Em 1922, quando o Brasil completava 100 anos de independência política e em São Paulo a Semana de Arte Moderna dava passos para a construção de um conceito mais brasileiro de arte e literatura, na então acanhada capital do Piauí se erguia um monumento, a Estação Ferroviária, prédio em estilo eclético que, na definição técnica, reúne estilos arquitetônicos do final do século XIX e começo do século XX.
O prédio ficou pronto quatro anos depois, em 1926 e seu uso como local de embarque e desembarque de pessoas e cargas de trem somente foi se consolidar no final da década seguinte (em 1938), quando a construção da ponte metálica João Luís Ferreira permitiu a regular operação da estrada de ferro Teresina-São Luís. A ponte é também um monumento da cidade e a ferrovia ganhou o imaginário em canções como “De Teresina e São Luís”, de João do Vale.
O que nos interessa neste texto, porém, é olhar para o monumental prédio da estação como um patrimônio arquitetônico essencial à cidade, tanto que é um conjunto arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – cujo escritório local de Teresina, em boa hora, foi instalado no local após um excelente trabalho de restauro.
O prédio está agora protegido por uso funcional, incluindo alguns eventos que aproveitam um pátio com uma beleza cênica como em poucos locais poderemos encontrar em Teresina, integrado ao Parque da Cidadania Dona Socorro Claudino, uma ideia posta em prática pelos ex-prefeitos Elmano Férrer e Firmino Filho, que tiraram do papel uma proposta que fez do antigo pátio de manobras da extinta Rede Ferroviária Federal um local para lazer e entretenimento na zona central da cidade.
Tombada desde 25 de março de 2013, em reconhecimento do edifício como símbolo do processo de integração do país, a estação ferroviária já abrigou um espaço cultural chamado Trilhos, no qual se organizou um clube de choro e até mesmo festivais de rock, evidenciando sua vocação para abrigar a arte e cultura.
É realmente uma alegria saber que um centenário prédio, tombado pelo Iphan, tende a ser preservado para as gerações futuras, mais ainda por pessoas na minha geração, criadas ao redor da estação. O local povoa as minhas memórias porque ali, por anos, foi um espaço de muitos encontros e despedidas, porque a partir de 1968, com a interligação ferroviária a Fortaleza, mais intenso deu-se o movimento por lá.
Lembro bem de, ainda menino, esperar a chegada dos trens que chegavam de Fortaleza, percorrendo um longo caminho desde lá até aqui, trazendo sempre alguma novidade. Para mim e toda a meninada residente num raio de um quilômetro, ver a chegada do trem se convertia na chance de ver pessoas diferentes, de travar encontro com novidade e, claro, de ver o próprio trem.
Mas não somente o olhar curioso nos movia para a estação. Usávamos o prédio para embarques até Castelo, onde, quando adolescente, ia com outros amigos passar férias na fazenda de Francisco Alberto Gayoso, pai de meus amigos Roberto e Gayoso Neto.
Com a desativação do trem de passageiros, a estação passou a sediar a companhia de trens (Metrô de Teresina) e, já na condição de procurador, frequentava o prédio por razões de trabalho – ou seja, aquele é um local mais do que vivo em mim e em minhas memórias, de tal modo que seu centenário neste ano e o uso como sede do Iphan me dá o contentamento de que sua preservação pode levá-la ao bicentenário e a manterá como essencial momento de nossa cidade.
Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Doutor em Direito pela PUC-SP. Ex-Presidente do CESA-PI e atual Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses – IAP.