Tecnologia 100% brasileira acelera cicatrização em diabéticos e pode reduzir amputações

Equipamento criado na UnB, o Rapha, combina látex natural e luz LED para tratar o pé diabético; aparelho já tem certificação do Inmetro e aguarda autorização da Anvisa

O Brasil registra, em média, 85 amputações de membros inferiores por dia em decorrência de complicações do diabetes — a principal causa não traumática de perda de pernas e pés no país. Mas uma tecnologia desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB) promete mudar essa realidade: o Rapha, equipamento que acelera a cicatrização de feridas complexas e reduz o risco de amputações causadas pelo chamado pé diabético.

Criado pela professora Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa, do Grupo de Engenharia Biomédica da UnB, o projeto nasceu de uma motivação profundamente pessoal. "O Rapha nasceu da necessidade real de oferecer tratamentos eficazes para feridas crônicas dos pés diabéticos, uma das principais causas de amputações no Brasil. A pesquisa teve início em 2005, quando se descobriu que o látex natural possuía propriedades angiogênicas, permitindo desenvolver um dispositivo capaz de acelerar a cicatrização, reduzir infecções e prevenir amputações", afirma a pesquisadora.

O equipamento combina dois recursos terapêuticos: uma membrana de látex natural extraído da seringueira, que estimula a formação de novos vasos sanguíneos e favorece a regeneração dos tecidos, e a aplicação de luz LED, que auxilia na atividade das células envolvidas na recuperação da pele.

O tratamento é realizado após a limpeza da ferida. A membrana é colocada sobre a lesão e recebe a aplicação da luz por aproximadamente 30 minutos. Em seguida, permanece protegendo a área por cerca de 24 horas, sendo substituída conforme orientação médica.

A eficácia do Rapha foi comprovada em testes clínicos com mais de 200 pacientes na rede pública de saúde do Distrito Federal — todos tiveram cicatrização completa das feridas em menos de 90 dias, evitando agravamentos, amputações e longas internações hospitalares .

Professora Suélia Rodrigues, criadora do Rapha, e o equipamento desenvolvido na UnB — Foto: Divulgação/UnBMotivação pessoal: a história do pai da pesquisadora

A inovação foi idealizada a partir do sofrimento do pai da professora Suélia, que enfrentou complicações relacionadas ao diabetes e dificuldades para cicatrizar feridas. O servidor público aposentado José Teófilo Cavalcanti, de 64 anos, viveu drama semelhante.

Diagnosticado com diabetes há mais de 30 anos, o piauiense Teófilo Cavalcante descobriu a doença ainda na década de 1990, depois de perceber sintomas como sede excessiva, vontade frequente de urinar durante a noite e aumento da fome.

"No começo eu tratei pela alimentação. Eu estava praticamente obeso e o médico recomendou uma dieta. Eu cumpri durante um certo tempo, tirei peso e fiquei mais de 10 anos assim. Depois relaxei e comecei a tomar remédio", relata.

Em 2019, uma complicação mudou sua rotina. Durante uma viagem para participar de uma conferência de saúde em Brasília, percebeu inchaço e dores na perna. A lesão evoluiu para uma ferida que permaneceu aberta por meses.

"Eu fiquei de agosto até dezembro tentando fazer com que essa ferida sarasse. Fiz três meses tentando salvar e não salvou. Foi obrigado a cortar a perna", conta o aposentado, que perdeu uma das pernas.

José Teófilo um lutador pelo SUS é vítima do diabetes Tecnologia com certificação e mercado garantido

O Rapha já passou pela certificação de segurança do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), comprovando segurança elétrica, desempenho essencial e atendimento às normas técnicas. O equipamento foi classificado como risco II e aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para produção em escala comercial.

Em 2022, a tecnologia foi transferida para a empresa Life Care Medical, de São Paulo, por meio de contratos de licenciamento de patente, licenciamento de marca e transferência de know-how. O acordo prevê o pagamento de royalties para a universidade a partir de 2026 sobre a receita líquida, além da doação inicial de 50 kits Rapha para ambulatórios do Distrito Federal.

Para Manoel Clemente Isidoro, diretor da Life Care Medical, a decisão de investir no licenciamento foi pessoal. "O Rapha nos deu uma motivação especial, pois diretores da empresa tiveram familiares e amigos que sofreram com essa doença. Conscientes da gravidade do pé diabético e da oportunidade de lançar um produto capaz de dar melhor qualidade de vida aos pacientes, decidimos investir no licenciamento".

Segundo ele, o equipamento "poderá ser facilmente integrado ao SUS com muitas vantagens econômicas" .

Brasil tem mais de 20 milhões de pessoas com diabetes

O diabetes mellitus é a principal causa de amputações não traumáticas de membros inferiores no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, a doença é responsável por cerca de 85% das cirurgias de amputação, tendo como principal fator a síndrome do pé diabético .

Dados da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) mostram que o Brasil possui atualmente cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes. A entidade estima que 13 milhões de brasileiros com diabetes desenvolvem úlceras nos pés, condição que pode evoluir para amputações quando não tratada precocemente .

A situação tem se agravado. Levantamento da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), com base em dados do Ministério da Saúde, aponta que as amputações de membros inferiores relacionadas ao diabetes aumentaram de 10.940, em 2022, para 11.326, em 2023. Apenas no primeiro semestre de 2024, o SUS já havia realizado mais de 5.710 amputações associadas à doença.

Especialistas alertam para prevenção

O Hospital da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) é referência no atendimento de pacientes com diabetes e acompanha casos complexos da doença e tem setor específico para cuidar de feridas em diabéticos.

O endocrinologista André Gonçalves explica que o hospital dispõe de serviço especializado para tratar o diabetes e suas complicações. "Temos um serviço de endocrinologia, inclusive com residência médica. Tratamos não apenas o controle da glicemia, mas também as complicações cardiovasculares, renais, oftalmológicas e outras doenças relacionadas ao diabetes."

Dr André Gonçalves é endocrinologista renomado e cuida de diabéticos O médico ressalta que as amputações ainda fazem parte da realidade do serviço. "Infelizmente, é uma complicação comum. Pacientes que convivem por muitos anos com o diabetes mal controlado desenvolvem problemas de circulação, que provocam úlceras nos pés. Essas feridas nem sempre cicatrizam e, em alguns casos, evoluem para amputações."

A endocrinologista Carmem Laís Gervário afirma que o HU-UFPI recebe, em sua maioria, pacientes com quadros mais graves da doença. "Somos referência no acompanhamento de diabetes e atendemos pessoas que já apresentam múltiplas complicações. Contamos com uma equipe multidisciplinar formada por endocrinologistas, enfermeiras especializadas em tratamento de feridas, nutricionistas, oftalmologistas e nefrologistas para oferecer um atendimento completo."

Dra  Carmem Laís Gervário também é endocrinologista e alerta para cuidados com lesões em pés diabéticos Segundo a médica, qualquer lesão nos pés de uma pessoa com diabetes deve ser encarada como um sinal de alerta. "Quando um paciente diabético apresenta uma ferida associada à perda de sensibilidade, estamos diante de uma situação potencialmente grave, que pode evoluir para amputação. O exame periódico dos pés e o tratamento precoce dessas lesões são fundamentais para evitar a perda do membro."

Cuidados diários podem prevenir amputações

Os endocrinologistas alertam que a maioria dos casos de pé diabético pode ser evitada com diagnóstico precoce, controle adequado da doença e cuidados simples incorporados à rotina dos pacientes.

André Gonçalves orienta: "O mais importante é manter a glicemia controlada e criar o hábito de observar os pés todos os dias. O paciente deve verificar se apareceram calos, cortes, bolhas ou qualquer ferida que antes não existia."

Ele também recomenda evitar situações que possam causar lesões. "Esses cuidados diários reduzem significativamente o risco de amputações."

Carmem Laís reforça que manter uma alimentação equilibrada, praticar pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, utilizar corretamente os medicamentos prescritos e realizar acompanhamento médico regular são medidas fundamentais para controlar a glicemia e evitar complicações.

A doença silenciosa

O diabetes é uma doença crônica causada por alterações no metabolismo da glicose. Segundo André Gonçalves, "o diabetes é uma doença relativamente comum no mundo, chegando a cerca de 10% da população mundial atualmente. Ela está relacionada a um defeito no metabolismo da glicose, que provoca um acúmulo de açúcar no sangue e em alguns órgãos".

Um dos grandes desafios é que a doença pode permanecer silenciosa por muitos anos. "Os sintomas só aparecem quando a doença já está mais avançada, quando a glicose está muito alta. O paciente começa a perder peso sem explicação, acorda à noite para urinar, sente muita sede, boca seca e muita fome, mas mesmo assim perde peso", explica o médico.

Carmem Laís destaca a importância do diagnóstico precoce: "Todo paciente que tem algum fator de risco para diabetes precisa ter sua glicemia avaliada pelo menos uma vez ao ano. Pessoas com obesidade, histórico familiar positivo, sedentarismo, hipertensão ou mulheres com ovário policístico, por exemplo, precisam fazer esse rastreio."

O diagnóstico é feito principalmente por exames de sangue, como a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada, que mostra a média dos níveis de açúcar nos últimos meses.

Alerta para jovens e idosos

Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (VIGITEL) mostram um aumento expressivo no diagnóstico de diabetes conforme a idade avança. Enquanto a condição afeta apenas 0,5% dos jovens de 18 a 24 anos, a curva sobe para 10,4% na faixa de 45 a 54 anos e alcança o pico de 30,4% entre a população idosa (acima de 65 anos) — o que significa que praticamente um em cada três idosos no Brasil convive com a doença .

O Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (ERICA) acende um sinal de alerta para as novas gerações. Na faixa etária de 12 a 17 anos, a prevalência de diabetes tipo 2 já atinge 3,3% dos jovens. No entanto, o dado mais alarmante é o índice de pré-diabetes, que afeta 22% dessa população — evidenciando que mais de um quinto dos adolescentes brasileiros já apresenta alterações glicêmicas e se encontra em situação de alto risco para o desenvolvimento futuro da doença.

Três pilares do tratamento

O tratamento do diabetes envolve uma combinação de cuidados: alimentação equilibrada, atividade física regular e uso correto das medicações.

"O tratamento do diabetes precisa de três pilares: atividade física, dieta e uso adequado das medicações. Muitas pessoas querem tratar apenas com mudança de estilo de vida, mas muitas vezes, mesmo o paciente sendo muito engajado, as medicações são necessárias", explica Carmem Laís.

A médica ressalta: "Diabetes não é uma doença de pessoas desleixadas. Mesmo quem se cuida algumas vezes apresenta alterações metabólicas que favorecem o surgimento da doença e precisa utilizar medicamentos."

Com a chegada do Rapha ao mercado, a expectativa é que milhares de pacientes tenham uma nova alternativa para evitar a perda de membros — e que a tecnologia 100% brasileira se consolide como uma esperança no tratamento do pé diabético.