“O SUS representou a esperança”: pacientes do Piauí relatam a importância da rede pública

Entre cirurgias, tratamentos de alto custo e acompanhamento contínuo, Kelly e Mayrla encontraram no SUS o atendimento necessário para enfrentar doenças

Para empreendedora Kelly Rodrigues, 38 anos, o tratamento contra um câncer de cabeça e pescoço não terminou quando acabaram as sessões de radioterapia. Ainda hoje, ela convive com as marcas deixadas pela doença: perdeu mais de 20 quilos, tem dificuldade para falar e não consegue se alimentar normalmente. Para enfrentar cirurgias, exames e um tratamento que não teria condições de pagar sozinha, ela contou com o SUS.

A dona de casa Mayrla Rodrigues da Costa, de 35 anos, também depende da rede pública para seguir. Há 17 anos ela convive com a retocolite ulcerativa e recebe pelo SUS o medicamento que mantém a doença controlada, um tratamento que, segundo ela, pode custar até R$ 27 mil.

As histórias das duas pacientes de Teresina ajudam a mostrar, em escala pessoal, a importância do Sistema Único de Saúde (SUS), que completa 36 anos neste sábado, 19 de setembro.  Em momentos diferentes da vida e diante de doenças distintas, Kelly e Mayrla encontraram na rede pública o acesso a tratamentos que seriam difíceis, ou até impossíveis, de custear por conta própria.

Kelly, moradora do bairro Satélite, na zona Leste, ainda está se recuperando de uma das fases mais difíceis da própria vida. O tratamento contra um câncer de cabeça e pescoço envolveu duas cirurgias e sessões de radioterapia. Uma parte da língua precisou ser retirada, deixando dificuldades na fala. A alimentação também mudou.

Atualmente, ela consegue consumir principalmente alimentos pastosos e líquidos. A perda de peso foi superior a 20 quilos e, mesmo depois do fim da radioterapia, os efeitos do tratamento ainda fazem parte da rotina.

Durante o período mais intenso da radioterapia, Kelly precisava receber soro diariamente porque estava muito debilitada. A colocação de uma sonda, segundo ela, não foi possível por causa das condições da boca e da garganta, também afetadas pelo tratamento.

A radioterapia acabou se tornando a etapa mais dolorosa de todo o processo.

“Eu fiquei sem comer, sem beber água, sem nada. Fiquei bastante debilitada e perdi bastante peso”, conta.

A situação chegou a um ponto em que Kelly pensou que não conseguiria sobreviver.

“Houve um momento em que eu pensei mesmo que eu ia morrer. Fiquei muito mal. Até meu esposo e minha filha pensaram que eu realmente não iria suportar o processo”, lembra.

Hoje, ela continua em acompanhamento com uma médica de cabeça e pescoço no Hospital São Marcos e passa por consultas e exames para avaliar os resultados do tratamento. O retorno ao trabalho ainda não é uma possibilidade. Empreendedora, Kelly tem uma pizzaria na zona Leste de Teresina, mas está afastada das atividades enquanto se recupera.

A rotina, por enquanto, é de hospital, exames e consultas.

Duas cirurgias que ela não teria condições de pagar

No meio de uma experiência marcada por dor, medo e incertezas, Kelly também viu de perto o peso financeiro que uma doença grave pode representar.

As duas cirurgias foram realizadas pelo SUS. A radioterapia também foi feita pela rede pública, assim como a maior parte dos exames realizados durante o tratamento. Segundo Kelly, se precisasse pagar pelas cirurgias, o custo poderia variar entre R$ 25 mil e R$ 35 mil.

“Eu não tinha condição de pagar esse valor. Então o SUS cobriu as duas cirurgias. A radioterapia também foi toda pelo SUS e 80%, 90% dos exames foram pelo SUS”, afirma.

É por isso que, quando fala sobre a rede pública, Kelly não resume a experiência a consultas ou procedimentos.

“O SUS representou para mim a esperança", disse Kelly.

A história dela ajuda a dimensionar, em escala individual, parte dos números registrados no estado. Entre janeiro e julho de 2026, foram realizadas 54.793 cirurgias pelo SUS no Piauí, segundo dados do Ministério da Saúde. Desse total, 677 foram cirurgias em oncologia e 1.060 envolveram as vias aéreas superiores, face, cabeça e pescoço.

São milhares de procedimentos que, para quem olha de fora, aparecem em uma planilha. Para cada paciente, porém, podem representar uma mudança radical na própria vida.

Mais de 26 milhões de procedimentos em sete meses

Os dados do Ministério da Saúde mostram a dimensão dessa rede no Piauí. Entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 26,08 milhões procedimentos ambulatoriais em todo o estado.

O maior volume foi de procedimentos clínicos, com 10,8 milhões registros. Na sequência aparecem os procedimentos com finalidade diagnóstica, que somaram 7.101.616, e os relacionados a medicamentos, com 6,5 milhões.

Também foram registrados 1.221.394 procedimentos classificados como ações complementares da atenção à saúde, 680.103 ações de promoção e prevenção, 262.502 procedimentos cirúrgicos e 105.028 relacionados a órteses, próteses e materiais especiais.

Os números não significam 26 milhões de pessoas diferentes. Um mesmo paciente pode passar diversas vezes pelo sistema e realizar diferentes procedimentos ao longo do tratamento.

É justamente essa continuidade que aparece na história de Mayrla Rodrigues da Costa, moradora do bairro Vale Quem Tem, também na zona Leste, que há 17 anos depende de um tratamento contínuo.

Em 2009, Mayrla começou a perceber que havia algo diferente com o próprio corpo. Ela era magra, mas a barriga ficava estufada depois das refeições. Depois vieram as dores abdominais e o sangramento nas fezes.

O diagnóstico de retocolite ulcerativa veio ainda naquele período

Na época, a doença era praticamente desconhecida para ela. O diagnóstico significava conviver com uma condição crônica e seguir um tratamento contínuo. As primeiras orientações que recebeu também foram difíceis de assimilar.

“Não foi nada fácil, principalmente porque era uma doença que, até hoje, é pouco conhecida”, lembra.

Desde 2010, Mayrla faz o acompanhamento pelo SUS. Durante 14 anos, utilizou mesalazina, fornecida pela rede pública. Em 2024, o tratamento foi alterado e ela passou a utilizar vedolizumabe, também recebido pelo SUS. 

O tratamento não pode ser interrompido.  A cada seis meses, Mayrla passa por consulta com o médico pelo SUS, apresenta o histórico do tratamento e os exames e recebe a documentação necessária para solicitar a renovação da medicação. Atualmente, recebe o medicamento a cada dois meses.

O motivo da preocupação com qualquer interrupção é simples: quando o medicamento falta, os sintomas voltam.

“Quando fico sem a medicação, os sintomas da doença voltam. Até mesmo um atraso na medicação pode fazer com que a doença fique ativa novamente.”

Um medicamento que pode custar até R$ 27 mil

O tratamento atual de Mayrla também revela uma das dimensões mais importantes do SUS para pacientes com doenças crônicas: o acesso a medicamentos que seriam inviáveis para muitas famílias se dependessem exclusivamente da compra particular.

Segundo Mayrla, o vedolizumabe utilizado atualmente custa entre R$ 14 mil e R$ 27 mil. É um valor que precisaria ser desembolsado repetidamente para manter o tratamento.

“Eu não teria condições financeiras de arcar com esse valor de forma contínua”, afirma.

Antes do tratamento que mantém atualmente, ela utilizava mesalazina. Uma caixa com 30 comprimidos de 800 mg custa, segundo Mayrla, cerca de R$ 85. Pela quantidade que precisava utilizar, uma caixa seria suficiente para, no máximo, uma semana.

O impacto da doença também já foi muito maior na rotina dela. Antes de conseguir controlar os sintomas, Mayrla enfrentava dores de barriga, diarreia, fraqueza e até desmaios. Muitas vezes deixou de trabalhar ou de manter uma vida social por causa dos sintomas.

Hoje, o tratamento contínuo permite uma rotina diferente.

“O tratamento pelo SUS me deu a oportunidade de ser acompanhada por médicos renomados e de receber medicamentos de custo muito alto, que eu não teria condições de pagar. Hoje, graças ao tratamento contínuo, consigo ter qualidade de vida.”

Milhões de exames, consultas e atendimentos

A história de Mayrla também está ligada a outro aspecto do SUS: o acompanhamento que acontece ao longo do tempo.

Nos primeiros sete meses de 2026, o Piauí registrou 935.438 consultas médicas em atenção especializada, de acordo com o Ministério da Saúde.

No mesmo período, foram realizados 7.101.616 procedimentos com finalidade diagnóstica. A maior parte foi de exames laboratoriais, que somaram 5.115.456 procedimentos.

Também foram registrados 425.850 procedimentos de diagnóstico por radiologia, 181.175 ultrassonografias, 111.057 tomografias, 21.708 ressonâncias magnéticas e 70.178 procedimentos de anatomia patológica e citopatologia.

Por trás de cada número, há alguém esperando um resultado, investigando sintomas, acompanhando uma doença ou tentando descobrir o que está acontecendo com o próprio corpo.

Antes do tratamento especializado, existe a porta de entrada

Nem todo paciente chega ao SUS para uma cirurgia, uma radioterapia ou um medicamento de alto custo. Uma parte importante da rede começa muito antes, na atenção primária.

Entre janeiro e julho de 2026, 1.454.111 pessoas diferentes foram atendidas na Atenção Primária à Saúde no Piauí, conforme dados do Sistema de Informação para a Atenção Primária à Saúde, do Ministério da Saúde. No mesmo período, foram registrados 4.035.882 atendimentos.

Nesse indicador, uma pessoa é contabilizada apenas uma vez, mesmo que tenha recebido mais de um atendimento no período, desde que tenha identificação válida no sistema.

É nessa rede que muitas histórias começam: uma consulta, uma queixa aparentemente simples, um exame solicitado, um encaminhamento que pode levar a um diagnóstico e, posteriormente, a um tratamento especializado.

Uma rede que custa bilhões e que ainda faz parte da rotina de milhões

Até agosto de 2026, o Governo do Piauí informa ter investido R$ 2,3 bilhões em saúde. O valor ajuda a dimensionar a estrutura necessária para manter funcionando uma rede que envolve atenção básica, consultas especializadas, exames, cirurgias, internações, medicamentos, tratamentos oncológicos e outros serviços.

Mas os números, sozinhos, não contam o que significa estar dentro dessa rede.

Para Kelly, o SUS esteve presente quando uma doença grave exigiu cirurgias que ela não teria condições de pagar, quando precisou passar pela radioterapia e agora, enquanto ainda enfrenta as sequelas do tratamento.

Para Mayrla, está presente há mais de uma década, garantindo o medicamento que precisa receber continuamente para manter uma doença crônica sob controle.

As duas histórias também mostram que o cuidado não termina quando um procedimento é realizado ou quando um medicamento é entregue. Para alguns pacientes, o tratamento é uma sequência de consultas, exames, medicamentos e retornos que pode durar meses ou décadas.

Entre a recuperação e a continuidade

As duas são mães e, em meio aos tratamentos, também encontraram na família parte da força para continuar

Kelly ainda não sabe quando conseguirá voltar ao trabalho. Continua com dificuldade para se alimentar e falar e segue em acompanhamento médico. Mesmo depois de atravessar a fase mais dura, a recuperação ainda exige tempo.

Durante o tratamento, ela decidiu também transformar a própria experiência em informação. Passou a compartilhar nas redes sociais o diagnóstico, as cirurgias, a radioterapia e os dias mais difíceis. Segundo ela, pessoas que enfrentam situações semelhantes passaram a procurá-la em busca de orientação e apoio.

“Eu fico feliz em ver que a minha história atingiu outras vidas, alcançou outras pessoas que talvez estivessem passando também por esse deserto", disse Kelly.

Mayrla, por outro lado, segue com uma rotina que já faz parte da vida há anos: consultas, exames, documentação e a retirada periódica do medicamento que mantém sua doença controlada.

As duas são mães e encontram Ambas as histórias das pacientes ajudam a traduzir aquilo que os milhões de procedimentos registrados nas estatísticas não conseguem mostrar sozinhos: para quem precisa de tratamento, o SUS não é apenas um sistema de números.

“Tenho um grande propósito, que é levar fé e esperança a outras pessoas que também passaram ou passam pelo câncer. Para Deus, nada é impossível”, concluiu Kelly.

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