No dia 6 de fevereiro, o mundo marca o Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Criado pela Organização das Nações Unidas, oficialmente por meio da Resolução 67/146 da Assembleia Geral, em 2012, esse dia existe para denunciar, combater e erradicar uma das formas mais brutais, silenciosas e normalizadas de violência contra meninas e mulheres no planeta.
Mas marcar uma data no calendário não salva corpos. Não devolve clitóris. Não reconstruí infâncias. Não apaga traumas. Não cura a dor física que atravessa a vida inteira nem a dor psicológica que atravessa gerações. O que esse dia escancara é algo mais cruel: o mundo sabe. E mesmo sabendo, permite que continue.
A mutilação genital feminina não é um erro cultural inofensivo. Não é uma “diferença de trajes”. Não é uma escolha religiosa legítima. Não é um ritual neutro. É violência extrema baseada em gênero. É controle do corpo feminino. É uma tecnologia ancestral de dominação patriarcal que transforma a sexualidade das meninas em território de proteção, medo e submissão. É um projeto político de controle dos corpos, disfarçado de tradição.
Segundo dados da ONU, UNICEF e UNFPA, mais de 200 milhões de meninas e mulheres vivas hoje já foram submetidas a algum tipo de mutilação genital feminina. Milhões correm risco todos os anos. A prática ocorre em pelo menos 90 países, atravessa continentes, migra com comunidades, se adapta, se esconde, se moderniza, se medicaliza, mas não desaparece. Ela se transforma para sobreviver. E o mundo, muitas vezes, finge que não vê para não “ofender culturas”, para não “interferir”, para não “criar conflitos diplomáticos”. Essa neutralidade mata. Essa cautela mutila. Esse silêncio é cúmplice.
A mutilação genital feminina é definida pela Organização Mundial da Saúde como todos os procedimentos que envolvem a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos ou qualquer dano aos órgãos genitais por motivos não médicos. Traduzindo sem eufemismo: é cortar, queimar, costurar, ferir, deformar, destruir partes do corpo de meninas — geralmente ainda crianças — sem anestesia adequada, sem consentimento, sem necessidade médica, sem qualquer justificativa que não seja o controle social sobre o corpo feminino.
O clitóris não é cortado por acaso. Ele é cortado porque dá prazer. Porque representa autonomia sexual. Porque simboliza que o corpo da mulher não existe apenas para reprodução, mas também para sentir, desejar, escolher. Cortar o clitóris é uma mensagem política: seu prazer não importa. Seu corpo não é seu. Sua dor é aceitável. Sua submissão é esperada.
Quando uma menina é mutilada, não é apenas um ato físico. É uma inscrição de poder no corpo. É a sociedade dizendo: você pertence. Seu corpo pertence à família, à comunidade, ao marido futuro, à tradição, à honra coletiva. Nunca a você.
As consequências são devastadoras: hemorragias, infecções, dor crônica, dificuldades urinárias, complicações no parto, infertilidade, risco aumentado de morte materna e neonatal, trauma psicológico profundo, ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, disfunções sexuais, medo do próprio corpo, ruptura da relação com o prazer, com a intimidade, com a autonomia. Não é só um corte. É uma sentença vitalícia.
E mesmo assim, o mundo negocia. Relativiza. Usa a palavra “cultura” como escudo moral. Mas cultura não é sagrada quando produz violência. A tradição não é intocável quando mutila crianças. A religião não é legítima quando exige sangue infantil. Nenhuma identidade coletiva tem o direito de se sustentar sobre a destruição física e emocional de meninas.
Há uma hipocrisia global em como tratamos esse tema. Em muitos países, há discursos inflamados sobre direitos humanos, igualdade de gênero, empoderamento feminino, enquanto, ao mesmo tempo, governos hesitam em enfrentar a mutilação genital feminina com a radicalidade necessária pelo medo de parecerem “imperialistas culturais” ou “insensíveis”. Mas não existe sensibilidade possível diante da tortura. Não existe neutralidade aceitável diante da violência extrema.
Dizer tolerância zero não pode ser apenas slogan. Tolerância zero significa zero discussões. Zero relativizações. Zero justificativas culturais. Zero concessões diplomáticas. Zero medo de nomear o que é: tortura de gênero.
E é preciso dizer algo desconfortável: a mutilação genital feminina não sobreviveu apenas por ignorância. Ela sobreviveu por estruturas de poder. Sobrevive porque homens, líderes religiosos, líderes comunitários, sistemas patriarcais e até mulheres socializadas dentro dessas estruturas reproduzem a violência como mecanismo de controle e pertencimento.
Sobrevive porque cortar uma menina é mais barato do que educar uma comunidade inteira sobre igualdade de gênero. Sobrevive porque o corpo feminino sempre foi visto como território disponível para disciplina social.
Não basta criminalizar. A criminalização sem proteção social empurra a prática para a clandestinidade. Não bastam campanhas pontuais. Não bastam vídeos institucionais uma vez por ano. Não basta hashtags. É necessário investimento maciço, contínuo e político em educação, saúde, proteção social, empoderamento econômico de mulheres, enfrentamento direto do patriarcado local, proteção real para meninas em risco, responsabilização de líderes comunitários, religiosos e profissionais de saúde que participam ou se omitem.
É preciso coragem política para dizer que algumas tradições precisam morrer para que as meninas possam viver inteiras.
Também é preciso olhar para o próprio espelho. Países que se dizem “livres disso” muitas vezes fecham os olhos para casos em comunidades migrantes. Fingem que é um problema distante. Não é. A mutilação genital feminina atravessa fronteiras. Ela existe em diásporas. Não existe silêncio nas consultas médicas. Existe em meninas que não sabem que foram mutiladas até sentirem dor no parto, na relação sexual, na própria identidade corporal. Existem em sistemas de saúde despreparados para considerar, acolher e denunciar.
Há uma violência dupla: a mutilação e o desligamento. Primeiro o corpo é ferido. Depois, a sociedade finge que não vê.
Este artigo não é confortável porque o tema não é confortável. Não deve ser. Conforto é privilégio de quem não teve o corpo violado em nome da honra alheia. Conforto é luxo de quem nunca teve a sexualidade arrancada antes mesmo de ser descoberta.
O Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina existe para lembrar que neutralidade é violência. Que relativismo cultural sem limites é cumplicidade. Que direitos humanos não são negociáveis. Que o corpo de uma menina vale mais do que qualquer tradição.
Ser radical aqui não é exagero. Radical é o corte. Radical é a costura. Radical é a dor. Radical é o silêncio institucional. Radical é permitir que milhões de meninas continuem sangrando enquanto o mundo escreve resoluções e publica relatórios.
Não existe meio termo entre direitos humanos e mutilação. Ou estamos do lado das meninas inteiras, ou estamos do lado da tradição que as soluções.
Tolerância zero não é frase bonita. É compromisso com confronto. É disposição para romper pactos culturais violentos. É coragem para dizer: isso não é aceitável, em lugar nenhum, sob nenhuma justificativa, contra nenhuma menina.
Porque cada clitóris cortado é uma mensagem ao mundo. E o mundo precisa responder com algo mais forte do que silêncio.
Yasmin Lyra Sousa é estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres | Foto: arquivo pessoal
Redação
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