O gabinete do ministro Carlos Pires Brandão, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), é um daqueles lugares onde a formalidade da toga encontra a alma do intelectual. Em uma visita recente, acompanhado de minha filha, a arquiteta Lívia Brandão, pude testemunhar uma faceta que muitas vezes escapa ao noticiário: a paixão pela história e pelas artes de um dos magistrados mais ativos da Corte.
Reconhecido pela simpatia e pela eficiência (é famoso por manter um monitor de vídeo na recepção do gabinete com dados de produtividade, um legado de sua passagem pelo TRF-1), Carlos Brandão recebe os visitantes com a atenção e o cuidado que lhe são característicos. E é quando deixa de lado os autos para falar de viagens e cultura que a conversa ganha tons mais pessoais e empolga o magistrado piauiense.
Longe dos holofotes de Brasília, o ministro tem se dedicado a transformar o conceito de Justiça. O STJ é frequentemente chamado de "Tribunal da Cidadania", e Brandão parece levar essa alcunha ao pé da letra. A conversa no gabinete revelou um profundo conhecedor da história das cidades do interior brasileiro, para onde tem levado projetos que unem a lei à reparação social.
Um dos exemplos mais marcantes é a atuação em Canudos (BA). Idealizador do projeto "Praça de Justiça e Cidadania" ainda em sua época de desembargador, o ministro acompanhou de perto a edição realizada no sertão baiano em outubro de 2025. O evento, que ele classifica como um "laboratório social", reuniu mais de 20 instituições para oferecer serviços que vão desde emissão de documentos até atendimento médico e odontológico.
Para o ministro Carlos Brandão, a Justiça precisa ir além de julgar. "Às vezes, a gente naturaliza essas desigualdades sociais sem perceber que elas são produzidas nos processos sociais e econômicos", afirmou durante o evento na Bahia. A presença do STJ em Canudos, palco de uma guerra histórica que dizimou a população local no século XIX, é também um ato de memória e reparação.
Missões no Sul e no Nordeste
Mas esse trabalho do ministro fora do STJ não para na Bahia. Conforme revelou na conversa no gabinete, ele tem acompanhado de perto iniciativas em outras regiões de importância histórica para o país.
Em São Miguel das Missões, berço dos remanescentes das reduções jesuíticas no Rio Grande do Sul, e em Porto Calvo, em Alagoas, o magistrado busca levar a estrutura do Judiciário para perto do cidadão, muitas vezes esquecido nos grandes centros. Essa atuação é parte de um esforço do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para fortalecer a presença do Estado, humanizar o atendimento e, como define o ministro, "cuidar das relações que constituem este Brasil e reparar feridas históricas".
Minha visita ao gabinete de Carlos Brandão, no quinto andar do STJ, foi breve, mas deixou clara a imagem de um ministro que, mesmo nos corredores do poder, mantém os olhos voltados para a diversidade e a complexidade do Brasil profundo, seja na arquitetura de uma catedral histórica ou na fila de um mutirão da cidadania no sertão.