Brasil e Estados Unidos retomaram formalmente as negociações sobre tarifas em reunião virtual realizada nesta segunda-feira (31), com a participação dos ministros Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e Mauro Vieira, das Relações Exteriores, pelo lado brasileiro, e de Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA (USTR).
O encontro ocorreu depois da a imposição de tarifas americanas de 37,5% sobre produtos brasileiros em julho e foi viabilizado, segundo Elias Rosa, pela conversa telefônica entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump.
O principal resultado foi a reabertura do diálogo entre os dois países. Não houve concessões prévias do Brasil nem apresentação de propostas concretas durante a reunião.
Trump teria ordenado negociação por acordo com Brasil
Segundo o relato de Elias Rosa, Greer afirmou durante a reunião que Trump determinou aos representantes americanos que trabalhassem por um acordo com o governo brasileiro.
“Ele nos disse: o presidente Trump orientou e ordenou que dialogássemos para um acordo”, afirmou o ministro em conversa com jornalistas no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em Brasília.
De acordo com Elias Rosa, Greer acompanhou a ligação telefônica entre Lula e Trump e recebeu do presidente americano a orientação para trabalhar por um entendimento com o Brasil.
Os dois lados reconheceram que as negociações agora ocorrem em um “novo cenário”.
Até julho, as conversas giravam em torno de evitar a adoção das sobretaxas. Agora, com as tarifas de 37,5% já em vigor, as negociações partem de uma nova realidade.
“Reconhecemos, ambos, que estamos diante de um novo cenário, de novas bases para trabalharmos para esse acordo”, disse Elias Rosa.
Brasil diz que não fez concessões para retomar negociação
O ministro também destacou que a retomada do diálogo ocorreu sem que o Brasil apresentasse uma nova concessão aos Estados Unidos.
“Algo precisava acontecer para que eles retornassem à mesa sem que fosse uma concessão da parte do Brasil. E é isso que aconteceu. Sem que nós tenhamos oferecido algo, eles voltaram para a negociação”, afirmou.
Segundo Elias Rosa, a mudança ocorreu após a conversa entre Lula e Trump.
Apesar da retomada das negociações, nenhum dos lados apresentou propostas específicas durante o encontro desta segunda-feira.
Brasil diz que Pix não está em negociação
O governo brasileiro também deixou claro que determinados temas não serão colocados na mesa de negociação.
O chanceler Mauro Vieira reiterou a posição do Brasil contra as tarifas adicionais baseadas na Seção 301 da legislação comercial americana e apresentou argumentos contrários às justificativas utilizadas pelos EUA para a aplicação das sobretaxas.
Entre os pontos levantados pelos americanos estão o Pix e críticas à política ambiental brasileira.
Elias Rosa afirmou que o funcionamento do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não será negociado.
“O Pix é um patrimônio do Brasil, mais de 80% dos brasileiros utilizam, e não há possibilidade de negociarmos o funcionamento do Pix”, afirmou.
O Brasil também apresentou dados sobre a redução do desmatamento e defendeu que questões sem caráter econômico ou comercial sejam retiradas das discussões.
“Nada do que possa causar dano aos interesses econômicos do país, dos interesses do Brasil, nós vamos negociar, vamos colocar na mesa”, disse Elias Rosa.
Governo aponta desequilíbrio provocado pelas tarifas
O Brasil também argumentou que a aplicação das tarifas de 37,5% aumentou o desequilíbrio na relação comercial bilateral em favor dos Estados Unidos.
Na avaliação apresentada pelo governo, novas concessões brasileiras sem contrapartidas americanas poderiam aprofundar esse cenário.
“Com a aplicação dos 37,5%, nós temos um desequilíbrio ainda maior em favor deles. Qualquer concessão da parte do Brasil só aumentará o déficit para o Brasil”, afirmou o ministro.
Brasil e EUA terão novas reuniões
A reunião desta segunda-feira não produziu avanços em pontos concretos. Nenhuma proposta específica, setor ou concessão foi discutido.
O resultado, por enquanto, foi a reabertura formal do canal de diálogo.
Equipes técnicas dos dois países devem se reunir ainda nesta semana para, nas palavras de Elias Rosa, “aclarar as bases desse acordo possível”.
Novos encontros virtuais e presenciais também estão previstos para as próximas semanas, incluindo reuniões em nível ministerial.
Um encontro presencial deverá ocorrer “no final do mês ou um pouco adiante”, segundo o ministro.
O governo brasileiro também sinalizou que não pretende retomar o formato das negociações realizadas antes da aplicação das tarifas.
“Nós não vamos seguir na linha do que vinha antes. Era uma proposta de acordo muito genérica que o Brasil já recusou, já afastou”, afirmou Elias Rosa.
Governo vê possibilidade de acordo após conversa entre Lula e Trump
Apesar da ausência de avanços concretos na reunião, Elias Rosa afirmou estar mais otimista sobre a possibilidade de um entendimento com os Estados Unidos.
“Eu continuo mais otimista do que estava na semana passada, sobretudo agora, depois do telefonema do presidente Lula com Trump. Parece haver, de fato, uma orientação clara do governo americano para que haja um acordo com o Brasil. Um acordo que reequilibre a relação, que equilibre a política tarifária.”
Questionado sobre a possibilidade de as negociações resultarem na retirada das tarifas americanas, o ministro afirmou que isso “dependerá das próximas rodadas”.
O alcance de um eventual acordo e das concessões de cada lado, portanto, ainda será definido ao longo das negociações.
O governo brasileiro sustenta que as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos são “indevidas ou injustas” e afirma que buscará um acordo que permita afastá-las.