Mulheres são maioria do eleitorado, mas minoria na política do Piauí

Conquista do voto feminino enfrentou misoginia e restrições legais; quase nove décadas após a primeira eleitora piauiense, representação ainda é desigual

As mulheres representam a maioria das pessoas aptas a votar no Piauí nas eleições de 2026, mas ainda ocupam uma parcela reduzida dos cargos políticos. A diferença mostra que, embora o direito ao voto tenha sido conquistado há 94 anos no Brasil, a igualdade de participação nos espaços de poder permanece distante.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI), o estado possui 2.708.160 eleitores aptos a participar das eleições de 2026. Desse total, 1.400.770 são mulheres, aproximadamente 52% do eleitorado.

A força feminina nas urnas contrasta com a composição das instituições políticas. Na Assembleia Legislativa do Piauí, por exemplo, apenas quatro das 30 cadeiras são ocupadas por mulheres, o equivalente a aproximadamente 13,3%.

Voto feminino enfrentou resistência no Brasil

O direito de votar e ser votada foi assegurado nacionalmente às mulheres em 24 de fevereiro de 1932, com a publicação do Decreto nº 21.076, que instituiu o primeiro Código Eleitoral brasileiro.

A mudança também criou a Justiça Eleitoral, implantou o voto secreto e introduziu o sistema de representação proporcional. A conquista, no entanto, não foi uma concessão espontânea do poder público. Foi resultado de décadas de mobilização de mulheres que enfrentaram discursos políticos, jurídicos e religiosos contrários à sua participação na vida pública.

Durante os debates da primeira Constituição republicana, promulgada em 1891, propostas de reconhecimento do sufrágio feminino foram rejeitadas. Parlamentares defendiam que a política desviaria as mulheres de suas responsabilidades domésticas e ameaçaria a estrutura familiar.

As sufragistas também foram ridicularizadas em jornais e espaços públicos. Charges da época apresentavam mulheres politicamente ativas como pessoas masculinizadas e mostravam homens realizando tarefas domésticas como forma de atacar a luta pelo voto.

Primeiras mulheres ainda enfrentaram limitações

O Código Eleitoral de 1932 reconheceu formalmente o voto feminino, mas a participação das mulheres continuou cercada por limitações sociais e jurídicas.

A primeira eleição nacional em que as brasileiras puderam votar e concorrer ocorreu em 1933, durante a escolha dos representantes da Assembleia Nacional Constituinte.

Em 1934, o direito foi incorporado à Constituição. Entretanto, o voto feminino permaneceu facultativo durante parte desse período, enquanto a obrigatoriedade alcançava principalmente os homens. O voto passou a ser obrigatório também para mulheres alfabetizadas com o Código Eleitoral de 1946.

A Constituição de 1988 consolidou o sufrágio universal e permitiu o voto facultativo às pessoas analfabetas, eliminando mais uma barreira histórica que atingia especialmente as mulheres pobres.

Primeira eleitora do país votou antes de 1932

Antes mesmo da legislação nacional, a professora Celina Guimarães Viana conseguiu se registrar como eleitora em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ela votou em 1928 e se tornou a primeira eleitora brasileira de que se tem registro oficial.

O pioneirismo foi possível devido a uma lei estadual aprovada no Rio Grande do Norte. No mesmo ano, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, tornando-se a primeira mulher a comandar um município no Brasil e na América Latina.

Os votos femininos daquela eleição chegaram a ser invalidados pelo Senado, que não reconhecia nacionalmente a participação das mulheres. Mesmo assim, os acontecimentos fortaleceram a mobilização pelo sufrágio.

Entre as principais lideranças do movimento estavam Bertha Lutz, Leolinda Daltro e Almerinda Gama. As sufragistas criaram organizações, publicaram jornais, realizaram marchas e pressionaram parlamentares e governadores.

Primeira eleitora piauiense foi registrada em 1937

No Piauí, a participação eleitoral feminina avançou de maneira ainda mais lenta. Segundo levantamento histórico divulgado pelo TRE-PI, o primeiro registro de uma mulher piauiense com título eleitoral ocorreu em 1937, no município de Castelo do Piauí.

O alistamento aconteceu cinco anos depois da criação do Código Eleitoral e quatro anos após a primeira eleição nacional com a participação das mulheres. O registro histórico disponibilizado pelo tribunal não informa, no material consultado, o nome dessa pioneira.

Somente em 1955, 18 anos depois, uma mulher conquistou um mandato no estado. A advogada e jornalista Maria Guadalupe Lopes de Lima foi eleita a primeira vereadora de Teresina. Natural de São João do Piauí, Maria Guadalupe ganhou projeção por sua atuação na Rádio Difusora de Teresina, antes de entrar na política.

Zezita Cruz foi a primeira prefeita do Piauí

Em 1958, Zezita Cruz Sampaio foi eleita prefeita de Buriti dos Lopes e tornou-se a primeira mulher a comandar uma prefeitura no Piauí.

Na mesma eleição, cinco mulheres foram escolhidas vereadoras nos municípios de Beneditinos, Itainópolis, Landri Sales, Nazaré do Piauí e Paulistana.

A chegada das primeiras mulheres aos cargos eletivos, entretanto, não rompeu imediatamente com a estrutura masculina de poder. Estudos sobre a história política piauiense mostram que muitas candidaturas femininas surgiram inicialmente dentro de famílias que já possuíam tradição eleitoral.

Josefina Costa abriu espaço na Assembleia

A professora Josefina Dias Ferreira Costa foi a primeira mulher eleita deputada estadual no Piauí. Ela conquistou o mandato em 1970, pela Arena, com 6.335 votos.

Josefina morreu em maio de 2025, aos 97 anos. Em reconhecimento à sua trajetória, a Assembleia Legislativa decretou luto oficial de três dias.

Apesar desse pioneirismo, a presença feminina avançou lentamente. Em cerca de 190 anos de história da Assembleia, somente 24 mulheres haviam exercido mandato parlamentar até 2025, considerando titulares e parlamentares que assumiram como suplentes.

Entre os principais símbolos dessa trajetória está Francisca Trindade, primeira mulher negra eleita deputada estadual no Piauí. A parlamentar também chegou à Câmara dos Deputados e se destacou pela defesa dos direitos das mulheres, da população negra e das comunidades mais pobres.

Piauí também marcou história com Kátia Tapety

O estado ocupa outro lugar importante na história da diversidade política brasileira. Nas eleições municipais de 1992, Kátia Tapety foi eleita vereadora em Colônia do Piauí, com 136 votos.

Ela se tornou a primeira mulher trans a conquistar um mandato eletivo no Brasil. Kátia exerceu sucessivos mandatos entre 1993 e 2004 e posteriormente foi vice-prefeita do município.

Maioria nas urnas não se transforma em maioria nos cargos

Para as eleições de 2026, as mulheres representam aproximadamente 52% do eleitorado piauiense. Mesmo podendo determinar o resultado das disputas, continuam sub-representadas nas câmaras municipais, prefeituras, Assembleia Legislativa e bancada federal. Na atual composição da Alepi, apenas quatro das 30 cadeiras são ocupadas por mulheres. Isso significa que os homens detêm cerca de 87% dos mandatos, embora sejam minoria entre os eleitores do estado.

A legislação eleitoral determina que cada partido ou federação reserve pelo menos 30% das candidaturas proporcionais para um dos sexos. Também existem regras para a distribuição proporcional dos recursos do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda.

As normas, porém, não asseguram que as candidaturas femininas recebam estrutura efetiva, visibilidade e apoio partidário. Casos de candidaturas fictícias, desigualdade no financiamento e violência política de gênero continuam entre os obstáculos à representação.

Ataques ao voto feminino violam a Constituição

Discursos que defendem a retirada ou limitação do voto das mulheres contrariam a Constituição Federal. O artigo 14 estabelece o sufrágio universal, enquanto o artigo 5º determina que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Especialistas avaliam que os ataques atuais não representam apenas opiniões isoladas. Eles podem funcionar como formas de intimidação e desestímulo à participação política feminina. No Piauí, onde mais de 1,4 milhão de mulheres poderão ir às urnas em 2026, a preservação dessa conquista também passa pelo combate à violência política, pela fiscalização dos recursos partidários e pela ampliação das condições para que mais mulheres sejam candidatas e eleitas.