A greve relâmpago dos bancários, deflagrada na semana passada, não foi apenas mais um episódio de resistência no mundo do trabalho. Ela escancarou o cerco que sufoca os sindicatos brasileiros e revelou o tamanho da desigualdade de forças entre trabalhadores e o patronato. Diante de uma realidade hostil, a paralisação curta apareceu como o que era possível fazer. Mas, no meio dessa luta desigual, não faltou quem tentasse culpar os próprios sindicatos e sindicalistas pela fragilidade do movimento.
Essa leitura, porém, ignora o essencial. A fragilização do sindicalismo no Brasil é um fenômeno multifacetado, resultado da combinação de mudanças legislativas, transformações econômicas profundas, interferências políticas e uma construção histórica de preconceito contra a organização coletiva dos trabalhadores. Para entender o que acontece hoje, é preciso olhar para trás — e para os interesses que sempre tentaram silenciar quem luta por melhores salários e condições de vida.
Uma greve que revela um cerco
Quando os bancários cruzam os braços, mesmo que por poucas horas, não estão apenas cobrando reajustes. Estão tentando sobreviver num ambiente em que a negociação coletiva foi esvaziada, o financiamento das entidades foi estrangulado e o discurso público transformou o sindicalista em vilão. A greve relâmpago é, portanto, um sintoma. E também um alerta.
Estudiosos do movimento sindical apontam que a fragilidade atual não nasceu de um dia para o outro. Ela foi construída por fatores jurídicos, econômicos, políticos e ideológicos que se somaram.
A reforma de Temer e o desmonte do financiamento
A Reforma Trabalhista de 2017, Lei 13.467, aprovada no governo Michel Temer, é um marco central nesse processo. Ela alterou profundamente o financiamento e o poder de negociação dos sindicatos. O fim do imposto sindical obrigatório tornou a contribuição facultativa e desestruturou a principal fonte de receita das entidades. Um estudo aponta que, em 2018, os sindicatos recebiam apenas 1% do que arrecadavam em 2016.
A mesma reforma estabeleceu a prevalência do negociado sobre o legislado. Em tese, acordos coletivos poderiam se sobrepor à CLT em diversos pontos. Na prática, porém, especialistas apontam uma contradição: a lei enfraqueceu justamente os atores responsáveis por essa negociação. O resultado foi uma queda no número de acordos e negociações defensivas, que visam apenas manter direitos, em vez de avançar.
A reforma também esvaziou o acesso à Justiça do Trabalho. Com a imposição de custos para quem perde uma ação, muitos trabalhadores sem orientação sindical deixaram de recorrer. O cerco jurídico se fechou.
A Reforma Trabalhista do governo Michel Temer, ajudou as empresas a reduzir custos e aumentar lucros, mas não cumpriu a promessa de gerar empregos e piorou as condições de trabalho para milhões de brasileiros.
Bolsonaro e o ataque às conquistas
Se a reforma de Temer abriu a porteira, o governo Jair Bolsonaro tratou de aprofundar o ataque. O discurso oficial passou a tratar o sindicalismo como entrave, e não como parte legítima da democracia. Estruturas de fiscalização e proteção ao trabalho foram enfraquecidas. A informalidade foi estimulada como suposta saída para o desemprego. E a organização coletiva virou alvo permanente de retórica hostil.
Não se trata de detalhe. Ao relativizar direitos, criminalizar lideranças e fragilizar órgãos de controle, o governo Bolsonaro enviou um recado claro ao patronato: a resistência dos trabalhadores poderia ser ignorada. O sindicato, que deveria ser instrumento de equilíbrio, foi empurrado para a defensiva.
Além do ataque legislativo e político, transformações econômicas profundas corroeram a base de sustentação dos sindicatos. Historicamente, o sindicalismo brasileiro se construiu sobre o modelo de emprego formal e concentrado. Esse chão desapareceu em parte.
A expansão de contratos informais, terceirizados e precários dificulta a organização coletiva. Um estudo inédito da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA), aponta que a reforma trabalhista de 2017 contribuiu para o aumento da informalidade e para a redução dos salários no Brasil. Os pesquisadores constaram um aumento de 6,7% na contratação informal no período pós-reforma. A desindustrialização esvaziou o “chão de fábrica”, principal espaço de agregação sindical no passado. As novas tecnologias, o trabalho por aplicativos e o home office fragmentaram categorias e dificultaram a mobilização.
O reflexo é dramático. A taxa de sindicalização caiu de 16,1% em 2012 para apenas 8,4% em 2023, o menor nível da série histórica. É preciso compreender que, com menos filiados, diminui a força das categorias de trabalhores, assim como a arrecadação, resultando numa menor capacidade de pressão.
A fábrica de preconceitos e desinformação
Nesse cenário, a construção do preconceito contra os sindicatos funciona como combustível. A mídia patronal no Brasil não atua de forma neutra. Ela alimenta a ideia de que as entidades seriam um “mal a ser extirpado”. E utiliza estratégias discursivas para deslegitimar a luta dos trabalhadores e proteger os interesses do capital.
A deslegitimação começa pela criminalização das greves e protestos. Em vez de focar nas reivindicações legítimas, a cobertura destaca o “transtorno” causado à população e quantifica os “prejuízos” financeiros das paralisações. Ignora os lucros das empresas e as condições de exploração que motivaram o movimento. Historicamente, essa prática remonta ao período que antecedeu o Golpe de 1964, quando jornais como O Estado de S. Paulo associavam sindicatos e greves ao “avanço comunista” para justificar a repressão.
Outra tática é a manipulação direta de informações. Um caso emblemático citado por entidades sindicais envolve a distorção de falas de dirigentes: em uma entrevista, o sindicalista explicava um problema técnico, mas a edição final cortou e emendou trechos para criar uma interpretação falsa, prejudicando a imagem do sindicato. Veículos como Veja e Globo são acusados de entrevistar apenas parlamentares da oposição ao movimento sindical, ignorando vozes favoráveis e induzindo a opinião pública a uma visão parcial.
A mídia empresarial também promove uma campanha sistemática contra o financiamento sindical. Ao equiparar a contribuição negocial — aprovada democraticamente em assembleia — ao extinto e impopular “imposto sindical”, editoriais e colunas disseminam desinformação. O objetivo é asfixiar financeiramente as entidades.
O patronato sempre soube que a estrutura sindical brasileira, com financiamento devido, é a única capaz de impor contrapesos ao poder econômico dos patrões. Por isso, a ofensiva busca impor um modelo de “americanização” dos sindicatos. Esse modelo resultaria na pulverização das entidades e na criação de sindicatos de fachada controlados por patrões, enfraquecendo a negociação coletiva.
Alinhamento histórico com a agenda patronal
Esse preconceito não é acidental. Ele reflete o alinhamento estrutural da grande mídia com os interesses do empresariado. As Organizações Globo, por exemplo, têm um histórico documentado de oposição a conquistas trabalhistas: atacaram a criação do 13º salário em 1962 e apoiaram fervorosamente a Reforma Trabalhista de 2017, que enfraqueceu os sindicatos. A Folha de S.Paulo também possui um histórico de defesa da flexibilização das leis trabalhistas.
A razão é simples: os maiores anunciantes dos grandes veículos são bancos, corretoras e empresas de capital aberto, setores que não têm interesse em um sindicalismo forte e estruturado. Como a mídia é monopolizada por “meia dúzia de famílias burguesas”, ela atua como porta-voz do patronato, promovendo uma “hostilidade classista” contra qualquer organização que ameace a acumulação de capital.
A demonização dos sindicalistas
Por fim, a mídia contribui para a demonização dos sindicalistas, retratando-os como “privilegiados” ou “pelegos”. Jornalistas são acusados de difundir ódio e nojo aos sindicatos, tratando-os como “instituições zumbi” que deveriam ser eliminadas. Essa narrativa desumaniza a liderança sindical e cria um ambiente favorável para práticas antissindicais, como a demissão de trabalhadores que se filiam a um sindicato.
O ódio aos sindicatos, aos sindicalistas e às lutas dos trabalhadores não é espontâneo. Ele é construído, alimentado e repetido. E serve a um propósito muito claro: impedir que a classe trabalhadora tenha instrumentos coletivos de defesa.
O que resta aos sindicatos?
A superação dessa crise exige uma reinvenção do modelo sindical. A estrutura atual, herdada da CLT de 1943 e baseada na unicidade e no paradigma industrial, mostra-se estruturalmente descompassada com as realidades do trabalho contemporâneo. O desafio é reconectar-se com uma base trabalhadora cada vez mais fragmentada e individualizada, incorporando novas ferramentas de participação e encontrando formas de financiamento sustentáveis e legítimas.
Enquanto isso, greves relâmpago como a dos bancários seguem sendo o que é possível fazer. Mas elas também mostram que a luta não morreu. Ela apenas enfrenta um cerco que precisa ser nomeado: a reforma trabalhista de Temer, os ataques do governo Bolsonaro, a asfixia financeira e a máquina de preconceito da mídia patronal. Sem sindicatos fortes, quem perde não é apenas o sindicalista. Perde todo trabalhador que depende de salário, direitos e dignidade para viver.