Nem sempre uma mulher que chega ao consultório de um psicólogo está procurando ajuda porque sofreu uma agressão física. Às vezes, ela chega falando sobre ansiedade, tristeza, problemas no relacionamento ou dificuldades familiares. Aos poucos, durante a escuta, podem aparecer sinais de controle, manipulação, violência psicológica, sexual ou financeira.
É nesse espaço de acolhimento que a Psicologia pode assumir um papel que vai muito além do tratamento da saúde mental: ajudar a mulher a compreender que determinadas situações não são normais e podem fazer parte de um relacionamento abusivo.
Em casos de violência contra a mulher, o psicólogo pode acionar a polícia e outros serviços da rede de proteção quando identifica uma situação de risco grave ou violência em andamento. A atuação do profissional pode ser decisiva para mulheres que, muitas vezes, chegam à terapia sem conseguir reconhecer que estão vivendo um relacionamento abusivo.
A reflexão ganha ainda mais importância nesta quinta-feira (27), quando é celebrado o Dia Nacional da Psicóloga e do Psicólogo. A data foi escolhida por marcar a publicação da Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, que regulamentou a profissão de psicólogo no Brasil. O Dia Nacional do Psicólogo foi oficializado posteriormente pela Lei nº 13.407/2016.
Hoje, o Brasil tem mais de 530 mil psicólogas e psicólogos, segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP), que destaca a presença desses profissionais não apenas em consultórios, mas também na saúde pública, assistência social, escolas, sistema de Justiça e outras áreas.
Entre esses profissionais está o psicólogo Pedro Ajax Rodrigues de Oliveira, formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), especialista em Terapias Cognitivas e Comportamentais e terapeuta Cognitivo-Comportamental Construtivista, registrado no CRP 21/04620.
Para o psicólogo Pedro Ajax, a terapia pode ser justamente o primeiro lugar em que uma mulher consegue falar, com segurança, sobre aquilo que está vivendo dentro de casa. A partir dessa conversa, o profissional pode ajudar a identificar padrões de violência e construir, junto com a paciente, estratégias de proteção.
“Na maior parte das vezes, quando uma mulher está sofrendo violência, se essa violência não for muito subliminada, ela sabe que está sofrendo violência, mas algumas não aceitam, digamos assim, para si próprias. Mas, independente se ela sabe ou se ela não sabe, por falta de informação ou pela própria cultura, que entrojeta muitas vezes na cabeça da mulher que algumas violências ela tem que passar, a gente tem imagens e recursos muito claros para mostrar como é que funciona o ciclo do abuso."
Como funciona o ciclo da violência
O chamado ciclo da violência doméstica ajuda a explicar por que uma mulher pode permanecer em uma relação abusiva mesmo depois de sofrer agressões. Segundo material do Ministério das Mulheres, o ciclo é dividido em três fases: tensão, agressão e lua de mel.
Na primeira etapa, o ambiente é marcado pelo aumento das tensões, ameaças, controle e conflitos. Depois ocorre a agressão, que pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral. Na terceira fase, conhecida como lua de mel, o agressor pode pedir perdão, fazer promessas de mudança e apresentar um comportamento afetuoso.
A aparente reconciliação, porém, pode ser seguida novamente pelo aumento da tensão, reiniciando o ciclo.
É justamente essa dinâmica que pode ser trabalhada na terapia. O psicólogo Pedro Ajax explica que uma das estratégias utilizadas é ajudar a mulher a recuperar características e atividades que foram sendo abandonadas durante o relacionamento.
“Tem vários trabalhos que a gente faz, um deles é um trabalho da gente tentar resgatar a personalidade que essa mulher tinha antes dessa pessoa dominar. Então, por conta disso, a gente faz o resgate, de coisas que ela fazia antes, que ela gostava e que ela deixou de fazer.”
Segundo o especialista, esse processo pode contribuir para que a mulher volte a reconhecer a própria identidade e perceba mudanças que aconteceram durante a relação.
“O objetivo é voltar a perceber a pessoa incrível que ela era, que ela deixou de ser por causa desse ciclo de violência, e isso vai aumentando a autoestima”, afirma.
Quando o psicólogo precisa acionar a rede de proteção
Uma das informações menos conhecidas sobre o atendimento psicológico em situações de violência está relacionada aos limites do sigilo profissional.
O psicólogo Pedro Ajax explica que, diante de situações graves, especialmente quando existe risco à integridade física da mulher ou violência em andamento, o profissional precisa tomar providências.
“Em casos em que o psicólogo detecta risco imediato e grave para a integridade física da mulher ou ele detecta um abuso em andamento, pode ser financeiro, pode ser sexual, nós somos obrigados a quebrar o sigilo e fazer a notificação para a polícia.”
Ele relata ainda que já recorreu às autoridades para proteger pacientes.
“Então, eu prefiro sempre fazer a denúncia, mesmo que anônima. Eu faço o BO, a polícia notifica e, a partir daí, em conjunto comigo ou com a própria polícia, pode ser feito o acionamento de outros serviços da rede de proteção à mulher”, explica.
A legislação brasileira determina a notificação compulsória dos casos em que houver indícios ou confirmação de violência contra a mulher atendida em serviços de saúde públicos ou privados. Pela Lei nº 10.778/2003, com alterações posteriores, esses casos devem ser comunicados à autoridade policial no prazo de 24 horas, preservando-se o caráter sigiloso da notificação.
O Conselho Federal de Psicologia também publicou, em 2025, a Nota Técnica nº 25, específica sobre a atuação de psicólogas com mulheres em situação de violência. O documento estabelece orientações para decisões relacionadas ao sigilo profissional, notificações compulsórias e limites da intervenção em diferentes contextos.
Psicologia também atua na prevenção
Para psicólogo Pedro Ajax, o trabalho do psicólogo não se limita ao consultório. A profissão também pode atuar na prevenção de comportamentos violentos e na transformação das relações sociais.
“A psicologia atua como meio de transformação social com várias fontes diferentes. Na psicologia comunitária, social e comunitária, dentro das comunidades, dentro das instituições como o CAPS, fazendo palestras, dentro das escolas como a psicologia escolar, a gente atua transformando a sociedade na própria clínica.”
Ele destaca que o acompanhamento psicológico também pode ajudar pessoas a desenvolver formas mais saudáveis de estabelecer relações, sem recorrer à violência, chantagem ou abuso.
Na avaliação do psicólogo, esse compromisso também está relacionado aos próprios princípios da profissão.
“No nosso juramento e no nosso código de ética, a gente jura e a gente aceita ir contra as desigualdades e violências sociais. Portanto, não é só o psicólogo pode, ele deve ser agente de transformação e ir contra quebra dos direitos humanos”, afirma.
Onde denunciar violência contra a mulher no Piauí
A mulher não precisa enfrentar uma situação de violência sozinha. No Piauí, existem diferentes canais de denúncia e serviços de proteção.
Em situações de emergência ou quando a agressão está acontecendo, a orientação é ligar para o 190, da Polícia Militar.
O Ligue 180, do Ministério das Mulheres, funciona 24 horas, gratuitamente, e recebe denúncias, oferece orientação e encaminha os casos à rede de atendimento. O serviço também está disponível pelo WhatsApp (61) 9610-0180, pelo e-mail central180@mulheres.gov.br e por atendimento em Libras. A denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento da violência.
No Piauí, o Governo do Estado também disponibiliza a Central de Acolhimento à Mulher “Ei, Piauí, Não se Cale”, pelo telefone 0800 000 1673, com atendimento 24 horas, além do BO Fácil, pelo 0800 086 0190. Também é possível acionar a Guarda Municipal pelo 153.
A Polícia Civil permite ainda registrar ocorrência pela Delegacia Virtual e solicitar medida protetiva de urgência pela internet. Em Teresina, existem Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs), a Casa da Mulher Brasileira e a Central de Flagrantes de Atendimento à Mulher e aos Grupos Vulneráveis, que funciona 24 horas.
As medidas protetivas podem ser concedidas mesmo sem boletim de ocorrência, inquérito ou ação judicial, quando houver situação de risco à integridade física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral da mulher.
Terapia ainda é acessível para uma parcela pequena da população
Apesar da expansão da Psicologia no país, o acesso à terapia ainda não faz parte da realidade da maioria dos brasileiros. Uma pesquisa do Instituto Cactus, citada em levantamento sobre saúde mental, apontou que aproximadamente 5% dos brasileiros faziam psicoterapia no período analisado. Entre aqueles que estavam em tratamento, 43% haviam começado havia menos de um ano.
Dados do IBGE também mostram a importância da psicoterapia no cuidado em saúde mental: na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, entre os adultos que tinham diagnóstico de depressão, 18,9% faziam psicoterapia.
Mais do que falar sobre ansiedade, depressão ou autoconhecimento, a terapia pode abrir espaço para que uma pessoa consiga nomear aquilo que está vivendo. No caso das mulheres vítimas de violência, essa escuta pode ser o primeiro passo para reconhecer o abuso, recuperar a própria autonomia e acessar a rede de proteção.
No Dia do Psicólogo, talvez uma das formas mais importantes de celebrar a profissão seja justamente lembrar que, para algumas pessoas, ser ouvido pode ser o começo de uma mudança — e, em determinadas situações, até mesmo um pedido de socorro que precisa ser reconhecido e acolhido.