A menos de duas semanas das eleições, o podcast Bate-Papo com Notícias, do portal Piauí Hoje, comandado pelo jornalista Luiz Brandão, colocou no centro do debate nesta quarta-feira (23) uma pergunta que atravessa o noticiário político: afinal, o que ameaça a democracia brasileira hoje? A resposta, segundo os convidados, não está apenas nas urnas, mas no cotidiano, nas redes sociais e na forma como a população compreende o próprio conceito de democracia.
A assistente social Ana Cleide abriu a discussão apontando o que considera o principal desafio: a confusão mental que a extrema direita tem plantado na população. "Hoje as pessoas acham que, numa democracia, podem tudo. Não respeitam normas, não respeitam leis. É uma inversão de valores: quem se diz patriota entrega o país, quem fala de família troca de família toda hora, quem defende a liberdade só aceita a liberdade que lhe convém", afirmou.
O médico, professor e ex-deputado federal Nazareno Fonteles foi além e tratou a questão como uma violação constitucional em curso. "A soberania nacional faz parte do arcabouço constitucional. Quando ela é ameaçada por outro país com apoio de gente interna, a democracia está em risco. E hoje temos um ministro dentro do Supremo que se diz evangelicamente ungido, mas está lameado pelo Vorcaro e pelo Master, dentro do TSE, que deveria ser o fiscal das eleições", alertou, referindo-se indiretamente ao ministro André Mendonça.
O engenheiro civil e sindicalista João de Moura Neto ampliou o diagnóstico para o cenário internacional. "A ameaça não é só brasileira. Nos Estados Unidos, Trump desrespeita todas as instituições. Na África, na Europa, no Oriente, vimos revoluções coloridas e primaveras que romperam com processos democráticos. Aqui, há uma disseminação de uma falsa ideia do que seja democracia, e os valores ficam invertidos", disse.
Redes sociais, algoritmos e a manipulação do pensamento
Se o diagnóstico é grave, parte do problema, segundo os convidados, está na forma como a informação circula. Moura Neto lembrou que um vídeo do jornalista Fábio Pacheco sobre o caso Banco Master foi removido pela Meta e só voltou após pressão. "As big techs estão fazendo intervenção política através dos algoritmos. As pessoas imaginam que têm liberdade, mas estão sendo conduzidas como em um brete. Estão manipuladas", afirmou.
Fonteles apontou a grande mídia como parte desse ecossistema. "O capital financeiro é o maior predador da democracia. Ele financia a grande mídia, que bate no Alexandre de Moraes, mas não bate no André Mendonça, não bate no Ciro Nunes. Esses dois, um é presidente do TSE e o outro é vice. Que lado é esse? Quer ter liberdade de imprensa para esconder?", questionou. Ele citou o exemplo americano: "Lá, as grandes emissoras boicotaram o governo Trump quando ele proibiu a cobertura da Casa Branca. Aqui, é o contrário: valoriza-se o externo e não o interno".
Educação, tecnologia e o risco de uma geração indiferente
Outro ponto sensível do debate foi a relação entre tecnologia, educação e participação política. Fonteles fez uma autocrítica sobre a dificuldade da esquerda em acompanhar as inovações. "O iPhone foi criado em 2007 e nós apanhamos oito anos depois. Não conseguimos ensinar redes sociais. Ficamos presos à visão tradicional. Darcy Ribeiro já dizia que a inovação tecnológica é o motor da transformação sociocultural. Nós estudamos pouco Darcy Ribeiro", admitiu.
Ele elogiou o Piauí por ter sido o primeiro estado das Américas a implementar o ensino de inteligência artificial no ensino médio, mas alertou que o conteúdo depende da formação dos professores. Ana Cleide ponderou que a tecnologia não pode vir sem humanização. "Temos um contingente de pessoas afastadas das tecnologias. A escola não pode ser a única responsável. A família, as igrejas, as organizações também precisam assumir sua parte", disse.
As mulheres são maioria do eleitorado, mas minoria no poder
O programa também trouxe dados que escancaram uma contradição da democracia brasileira. Segundo o TSE, as mulheres são 52,84% do eleitorado nacional. No Piauí, conforme o TRE, elas representam cerca de 72% dos aptos a votar: 1.400.770 mulheres entre 2.708.160 eleitores.
Ana Cleide, que se declarou feminista socialista, foi direta: "Nós sabemos da nossa força, mas ainda somos sub-representadas. Quando é para organizar evento político, estamos na frente. Para estar no palanque, somos as últimas. Não temos investimento, não temos estrutura. Muitas desistem porque não suportam a pressão, a violência política e o questionamento constante da nossa competência".
Ela criticou a estrutura desleal das campanhas. "A forma como se faz campanha hoje é muito difícil para nós mulheres. O fundo eleitoral é desigual. Não fazemos política só no gogó. Precisamos de investimento financeiro, assim como os homens", afirmou.
Fonteles reconheceu que parte das mulheres ainda reproduz a cultura machista. "Como Paulo Freire ensinou, há uma projeção do opressor no oprimido. Temos um percentual altíssimo de mulheres que legitimam o patriarcado. Isso dificulta a luta histórica das feministas", disse. Ele contou que sua própria experiência familiar o transformou: "Sou casado há 47 anos, tive duas filhas primeiro e o filho foi o último. Minhas filhas me cobravam coerência entre o discurso democrático na política e a prática em casa. Isso me fez uma pessoa mais democrática".
Os convidados elogiaram o discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU, especialmente a frase "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Para Ana Cleide, o presidente está certíssimo. "Os Estados Unidos querem usurpar, roubar as nossas riquezas. O Lula deu o sinal de que vai defender o país. Nós somos soberanos e vamos lutar pela nossa democracia, pelo nosso estado, pelas nossas riquezas e pela nossa população", afirmou. Moura Neto acrescentou que Lula é "o maior líder vivo do mundo" e que "todos os demais países batem palma, exceto aqueles que são regidos pelo capital".
O programa exibiu imagens da retirada de diplomatas do plenário da ONU durante o discurso do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Fonteles foi categórico: "Ele é um Hitler, não tenha dúvida. Enquanto Hitler foi o algoz dos judeus, esse é dos palestinos, que são irmãos que viveram na mesma terra. É uma visão prepotente e desrespeitosa. A fraternidade não foi respeitada". Ele fez questão de diferenciar o povo judeu do sionismo: "Não estamos contra os judeus de jeito nenhum. O Brasil tem uma amizade histórica com o povo judeu. Agora, alguém no exercício do poder temporário de um estado que tem judeus fez algo inadmissível: matou crianças, mulheres, pessoas civis indefesas. É uma verdadeira barbárie".
Ana Cleide lembrou que os efeitos da guerra são sempre mais graves para as mulheres. "As mulheres, as meninas e as crianças são as mais prejudicadas. Acontecem estupros, obrigam-nas a fazer barbaridades. Que bom que o mundo mostrou que não aceita isso. Como disse o presidente Lula, é preciso acabar com a ganância", afirmou.
Fraternidade política e o combate à polarização
Nas considerações finais, Fonteles defendeu a fraternidade como categoria política central para salvar a democracia. "Nos últimos 200 anos, a fraternidade política foi esquecida tanto na ciência política quanto na prática. A solidariedade pode ser feita do grande para o pequeno, do rico para o pobre. Fraternidade é igualdade, é horizontal. A democracia está frágil por um déficit de fraternidade política no cotidiano", afirmou. Ele divulgou o movimento Fraternidade Cristã, que criou com esse propósito.
Ana Cleide encerrou convocando a população a combater a polarização. "Precisamos entender que discutir não quer dizer que pensar o contrário é ser inimigo. Hoje no Brasil está muito polarizado. Discordar não significa ser inimigo. É na dialética que vamos chegar a um ponto", disse.
O Bate-Papo com Notícias vai ao ar diariamente, das 15h às 16h, no canal do portal Piauí Hoje no YouTube, com transmissão simultânea pelo TikTok e Instagram. Na próxima segunda-feira, o programa debaterá especificamente a situação do Piauí.