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OPINIÃO DO LEITOR

O Mesmo Dia, o Mesmo Sistema: Quando o Corpo da Mulher é Alvo e o País Finge Surpresa

Uma única lógica brutal que atravessa o Brasil de ponta a ponta: a certeza masculina de que o corpo da mulher é território livre

Yasmin Lyra Sousa - Estudante de Ciências Sociais

Terça - 27/01/2026 às 08:41



Foto: Violência contra a mulher é crime
Violência contra a mulher é crime

No mesmo dia em que o país acorda com a notícia de que 2025 registra um recorde histórico de feminicídios — quatro mulheres assassinadas por dia — outra manchete escancara a mesma ferida: um jovem de 19 anos é preso após se masturbar e ejacular em uma passageira de ônibus em Teresina. Dois fatos. Um só sistema. Uma única lógica brutal que atravessa o Brasil de ponta a ponta: a certeza masculina de que o corpo da mulher é território livre, disponível, abrangente, violável.

Não são notícias desconectadas. Não são abordagens. Não são “casos isolados”. Eles são capítulos do mesmo livro nojento, escrito diariamente com sangue, medo e humilhação. Um livro que o Brasil insiste em fingir que não leu, apesar de ser gritado todos os dias nas páginas policiais, nos corredores dos hospitais, nos relatos abafados de mulheres que sobreviveram.

Quatro mulheres mortas por dia. Isso não é estatística, é massacre. É uma guerra não declarada contra metade da população. É a prova de que falhamos como sociedade, como Estado, como cultura. E enquanto mulheres são assassinadas por parceiros, ex-parceiros, conhecidos ou completos estranhos, outras são violentadas em plena luz do dia, dentro de um ônibus, no caminho do trabalho, da escola, da vida. O recado é claro e repetido à exaustão: não existe lugar seguro para ser mulher.

O jovem que ejacula em uma passageira não é um “desviante”. Ele é produto. Produto de uma cultura que erotiza a violência, que normaliza o assédio, que ensina meninos desde cedo que desejo é ordem e que o “não” feminino é detalhe. Ele era porque acredita — consciente ou inconscientemente — que pode. Porque milhares antes dele pôde. Porque, na maioria das vezes, nada acontece. Porque o constrangimento da vítima costuma ser maior que a punição do agressor.

E é exatamente essa mesma lógica que mata. O feminicídio não nasce no último golpe, no tiro final ou na fachada derradeira. Ele começa no assédio ignorado, na piada machista, no toque “sem querer”, na perseguição romantizada, no ciúme tratado como prova de amor, na denúncia desacreditada. Começa quando a sociedade escolhe proteger as reputações masculinas em vez de vidas femininas.

O que conecta um assassinato e uma ejaculação forçada é uma desumanização. É a ideia de que a mulher não é sujeita, é objeto. Não é pessoa, é coisa. Algo que se usa, se controla, se pune, se derrota. Quando não obedece, apanha. Quando resiste, morre. Quando apenas existe, é atacado.

É impossível não ver o cinismo coletivo. As mesmas vozes que se chocam com o feminicídio são aquelas que relativizam o assédio. As mesmas que pedem “pena de morte para estuprador” são as que perguntam como a mulher estava vestida. As que dizem “bandido bom é bandido morto” são as que defendem agressor como “um jovem que errou”. O Brasil é especialista em indignação seletiva e covardia estrutural.

Quatro mulheres mortas por dia não geram comoção nacional. Não param o país. Não interromperam campeonatos, não derrubaram governos, não mobilizaram editoriais furiosos por semanas. Viram número. Viram a rotina. Viram ruído de fundo. Isso, por si só, já é uma forma de violência. Talvez uma das mais cruéis: a indiferença.

Enquanto isso, mulheres seguem adaptando suas vidas para sobreviver. Mudam trajetos, seguram as chaves entre os dedos, fingem conexões, descem do ônibus antes do ponto, evitam roupas, evitam horários, evitam existir. O agressor não muda nada. A vítima muda tudo. Essa é a regra não escrita do pacto social brasileiro.

Não há neutralidade possível diante disso. Não há meio-termo. Não há discurso “equilibrado”. O que existe é uma escolha diária entre enfrentar a misoginia estrutural ou continuar sendo cúmplice dela. E o Brasil, reiteradamente, escolhe a cumplicidade. Escolhe a omissão. Escolhe o silêncio confortável.

É preciso dizer com todas as letras: vivemos em um país onde ser mulher é um fator de risco. Onde o corpo feminino é tratado como espaço público. Onde a violência sexual é minimizada e o assassinato é a etapa final de um processo amplamente tolerado. Não há falta de lei. Não há falta de dados. É falta de vontade política, de transformação cultural e de enfrentamento radical do machismo.

Radical, sim. Porque o problema é radical. Ele está na raiz. E soluções superficiais não salvam vidas. Campanhas vazias, discursos protocolares e notas de repúdio não impedem que amanhã mais quatro mulheres morram. Não impeça que outro ônibus se transforme em cena de crime.

No mesmo dia, duas notícias. No mesmo país, a mesma vergonha. Ou enfrentaremos essa realidade brutal, ou continuaremos contando cadáveres e causando isso de tragédia. Não é significativo. É escolha. E toda escolha tem responsáveis.

Texto escrito por Yasmin Lyra Sousa, estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres

Redação

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