O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, celebrado nesta quinta-feira (10), chamou atenção para a importância de falar sobre o tema de forma responsável e acolhedora. A data, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), integra as ações de prevenção realizadas durante o Setembro Amarelo. Em 2026, a campanha internacional mantém como tema “Mudar a narrativa sobre o suicídio”, com o chamado para iniciar a conversa sobre o assunto.
Um dos desafios atuais está justamente na forma como informações sobre suicídio circulam na internet. Uma revisão publicada recentemente na Revista Nursing analisa como as redes sociais e as comunicações em tempo real podem contribuir para o chamado contágio suicida, também conhecido como Efeito Werther.
O artigo “Contágio Suicida (efeito Werther) na Era das Comunicações em Tempo Real” é assinado pelas médicas Amanda Torres Talim, Fiama Jéssica Francieli Cardoso Rapette e Henrique Lima Rufeisen. O trabalho foi publicado em 27 de agosto de 2026 e discute estudos sobre a relação entre a exposição a conteúdos digitais relacionados ao suicídio e comportamentos autolesivos.
Como funciona o chamado Efeito Werther
Segundo os autores, o Efeito Werther descreve o aumento de comportamentos autolesivos associado à exposição a relatos de suicídio. O fenômeno foi inicialmente observado no contexto da mídia tradicional, mas ganhou novas características com a chegada das redes sociais.
A diferença está principalmente na velocidade e no alcance das informações. Na internet, uma publicação pode ser compartilhada rapidamente e permanecer circulando mesmo depois de o acontecimento original ter passado.
O estudo aponta que conteúdos que apresentam o suicídio de maneira inadequada, romantizada ou com informações que podem ser prejudiciais podem ser replicados por usuários e permanecer nas redes por mais tempo. A interação entre comentários, compartilhamentos e comunidades virtuais também pode reforçar sentimentos de identificação e pertencimento em pessoas que já estejam passando por sofrimento emocional.
Para os pesquisadores, outro fator de preocupação são os sistemas de recomendação das plataformas. A revisão discute a possibilidade de usuários vulneráveis serem direcionados para conteúdos semelhantes, formando ambientes digitais em que o sofrimento pode ser reforçado.
Redes sociais também podem ajudar na prevenção
O estudo, no entanto, destaca que a internet não precisa ser apenas um fator de risco. As mesmas ferramentas podem ser utilizadas para oferecer informação, acolhimento e orientação para buscar ajuda.
É nesse contexto que os autores apresentam o chamado Efeito Papageno, associado à divulgação de histórias de superação, busca de ajuda e alternativas diante de situações de sofrimento. A comunicação responsável pode, portanto, funcionar como uma ferramenta de proteção.
A revisão defende que profissionais de saúde, pesquisadores, plataformas digitais e sociedade precisam atuar conjuntamente para reduzir a circulação de conteúdos prejudiciais e ampliar a presença de informações que estimulem a procura por ajuda.
A discussão também reforça a importância de a população saber identificar e denunciar conteúdos potencialmente perigosos. Para os autores, a educação para o uso responsável das redes deve fazer parte das estratégias de prevenção.
Prevenção exige conversa e acolhimento
A OMS destaca que o suicídio é um importante problema de saúde pública, mas pode ser prevenido. Em 2026, a campanha mundial chega ao último ano do tema iniciado em 2024: “Mudar a narrativa sobre o suicídio”, com a proposta de combater o silêncio e o estigma e estimular conversas abertas e acolhedoras.
No Brasil, o Ministério da Saúde também destaca que o suicídio é um fenômeno complexo e que sinais de alerta não devem ser analisados isoladamente. A orientação é buscar ajuda profissional diante de situações de sofrimento.
Quem estiver passando por uma crise ou tiver preocupação com alguém próximo pode procurar serviços de saúde, como CAPS e unidades básicas de saúde, além de serviços de urgência. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
A principal mensagem do Setembro Amarelo, portanto, não é evitar falar sobre suicídio, mas aprender a falar sobre o assunto de maneira responsável, sem julgamento e sem transformar o sofrimento em espetáculo. Na era das redes sociais, a comunicação pode contribuir para o risco, mas também pode ser parte importante da prevenção.
Leia o artigo completo:
Contagio-Suicida-efeito-Werther-na-Era-das-Comunicacoes-em-Tempo-Real.pdf