A democracia brasileira vive um paradoxo que exige resposta à altura. O governo legitimamente eleito nas urnas, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem pela frente um Congresso Nacional que, a partir de 2027, será o mais conservador e alinhado à extrema direita desde a redemocratização. Dados oficiais não deixam dúvidas: o Partido Liberal (PL), legenda do bolsonarismo, elegeu a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e 29 senadores; somados a siglas como Progressistas (PP) e Republicanos, a direita ultrapassa a metade das cadeiras nas duas Casas. É nesse cenário de hostilidade institucional que ganha força uma proposta ousada: a criação do Congresso Revolucionário e Popular do Brasil - CORPO-BRASIL.
A ideia, ainda em construção, mas que já mobiliza setores da sociedade civil, é criar um espaço de representação popular que funcione nos moldes do Congresso Nacional, porém com um viés declaradamente de esquerda, socialista e trabalhista. Não se trata de substituir o Legislativo, mas de fiscalizá-lo, pressioná-lo e construir uma barreira de contenção contra qualquer tentativa de golpe ou retrocesso. O novo organismo seria formado por voluntários, sem salários, mas com condições de moradia, deslocamento e alimentação garantidas. Seus membros, oriundos da classe trabalhadora, dos movimentos sociais e do movimento estudantil teriam mandato equivalente ao de deputados e senadores, com representação proporcional ao número de cadeiras de cada estado na Câmara e no Senado.
A inspiração é clara: enquanto o Congresso eleito se prepara para pautas que ameaçam direitos, como a tentativa de derrubar o fim da escala 6x1, o Congresso Revolucionário e Popular surge como um contraponto. A PEC que extinguiu a jornada de seis dias por um de descanso foi aprovada pela Câmara em maio de 2026 e só aprovada pelo Senado e promulgada em outubro, enfrentou resistência no Senado e pressões para adiar sua implementação. A criação de um parlamento popular paralelo busca justamente impedir que conquistas como essa sejam desidratadas ou revogadas por uma maioria parlamentar que, muitas vezes, responde a interesses do grande capital e não ao povo que a elegeu.
Funcionamento
O funcionamento do Congresso Revolucionário e Popular do Brasil seguiria os ritos do Congresso Nacional, com comissões, plenário e votação, mas com uma diferença fundamental: a ética e a transparência seriam pilares inegociáveis. Seus membros teriam de seguir critérios rígidos de conduta e reputação ilibada. Qualquer desvio resultaria em punição e cassação sumária exemplar pelo Conselho de Ética, um mecanismo pensado para evitar a captura do organismo por interesses escusos e para preservar sua legitimidade junto à população. O CORPO-BRASIL seria financiado por doações de entidades, associação de classe, sindicatos, empresas e pelos cidadãos de forma voluntária.
A proposta dialoga diretamente com o momento de mobilização que o país já testemunha. Em outubro de 2026, estudantes de diversos estados foram às ruas em defesa da democracia, do governo Lula e de pautas como o fim da escala 6x1 e a educação pública gratuita. Movimentos sociais e torcidas antifascistas também ocuparam cidades brasileiras para reafirmar que não aceitarão retrocessos. O Congresso Revolucionário e Popular do Brasil se apresenta, portanto, como uma institucionalização desse ímpeto, dando forma e organização a uma energia que já pulsa nas ruas.
Não se engane: a direita radical não esconde suas intenções. Com a maior bancada do Congresso, o bolsonarismo já sinaliza pautas como a defesa do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e o avanço de um conservadorismo que ameaça direitos de mulheres, minorias e trabalhadores. Diante disso, a resposta da esquerda não pode ser apenas defensiva. O Congresso Revolucionário e Popular é uma ofensiva democrática, uma forma de disputar o imaginário político e mostrar que existe um Brasil que não se curva ao fascismo, que defende a soberania nacional e que acredita em um projeto de país com justiça social.
O organismo também nasce com o papel de mobilização permanente. Não se limitaria a sessões e votações: seria um polo irradiador de campanhas, formação política e pressão popular sobre o Congresso oficial. A cada ameaça de retrocesso, a cada pauta regressiva, o Congresso do povo teria a função de convocar a população, articular os movimentos sociais e cobrar posicionamentos dos parlamentares eleitos.
É evidente que a proposta enfrentará resistências e questionamentos. Setores conservadores dirão que se trata de um “poder paralelo” ou de uma tentativa de deslegitimar o Legislativo. Mas a verdade é que o Congresso Nacional, tal como está configurado, já não representa a pluralidade da sociedade brasileira. A criação de um espaço de representação popular, formado por trabalhadores e estudantes e comprometido com a ética, é uma resposta legítima e necessária diante de um Legislativo que, muitas vezes, age contra os interesses da maioria.
O Congresso Revolucionário e Popular do Brasil não é um fim em si mesmo. É uma ferramenta de luta. Uma ferramenta para defender a democracia, o governo eleito, as conquistas trabalhistas e os direitos sociais. Uma ferramenta para dizer, com todas as letras, que a classe trabalhadora não assistirá calada ao avanço da extrema direita e do. E uma ferramenta para lembrar que o poder emana do povo — e que o povo tem o direito de se organizar para exercê-lo, mesmo quando as instituições formais insistem em ignorá-lo.
Diante da desconfiança do povo brasileiro em relação ao parlamento brasileiro, essa é uma proposta a ser discutida com brevidade, porque é urgente uma ação mais concreta para garantir a democracia, os avanços e conquistas da classe trabalhadora, a governabilidade do Lula 4 e ao mesmo tempo conter o retrocesso e as pautas do Congresso Nacional mais conservador da história do Brasil.