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OPINIÃO DO LEITOR

Para que Janaína não seja apenas um nome

Esse caso não é apenas sobre Janaína. Ele é sobre todos nós.

Yasmin Lyra Sousa | Estudante de Ciências Sociais

Sexta - 30/01/2026 às 13:00



Foto: Reprodução/Redes Sociais Janaína Bezerra da Silva
Janaína Bezerra da Silva

Três anos. Três anos desde que o nome de Janaína Bezerra deixou de ser apenas o de uma jovem estudante para se tornar símbolo de uma ferida aberta no coração da universidade brasileira. Três anos de esperança, de indignação, de revolta e de um silêncio que grita mais alto do que qualquer sentença. O julgamento do acusado foi anulado, e junto com essa anulação, mais uma vez, a mensagem que ecoa é cruel: a vida das mulheres pode ser colocada em suspenso, arquivada, empurrada para depois, como se o tempo fosse capaz de acabar com a violência, como se a dor tivesse prazo de validade.

Esse caso não é apenas sobre Janaína. Ele é sobre todos nós. Ele é sobre a cultura do silêncio que atravessa corredores, salas de aula, festas universitárias, delegações, tribunais e lares. Ele é sobre um sistema que insiste em estruturas de proteção, reputações e instituições, enquanto corpos de mulheres são violados, apagados, desacreditados e transformados em estatística.

Quando esse crime aconteceu, eu tinha acabado de entrar na universidade. Eu carregava sonhos, expectativas, a ideia de que aquele espaço seria um território de liberdade, de pensamento crítico, de construção de futuro. A universidade, para mim, era independente da possibilidade. Mas junto com os livros, os novos colegas e as salas cheias, veio também o medo. Veio a consciência brutal de que nem mesmo o espaço que deveria ser de formação e proteção está livre da violência patriarcal. A morte de Janaína atravessou minha entrada na vida universitária como um choque, como um aviso não solicitado: o saber não nos protege em sigilo, o diploma não nos blinda, a instituição não nos garante segurança.

Bell Hooks escreveu que o patriarcado é um sistema político que molda nossas relações, nossas instituições e nossas subjetividades. O caso de Janaína é uma materialização dessa tese. Não se trata de um “caso isolado”. Nunca é. Trata-se de uma engrenagem que funciona para silenciar, desacreditar, relativizar e, muitas vezes, culpar a própria vítima. A cultura do silêncio não é ausência de fala: é uma política ativa de abafamento. É quando se pede cautela para não “manchar a imagem” da universidade. É quando se fala em “esperar a justiça” enquanto os anos passam. É quando o foco se desloca do crime para detalhes que nada dizem respeito à responsabilidade do agressor.

Simone de Beauvoir nos ensinou que não se nasce mulher, torna-se. E, nesse tornar-se, aprender também a calar. Aprendemos que denunciar é arriscado, que falar pode nos expor, que insistir pode nos transformar em incômodas, exageradas, históricas. A cultura do silêncio é pedagógica: ela ensina às mulheres que a dor deve ser engolida, que o trauma deve ser administrado em silêncio, que a revolta deve ser domesticada.

Mas eu me recuso a domesticar a minha revolta. A morte de Janaína me abalou porque ela poderia ser eu. Poderia ser qualquer colega meu. Qualquer mulher que atravesse os obstáculos da universidade pode acreditar que ali encontrará proteção institucional. A anulação do julgamento não é apenas uma questão jurídica: é um recado político. É uma reafirmação de que o sistema ainda falha, repetidas vezes, quando se trata de proteger mulheres e responsabilizar agressores.

Judith Butler fala sobre quais vidas são consideradas passíveis de luto, quais mortes mobilizam comoção pública e quais são rapidamente normalizadas. Janaína é lembrada, sim, mas quantas outras têm seus nomes apagados? Quantas não viram manchete? Quantas são reduzidas a números frios em relatórios? A cultura do silêncio também opera por seleção: algumas dores ganham espaço, outras são soterradas.

Djamila Ribeiro nos lembra que falar é um ato político. Romper o silêncio é romper com uma estrutura que depende do nosso medo para continuar operando. Escrever sobre Janaína é, para mim, um gesto de memória e de enfrentamento. É dizer que não aceito que esse caso seja tratado como mais um. É afirmado que a universidade precisa ser responsabilizada, que o sistema de justiça precisa ser cobrado, que a sociedade precisa parar de naturalizar a violência contra mulheres.

Angela Davis nos ensina que não basta não ser violento: é preciso ser ativa antiviolência, antirracista, antipatriarcal. A cultura do silêncio é cúmplice. Ela protege agressores, preserva estruturas e adolescentes vítimas. Ela se transforma em algo privado, quando, na verdade, a violência contra mulheres é um problema público, político e estrutural.

O que mais me fez não é apenas a morte de Janaína. É uma repetição. É uma previsibilidade. É saber que, enquanto escrevo, outras mulheres estão atravessando espaços acadêmicos com medo. É saber que muitas já foram silenciadas antes mesmo de tentar falar. É saber que a anulação de um julgamento não é apenas um detalhe processual, mas parte de uma especificação que historicamente falha com as mulheres.

Entrar na universidade deveria ser um rito de passagem para a autonomia, para a construção de sonhos, para a expansão de horizontes. Para mim, foi também um encontro precoce com o luto coletivo e com a consciência política. Janaína me ensinou, mesmo sem me conhecer, que estudar também é resistir. Que ocupar espaços também é disputar narrativas. Que não podemos aceitar a normalização da violência como parte do “preço” de existir como mulher.

Audre Lorde escreveu que nosso silêncio não nos protegerá. A história de Janaína é uma prova dolorosa disso. O silêncio nunca protegeu as mulheres. Ele protege sistemas. Ele protege agressores. Ele protege a falsa ideia de normalidade. Por isso, transformar o luto em luta não é uma escolha estética: é uma necessidade política.

Eu escrevo porque me recuso a esquecer. Eu escrevo porque a memória é uma forma de justiça quando a justiça falha. Eu escrevo porque Janaína não é apenas um nome em uma notícia antiga: ela é um marco na minha trajetória, na minha consciência, na minha forma de olhar para a universidade e para o mundo. Ela é uma lembrança constante de que nossos corpos são políticos, de que nosso dor é coletivo e de que nossa voz é uma ferramenta de enfrentamento.

Três anos depois, o caso segue aberto, e a ferida também. Mas se há algo que a cultura do silêncio não conseguiu fazer, foi nos calar por completo. Seguimos falando. Seguimos escrevendo. Seguimos solicitando. Porque cada vez que uma mulher é silenciada, todos nós somos atingidos. E cada vez que uma mulher rompe o silêncio, abre-se uma fresta de possibilidade, de justiça, de transformação.

Que Janaína não seja apenas memória. Que seja também motor. Que seja grito. Que seja compromisso. Que seja uma prova de que não aceitamos mais que uma universidade sangre em silêncio. Que a nossa dor vire palavra, e que a palavra vire ação.

Yasmin Lyra Sousa (foto acima) é estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres | Foto: arquivo pessoal

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