REPROVADO
Por Luiz Brandão
29 de agosto de 2026 às 12:04 ▪ Atualizado há 1 hora
A sabatina de Flávio Bolsonaro (PL) no Jornal Nacional na sexta-feira (28) foi um teste de fogo para o candidato que busca pela primeira vez a Presidência da República. E o resultado, na avaliação de jornalistas e colunistas de peso, foi desastroso. O desempenho do filho de Jair Bolsonaro, que recebeu nota média 2,4 em uma escala de 1 a 5 dos colunistas do jornal O Globo, foi marcado por respostas ensaiadas, fuga de temas espinhosos e uma série de declarações classificadas como falsas. Mais do que uma atuação fraca, a entrevista levantou sérias questões sobre o preparo, o compromisso com a verdade e a visão de mundo do candidato.
A análise na Central das Eleições da Globo News foi implacável. A jornalista Natuza Nery foi direta: na sua avaliação, o candidato "enrolou demais, mentiu bastante". A comentarista Malu Gaspar endossou a crítica, afirmando ter identificado "várias mentiras em série" ao longo da entrevista. Não se tratou de um deslize isolado, mas de um padrão. Segundo as analistas, Flávio Bolsonaro "salpicou mentiras" do início ao fim, especialmente ao tentar desqualificar o ex-comandante da Aeronáutica, Baptista Júnior, e ao abordar o escândalo do Banco Master.
A fala do senador sobre as mudanças climáticas também foi alvo de duras críticas. Gerson Camarotti classificou o discurso como "negacionismo climático" e "absolutamente contra a ciência". Ao ser questionado se reconhecia o aquecimento global, Flávio relativizou o papel da ação humana e atribuiu os eventos extremos a períodos "cíclicos".
Camarotti foi além, afirmando que o candidato demonstrou nervosismo e "gaguejou bastante" ao tentar "passar um ar de veracidade naquilo que não é". A postura negacionista, que ignora até mesmo tragédias recentes como as enchentes no Rio Grande do Sul, evidencia uma irresponsabilidade preocupante em um candidato à presidência.
A "cola" na mão mostrou falta de conteúdo
Um dos momentos que mais chamaram a atenção foi a tentativa de Flávio Bolsonaro de repetir o gesto do pai, Jair Bolsonaro, e usar anotações na mão durante a entrevista. Longe de soar espontâneo, o ato foi interpretado como mais um reflexo de uma atuação excessivamente ensaiada. A colunista Vera Magalhães, em sua análise para O Globo, descreveu o candidato como alguém que adotou "um script de bom moço" e que soou "completamente ensaiado num minucioso media training". Ela observou que, na forma, Flávio pode ter parecido "palatável", mas no conteúdo se mostrou "cru e pouco crível".
A estratégia de desviar de perguntas incômodas ficou clara em vários momentos. Quando questionado sobre a relação com o miliciano Adriano da Nóbrega, a quem concedeu uma medalha, Flávio tentou defender a homenagem dizendo que, na época, o ex-PM era um "policial exemplar". A afirmação, no entanto, contrasta com checagens que mostram que Adriano da Nóbrega já tinha problemas com a Justiça antes da homenagem.

Banco Master e "Dark Horse": R$ 61 milhões sem explicação
O caso do Banco Master e do filme "Dark Horse" foi, sem dúvida, o ponto mais crítico da sabatina. Flávio Bolsonaro foi questionado por 12 minutos seguidos sobre os R$ 61 milhões que teriam sido repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso no Complexo Penitenciário da Pupuda, em Brasília. O dinheiro teria sido para a produção do filme sobre seu pai de Flávio.
Apesar da insistência, o candidato não apresentou uma prestação de contas clara. Limitou-se a dizer que o patrocínio foi "privado" e que "não tem nada de errado", além de tentar transferir a responsabilidade para a produtora e para o presidente Lula.
A jornalista Natuza Nery destacou que a afirmação de que o assunto estava "mais do que esclarecido" não corresponde à realidade, uma vez que ainda existem dúvidas sobre os financiadores, o fluxo dos recursos e a prestação de contas do projeto. O site The Intercept revelou que Flávio escreveu a Vorcaro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre", uma mensagem que contrasta com a tentativa do senador de minimizar a relação.
Irresponsabilidade fiscal e ausência de propostas
Além das questões éticas e da postura negacionista, a sabatina expôs a fragilidade de Flávio Bolsonaro em temas centrais para o país, como a economia. Gerson Camarotti criticou a falta de compromisso do candidato com a questão fiscal. Míriam Leitão e Vera Magalhães apontaram que, embora Flávio estivesse treinado, ele usou respostas prontas para se esquivar de detalhes sobre temas sensíveis. O candidato evitou se comprometer com medidas impopulares, prometeu apenas cortar ministérios e afirmou que sua eleição baixaria os juros, sem apresentar um plano factível.
A sabatina de Flávio Bolsonaro na TV Globo foi um retrato de suas limitações. Mais do que uma performance ruim, a entrevista revelou um candidato que parece mais preocupado em seguir um roteiro ensaiado do que em apresentar propostas concretas e honestas para o Brasil. As acusações de mentiras, o negacionismo científico, a fuga de explicações sobre o Banco Master e a falta de compromisso com a responsabilidade fiscal são sinais alarmantes.
O eleitor brasileiro espera de um presidente da República, no mínimo, compromisso com a verdade, respeito à ciência e clareza sobre como pretende governar. Pelo que foi visto na noite de sexta-feira, Flávio Bolsonaro está muito longe de atender a esses requisitos. A nota 2,4 dada pelos colunistas de O Globo parece, neste contexto, até generosa.
Fonte: TV Globo/Globo News
Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
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