés e observem diariamente qualquer alteração. Um pequeno ferimento, segundo ela, deve ser avaliado rapidamente por um profissional de saúde.

“Por exemplo, furou o pé, pisou no espinho, ele tem que ir logo, porque o que pode ser uma besteira que tá cuidando às vezes com um antisséptico, pode ser a porta de entrada para uma amputação”, explicou.

A perda de sensibilidade nos pés também aumenta o risco, já que a pessoa pode se machucar sem perceber. Por isso, Sandra recomenda atenção a situações aparentemente corriqueiras, como andar descalço, usar calçados apertados ou sofrer pequenas pancadas.

“O paciente tem que olhar o pé todo dia e na hora que tem qualquer lesão, ele tem que ir no posto de saúde para ser avaliado”, orientou.

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Cientista político Ozeli Santos, professora Sandra Marins e jornalista Natália Costa | Foto: Piauí Hoje

Como cuidar de uma ferida em casa?

Durante a entrevista, a professora também explicou quais devem ser os primeiros cuidados diante de um corte ou ferimento.

Segundo Sandra, a primeira medida é lavar o local com água limpa e em abundância. Ela também desaconselha o uso de receitas caseiras e produtos inadequados diretamente sobre a lesão.

“Primeira coisa, lavar. Lavar com água abundante na hora que se tiver assim, nunca você vai passar pasta de dente, nada disso. É você lavar com água limpa, abundante para você tirar todo o resíduo de sujeira que tiver”, explicou.

A profissional também afirmou que o álcool não deve ser aplicado sobre a ferida e destacou a importância de procurar atendimento quando houver uma lesão, especialmente no caso de pessoas com diabetes.

Enfermagem como instrumento de transformação

Além de falar sobre feridas e saúde pública, Sandra Marina também emocionou-se ao falar sobre a carreira como professora. Ela contou que sempre sonhou em chegar à universidade e que considera um dos momentos mais marcantes de sua trajetória o dia em que tomou posse como professora da Universidade Estadual do Piauí (Uespi).

“Eu sou uma pessoa muito feliz de vocês estarem aí. (...) Eu tenho orgulho de ser professora da UESPI e tenho orgulho de ter os alunos que eu tenho”, afirmou.

Para ela, a enfermagem tem potencial para transformar a saúde pública e melhorar a qualidade de vida da população.

“E a enfermagem, ela pode fazer muito pela sociedade. Eu fico muito feliz em ser enfermeira e com as possibilidades que a gente tem de melhorar junto com a equipe multidisciplinar a saúde pública da nossa sociedade”, declarou.

A história de Sandra Marina, da Bahia ao Piauí, mostra como a atuação profissional pode ultrapassar os limites dos hospitais e chegar à comunidade. Por meio da assistência, da pesquisa, da docência e da capacitação de outros profissionais, ela busca transformar um problema de saúde pública em uma oportunidade de prevenção, cuidado e preservação da vida.

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Natália Costa é jornalista pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Profissional multimídia premiada com experiência na TV Band, Rádio Clube News e Rádio UFPI, Portal Piauí Hoje e assessoria de imprensa do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI). Vencedora de três prêmios de jornalismo universitário (Sebrae e TJ-PI). Possui capacidade de apuração e produção de conteúdo digital. Apaixonada por contar histórias e transformar informações complexas em notícias acessíveis.