Antes de aprender a escrever o próprio nome, a criança aprende a reconhecer o próprio corpo. Antes de somar e subtrair, descobre quantos passos precisa dar até determinado lugar. Antes mesmo de saber ler uma história, aprende a ouvi-la, imaginar seus personagens e criar suas próprias narrativas. E, muito antes de compreender regras escritas, começa a descobrir que existem outras pessoas, outros sentimentos e diferentes formas de enxergar o mundo.
É nesse território de descobertas que está a Educação Infantil. Mais que uma preparação para as etapas seguintes da vida escolar, ela é um período fundamental para que a criança desenvolva vínculos, autonomia, linguagem, imaginação, capacidade de convivência e confiança para explorar o mundo ao seu redor. Neste 25 de agosto, Dia da Educação Infantil, a reflexão sobre o papel dessa etapa da Educação Básica passa justamente por compreender que educar crianças pequenas não significa apenas ensinar conteúdos. Significa também cuidar, acolher, escutar e criar condições para que elas vivam plenamente a infância.
Para a doutora em Educação e professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Raimuninha Melo, a importância dessa fase está relacionada ao próprio momento de desenvolvimento vivido pela criança. É uma etapa em que o cérebro apresenta grande plasticidade e em que as experiências cotidianas ajudam a construir bases importantes para o desenvolvimento.
“Cada experiência de afeto, linguagem e interação deixa marcas duradouras”, explica a especialista.
Segundo a doutora Raimuninha Melo, é também nesse período que a criança começa a construir aprendizagens que não aparecem necessariamente em uma atividade no papel. Ela aprende a reconhecer e nomear sentimentos, esperar sua vez, negociar regras durante uma brincadeira, estabelecer vínculos e compreender que o outro pode pensar e sentir de maneira diferente.
“É também o período de maior vulnerabilidade, em que ela mais precisa de cuidado, proteção e vínculo seguro para se desenvolver”, destaca.
Uma aprendizagem que acontece brincando
Na Educação Infantil, o aprendizado não está restrito à sala de aula ou a uma sequência de exercícios. A criança aprende nas relações, nas brincadeiras, nas histórias, na música, no movimento, na exploração de materiais e nas perguntas que surgem diante de situações aparentemente simples do cotidiano.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) organiza essa etapa a partir de cinco campos de experiência: “O eu, o outro e o nós”; “Corpo, gestos e movimentos”; “Traços, sons, cores e formas”; “Escuta, fala, pensamento e imaginação”; e “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”.
Na prática, isso significa que uma brincadeira de roda pode ser também uma experiência de convivência; uma história pode ampliar a linguagem e a imaginação; uma pintura pode estimular a expressão e a criatividade; correr, pular e equilibrar-se contribui para o desenvolvimento motor; enquanto observar uma planta, separar objetos ou comparar tamanhos pode despertar os primeiros processos de investigação e raciocínio.
“Mais do que trabalhar conteúdos, o foco da Educação Infantil é aprender saberes e conhecimentos e vivenciar processos através dos quais as crianças aprendem a dar significado à vida”, afirma Raimuninha.
É por isso que o desenvolvimento nessa fase precisa ser compreendido de maneira integral. Emoção, linguagem, cognição, movimento e relações sociais não acontecem separadamente. A criança aprende com o corpo e com a mente, nas relações que estabelece com outras crianças, adultos e com o próprio ambiente.
Quando o cuidado também educa
Um dos princípios fundamentais dessa etapa é justamente a indissociabilidade entre educar e cuidar.
Uma criança pequena precisa ser acolhida, protegida e ter suas necessidades básicas atendidas, mas também precisa encontrar um ambiente que estimule sua curiosidade, sua autonomia e sua capacidade de se expressar.
Para Raimuninha Melo, um ambiente seguro e afetivo permite que a criança compartilhe suas experiências, aprenda a ouvir o outro, exercite a empatia e desenvolva formas mais equilibradas de lidar com conflitos.
A escola, nesse sentido, não é apenas o lugar onde a criança passa algumas horas do dia. É também um espaço de pertencimento.
Por isso, os sinais de uma boa experiência na Educação Infantil podem estar muito além de uma pasta cheia de atividades. Os pais devem observar se a criança é acolhida, se demonstra disposição para ir à escola, como interage com os colegas, se consegue expressar emoções, participar das atividades e desenvolver gradualmente sua autonomia.
“A observação deve ser contínua e não deve ser baseada apenas nos registros, mas em como a criança se expressa, interage, aprende e inicia a construção de sua identidade como estudante”, orienta a professora.
A família também educa e a parceria faz diferença
Se a escola é um espaço fundamental de desenvolvimento, a família continua sendo o primeiro ambiente de socialização da criança.
É em casa que surgem os primeiros vínculos, palavras, histórias, hábitos e referências sobre o mundo. Uma conversa durante o jantar, uma história antes de dormir, uma brincadeira no fim da tarde ou simplesmente o tempo dedicado a ouvir o que a criança tem a dizer também são experiências de aprendizagem.
Segundo a especialista, isso não significa transferir para os pais a responsabilidade que cabe à escola. O caminho está justamente na parceria.
“Quando há diálogo respeitoso, quando a família conhece e valoriza o que se vive na escola e quando a escola reconhece os saberes da família, a criança se sente pertencente a dois espaços que conversam entre si”, afirma.
A presença dos adultos, portanto, não precisa estar relacionada à quantidade de atividades escolares realizadas em casa. Muitas vezes, ela está em gestos mais simples: brincar junto, conversar, ouvir, ler uma história ou perguntar como foi o dia.
O desejo de alfabetizar cedo pode atropelar a infância
Um dos desafios apontados pela especialista é a expectativa de algumas famílias de que a criança deixe a Educação Infantil já sabendo ler e escrever.
O desejo, segundo Raimuninha, é compreensível. Pais e responsáveis querem ver os filhos avançando e tendo boas oportunidades no futuro. O problema surge quando essa expectativa transforma a Educação Infantil em uma antecipação do Ensino Fundamental.
A especialista defende que o diálogo com as famílias seja o principal caminho para enfrentar essa questão.
A Educação Infantil não tem como finalidade antecipar a alfabetização, mas garantir direitos de aprendizagem e desenvolvimento por meio de experiências que envolvem conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se.
Uma criança que ouve histórias, conversa, inventa personagens, desenha, canta, brinca, formula perguntas e resolve conflitos está, mesmo sem perceber, construindo bases importantes para a futura aprendizagem da leitura e da escrita.
“Quando a criança brinca, narra histórias, levanta hipóteses, desenha, canta e resolve conflitos, ela está construindo as bases cognitivas, linguísticas, emocionais e motoras que tornarão a alfabetização no Ensino Fundamental mais sólida, prazerosa e duradoura”, explica.
O excesso de exercícios repetitivos e o treinamento precoce de letras, por outro lado, podem produzir justamente o efeito contrário ao desejado. Em vez de aproximar a criança da escola, podem provocar cansaço, frustração e até resistência ao processo de aprendizagem.
“Quando a família compreende que o brincar, a escuta, a linguagem oral e a imaginação são o currículo mais potente desta etapa, a ansiedade pela leitura precoce dá lugar à confiança no processo”, afirma Raimuninha.
Um direito que ainda precisa avançar
Apesar dos avanços, garantir uma Educação Infantil de qualidade para todas as crianças continua sendo um desafio no Brasil.
Um dos principais problemas está no acesso às creches. Segundo Raimuninha, o atendimento de crianças de 0 a 3 anos ainda alcança cerca de 37% no país, enquanto a nova meta do Plano Nacional de Educação (PNE) para 2026-2036 prevê ampliar esse percentual.
As dificuldades são ainda maiores em áreas do interior e comunidades rurais, onde a distância e a ausência de unidades podem deixar famílias sem alternativas.
A qualidade da infraestrutura também preocupa. A especialista chama atenção para a necessidade de escolas com espaços adequados para brincar, ler, explorar e aprender, além de condições básicas como água potável, saneamento, acessibilidade, climatização e conectividade.
Outro ponto fundamental é a valorização dos profissionais que trabalham diretamente com as crianças.
Para Raimuninha, investir na Educação Infantil passa necessariamente por garantir formação específica para os professores, carreira, condições adequadas de trabalho e tempo para planejamento e reflexão sobre as práticas pedagógicas.
“Sem condições materiais dignas e adequadas, não há como garantir desenvolvimento integral das crianças”, resume.
Cuidar da infância é construir o futuro
Falar sobre Educação Infantil, portanto, é falar sobre o presente, mas também sobre aquilo que uma sociedade deseja construir para o futuro.
É entender que uma criança que brinca não está “perdendo tempo”. Que uma história contada em roda não é apenas entretenimento. Que uma conversa sobre um conflito entre colegas também é uma aula. Que correr, pintar, cantar, imaginar e fazer perguntas são maneiras legítimas, e fundamentais, de aprender.
Na primeira infância, pequenas conquistas carregam grandes significados. É aprender a pedir ajuda, conseguir dividir um brinquedo, contar uma história, esperar a vez, reconhecer uma emoção, fazer uma pergunta ou simplesmente ganhar coragem para tentar novamente depois de errar.
É nesse cotidiano, muitas vezes invisível aos olhos dos adultos, que a criança começa a construir sua relação consigo mesma, com os outros e com o conhecimento.
Por isso, celebrar a Educação Infantil é mais que lembrar uma data. É reconhecer que dar às crianças tempo para brincar, espaço para explorar, segurança para se expressar e adultos dispostos a escutá-las também é uma forma de educar.
E talvez uma das maiores lições dessa etapa seja justamente essa: antes de esperar que a criança aprenda a ler o mundo nas palavras, é preciso permitir que ela tenha tempo, cuidado e liberdade para primeiro descobri-lo.