Teresina também tem seus monstros, fantasmas e personagens encantados. Muito antes de as histórias circularem pelas redes sociais, era nas calçadas, nas rodas de conversa, nas noites de boemia e às margens dos rios que os teresinenses ouviam relatos capazes de provocar medo, curiosidade e, principalmente, imaginação.
Neste sábado (22), Dia do Folclore, essas histórias voltam a ganhar espaço. Algumas atravessaram gerações e continuam conhecidas até hoje. Outras foram desaparecendo com o tempo, sobrevivendo em livros, cordéis, pesquisas e nas lembranças de quem ainda conta “um causo” sobre as antigas ruas da capital.
Entre tantas narrativas, uma das mais conhecidas é a do Cabeça de Cuia, personagem que se tornou praticamente um símbolo do imaginário piauiense e ganhou um lugar especial na paisagem de Teresina.
Cabeça de Cuia vive nas águas do Parnaíba e do Poti
A história de Crispim é, provavelmente, a mais famosa das lendas relacionadas a Teresina. A narrativa se passa nas proximidades da antiga Vila do Poti, região onde hoje está o bairro Poti Velho e o encontro dos rios Parnaíba e Poti.
Segundo uma das versões mais conhecidas, Crispim era um jovem pescador que, depois de um dia sem conseguir pescar, voltou para casa faminto. Ao encontrar pouca comida, discutiu com a mãe e a atingiu com um osso, provocando sua morte. Antes de morrer, ela teria lançado uma maldição contra o filho.
Crispim então teria se transformado em uma criatura de cabeça enorme, semelhante a uma cuia, condenada a vagar pelas águas dos rios Parnaíba e Poti. A maldição só chegaria ao fim depois que ele devorasse sete jovens chamadas Maria.
A história ganhou tantas versões ao longo do tempo que existem diferenças nos detalhes do enredo. Essa característica, aliás, é própria das lendas populares, que são transmitidas oralmente e acabam incorporando elementos de diferentes épocas e narradores.
Em Teresina, o personagem ganhou ainda uma representação física. Um monumento do Cabeça de Cuia está instalado no Parque Ambiental Encontro dos Rios, no Poti Velho, transformando uma criatura que nasceu no imaginário popular em parte da paisagem turística da capital.
Em 2023, a lenda também foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do Piauí, reforçando sua importância para a identidade cultural do Estado.
“Num-Se-Pode” era o fantasma das ruas de Teresina
Se o Cabeça de Cuia pertence às águas, a Não-Se-Pode, também chamada de “Num-Se-Pode”, pertence às ruas.
Registros sobre a lenda descrevem uma figura feminina que aparecia durante a noite pelas ruas de Teresina, principalmente para os boêmios que circulavam pela cidade. A história está relacionada à antiga capital, quando a iluminação pública ainda era feita por lampiões e as ruas ficavam mergulhadas em uma escuridão que favorecia o surgimento de histórias misteriosas.
Uma das versões conta que a figura podia ser encontrada nas proximidades da Praça Saraiva e em outras áreas da cidade. Alta e misteriosa, caminhava lentamente e desaparecia quando alguém tentava se aproximar.
A Não-Se-Pode aparece em pesquisas sobre o imaginário de Teresina como uma das principais assombrações da cidade, ao lado do Cabeça de Cuia e da Porca do Dente de Ouro. Um estudo acadêmico sobre as tradições teresinenses registra que a personagem era tema frequente das conversas dos moradores entre o final do século XIX e o início do século XX.
A Porca do Dente de Ouro corria pelas ruas durante a madrugada
Outra história que tem endereço certo no imaginário teresinense é a da Porca do Dente de Ouro.
A lenda conta que, durante a madrugada, uma enorme porca percorria as ruas e os subúrbios da cidade. O que mais chamava atenção era justamente o detalhe que deu nome à criatura: um grande dente de ouro que brilhava no escuro.
Registros antigos apontam que a história já circulava em Teresina desde a primeira metade do século XX. Uma das versões afirma que a criatura teria surgido depois que uma jovem entrou em conflito com a própria mãe e a mordeu. Como castigo, teria sido transformada em uma porca e condenada a percorrer as ruas da cidade durante a noite.
E a lenda tinha até um mapa próprio. Relatos antigos citam bairros como Mafuá, Porenquanto, Cajueiros, Matinha, Matadouro, Piçarra, Catarina e Vermelha como lugares onde a criatura teria sido vista. A história, portanto, não era apenas uma assombração abstrata: ela estava inserida na própria geografia de Teresina.
É justamente esse detalhe que torna a Porca do Dente de Ouro tão curiosa. A cidade real servia de cenário para a cidade imaginada.
Miridam e as histórias que nasceram longe da capital
Outra personagem é Miridam, ligada à tradição indígena e às águas do Piauí. A narrativa conta a história de uma jovem da tribo dos Acaroas que teria sido prometida aos deuses desde o nascimento.
A história envolve amor proibido, maternidade, uma criança lançada às águas e a formação da Lagoa de Parnaguá. Em uma das versões, Miridam teria se lançado às águas para ficar próxima do filho, enquanto o menino permaneceria protegido no fundo da lagoa.
A lenda de Miridam se aproxima de outra conhecida narrativa piauiense, a do Barba Ruiva, também associada à Lagoa de Parnaguá. Segundo a tradição, o personagem encantado aparece de diferentes formas ao longo do dia: como menino, jovem e velho.
Embora essas histórias estejam ligadas a outras regiões do Estado, elas ajudam a mostrar que o folclore piauiense vai muito além do Cabeça de Cuia.
O que essas histórias dizem sobre Teresina?
Mais do que saber se o Cabeça de Cuia realmente aparece no rio ou se alguém encontrou a Porca do Dente de Ouro no caminho de casa, as lendas revelam muito sobre a própria cidade.
São histórias que misturam medo, religiosidade, natureza, moralidade, relações familiares e acontecimentos inexplicáveis. Em algumas delas, existe uma punição para quem desobedece. Em outras, há um encantamento que precisa ser quebrado. E quase sempre existe algum elemento da paisagem real servindo de cenário para o fantástico.
No caso do Cabeça de Cuia, estão os rios Parnaíba e Poti. Na Porca do Dente de Ouro, aparecem os bairros e as antigas ruas da capital. Na Não-Se-Pode, estão as noites de uma Teresina ainda iluminada por lampiões.
É como se a cidade tivesse criado seus próprios personagens para explicar aquilo que não podia ser explicado.
Do boca a boca às redes sociais
O mais curioso é que essas histórias não desapareceram completamente com o avanço da cidade.
Se antes as lendas eram contadas nas calçadas, nas escolas, nas famílias e nas rodas de conversa, hoje elas também circulam pela internet. Em discussões recentes entre moradores e pessoas interessadas na história de Teresina, nomes como Num-Se-Pode, Porca do Dente de Ouro e outras assombrações ainda aparecem quando o assunto são as lendas da capital.
Também existem iniciativas culturais que ajudam a preservar essas narrativas. O acervo da Biblioteca Amadeu Amaral, do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, por exemplo, registra publicações e cordéis dedicados ao Cabeça de Cuia, incluindo obras produzidas em Teresina.
Assim, entre livros, cordéis, pesquisas, monumentos e redes sociais, os personagens continuam encontrando novos caminhos para permanecer vivos.
Porque talvez essa seja a verdadeira força de uma lenda: ninguém precisa provar que ela aconteceu.
Basta que alguém continue contando.
E, em Teresina, ainda há muita gente disposta a contar.