O que quatro adolescentes fizeram com o cão Orelha, na Praia Brava, uma das regiões mais nobres de Florianópolis, não é apenas um episódio isolado de crueldade juvenil. É um retrato cru, direto e brutal de algo que acontece todas as noites em muitas casas do Brasil. A morte do cão Orelha não é exceção. É sintoma. É continuidade. É estrutura. É o mesmo padrão que sustenta a violência doméstica, a violência de gênero, o feminicídio, o estupro, o abuso infantil e a naturalização da dor como espetáculo.
Esses agressores são futuros maridos. Futuros pais. Futuros chefes. Futuros vizinhos. Futuros homens socializados dentro de uma cultura que ensina que poder é domínio, que força é valor, que empatia é fraqueza e que a dor do outro é irrelevante. O que eles fizeram com um cachorro não nasce do nada. Nasce de uma formação social que legitima a violência como linguagem, como forma de afirmação de identidade, como mecanismo de pertencimento.
A violência contra animais não é um desvio isolado: ela é uma escola da violência. Pesquisas mostram que a crueldade contra animais é um dos indicadores mais fortes de futuros comportamentos violentos contra pessoas. Não por acaso, estudos em criminologia, psicologia social e direitos humanos apontam que agressores domésticos frequentemente apresentam histórico de maus-tratos a animais. A violência é aprendida. É treinada. É testada. E muitas vezes começa em quem não pode se defender.
Heleieth Saffioti já explicava que a violência não é apenas um ato individual, mas um produto de estruturas sociais que organizam relações de poder. Rita Segato analisa a violência como linguagem política, como pedagogia da crueldade. Bell hooks denuncia o patriarcado como sistema de dominação que ensina homens a controlar, punir e subjugar corpos considerados mais fracos. Silvia Pimentel, no campo dos direitos humanos, mostra como a naturalização da violência cria uma cultura de impunidade. Tudo isso converge no mesmo ponto: a violência não é exceção, é método.
Quando adolescentes torturam um animal até a morte, o que está em jogo não é apenas um crime ambiental. É uma formação subjetiva baseada na desumanização. É a normalização do sofrimento. É a ausência completa de empatia. É a construção de uma identidade masculina baseada na brutalidade.
O Brasil já é um dos países com maiores índices de violência doméstica, feminicídio e abuso infantil. Milhões de mulheres são agredidas todos os anos dentro de casa. Crianças crescem em lares onde gritos, espancamentos e humilhações são rotina. Animais domésticos são espancados, abandonados, mortos diariamente, muitas vezes como instrumento de controle psicológico sobre mulheres e crianças. A violência contra animais e a violência de gênero não são fenômenos separados: são expressões do mesmo sistema de poder.
O que aconteceu com Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil. Só que, na maioria das vezes, as vítimas são mulheres, crianças e outros animais. Só que, quase sempre, isso acontece entre quatro paredes, longe das câmeras, longe da praia nobre, longe da comoção pública.
A comoção com o caso Orelha é importante, mas precisa ser honesta. Não basta revolta momentânea. Não basta indignação em rede social. Não basta linchamento simbólico. Se não houver reflexão estrutural, tudo se repete.
Esses meninos não nasceram violentos. Foram formados. Foram ensinados. Foram moldados por uma cultura que glorifica a força, que despreza o cuidado, que ridiculariza a sensibilidade, que ensina que vulnerabilidade é fraqueza. Foram educados em um país que naturaliza o sofrimento alheio.
A violência animal é uma das faces mais visíveis da falência ética de uma sociedade. Porque ela revela o grau máximo de desumanização: machucar quem não tem linguagem para se defender, quem não pode denunciar, quem não pode reagir.
E aqui eu falo no nível mais pessoal possível: eu fiquei pensando se fosse minhas cachorrinhas, Frida e Luna. Fiquei imaginando o medo, a dor, a confusão, o desespero. Fiquei pensando no olhar que pede ajuda e não recebe. Fiquei pensando no silêncio que grita. Fiquei pensando no vazio que fica depois. A violência deixa marcas que não aparecem em fotos. Ela destrói vínculos, destrói confiança, destrói a possibilidade de mundo.
Não existe crueldade pequena. Não existe violência leve. Não existe “brincadeira” quando há sofrimento.
A sociedade que aceita a violência contra animais como algo menor está, na prática, aceitando todas as outras violências. Está dizendo que algumas vidas valem menos. Está ensinando que a empatia é seletiva. Está treinando futuros agressores.
A morte do cão Orelha precisa ser mais do que um caso. Precisa ser um espelho. Um alerta. Um divisor.
Porque quem aprende a torturar um animal aprende, também, a desumanizar pessoas.
E quem normaliza isso está, conscientemente ou não, participando da produção de futuros maridos violentos, futuros pais abusivos e futuros homens que transformarão a intimidade em território de dominação.
Não é só sobre um cachorro.
É sobre que tipo de sociedade estamos formando.
E, principalmente, sobre quem estamos permitindo que se tornem homens.
Yasmin Lyra Sousa é estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres
Redação
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