Lula pode mudar composição do governo e criar a República do Piauí na Esplanada

Com 75,88% dos votos para Lula e trio cotado para a Esplanada, Piauí mira posto histórico; São Paulo, que deu apenas 46,15% ao presidente, concentra hoje nove ministros e pode perder espaço na nova composição

A pergunta que circula nos bastidores de Brasília é provocativa, mas tem fundamento: será que o governo Lula 4 vai trocar a “República de São Paulo” pela “República do Piauí”? A dúvida não é gratuita. Enquanto o estado paulista, que hoje concentra nove dos 38 ministérios, incluindo Casa Civil, Fazenda, Saúde e Trabalho, deu a Lula apenas 46,15% dos votos válidos no segundo turno, o Piauí foi o estado que mais celebrou a reeleição do presidente, com 75,88% dos votos válidos e 1.653.989 votos contra 525.859 de Flávio Bolsonaro (PL). O próprio Lula reconheceu o feito: “O Piauí me deu o título de campeão”.

O peso das urnas

O Piauí sozinho foi responsável por um quarto dos votos da maioria de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno. A maioria de Lula no segundo turno foi de 4.430.191 votos. Desse total, 1.128.130 votos saíram do Piauí.

Os números explicam a atenção presidencial. No primeiro turno, Lula já havia obtido 70,99% no Piauí; no segundo, subiu para 75,88%, um acréscimo de quase 5 pontos percentuais. Em São Paulo, embora Lula tenha tido seu melhor desempenho em 20 anos, com 46,15% dos válidos e 12.119.274 votos, ele foi derrotado por Flávio Bolsonaro, que alcançou 53,85%. A capital paulista, maior colégio eleitoral do país, até deu vitória a Lula (55,50%), mas o interior do estado puxou o resultado para baixo.

O trio piauiense e a articulação para a Esplanada

O reconhecimento do Piauí pode se traduzir em poder real. O governador Rafael Fonteles é o nome mais cotado para o Ministério da Fazenda, segundo apuração da Reuters e do UOL. Ao lado dele, o ministro Wellington Dias pode assumir a Secretaria de Relações Institucionais, e o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, já ocupa um cargo estratégico na Esplanada. Se os três forem confirmados, o Piauí teria, pela primeira vez na história, três ministros simultâneos — um número que pode se aproximar ou até superar a bancada paulista, dependendo da composição final do governo.

São Paulo em risco?

A “República de São Paulo” sempre foi tratada com peso no governo petista. Hoje, nomes como Miriam Belchior (Casa Civil), Dario Durigan (Fazenda), Alexandre Padilha (Saúde) e Luiz Marinho (Trabalho) ocupam pastas de primeira linha. Mas a derrota de Fernando Haddad para Tarcísio de Freitas em São Paulo enfraqueceu a interlocução paulista no novo mandato. Além disso, a lógica de Lula para o quarto e último governo é premiar quem efetivamente o ajudou a virar a eleição — e o Piauí, ao lado do Ceará e de Minas Gerais, foi decisivo nesse processo.

A conta política

Se a distribuição de ministérios seguir o critério estritamente eleitoral, o Piauí larga na frente. O estado não apenas deu a maior votação proporcional do país a Lula, como também reelegeu Fonteles com 70,9% dos votos e emplacou quadros técnicos de perfil elogiado pelo mercado. 

São Paulo, por outro lado, segue como o maior colégio eleitoral e um contrapeso necessário para a governabilidade, o que torna improvável um “apagão” paulista na Esplanada. A dúvida, portanto, não é se o Piauí terá mais ministros que São Paulo, mas sim se o presidente estará disposto a reduzir o espaço do estado mais rico do país para acomodar o estado que mais o aplaudiu. A resposta, como tudo em Brasília, será uma equação entre gratidão e realismo político.