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Por Álvaro Mota

Sobre comer no Piauí

Por Álvaro Fernando Mota

Dizem que o homem é aquilo que ele come. Deve ser um exagero, mas faz sentido que nossa existência esteja realmente ligada ao que levamos à boca. Foi o pensador social alemão Engels quem, ainda no século XIX (1876) publicou um estudo em que citava que o consumo de carne concorreu para a evolução do cérebro humano. Hoje, com nossos cérebros bem desenvolvidos e com a possibilidade de escolha permitida por um sistema político chamado democracia, há milhões de humanos deixando de comer carne.

Comer em boa parte do mundo deixou de ser somente uma questão de sobrevivência ou de manutenção da vida. Pode ser um problema de saúde público, pode ser uma escolha ou um prazer – que resulta da possibilidade de escolher comer carne ou legumes, por exemplo.

Olhando para bem perto, podemos ver que temos a nosso dispor um cardápio muito mais variado que a maioria de nós tem capacidade de alcançar. A culinária piauiense está cheia de ingredientes e pratos que ou não comemos com frequência ou se estão perdendo porque o cérebro humano primitivo que se desenvolveu com o consumo da carne inventou o fast-food (comida rápida), comida superprocessada (lámen ou macarrão instantâneo, miojo, nissin)...

É improvável que não haja um receituário e estudos sobre nossas comidas. Matias Matos, agrônomo e ex-secretário de Agricultura de Teresina, escreveu um livro chamado "Pelas quebradas, várzeas e chapadas: Uma viagem gastronômica pelo Piauí” em que conserva para memória o modo típico de preparo de alimentos.

Com uma extensão que de Norte a Sul vai para mais de 1,7 mil km (a extensão do rio Parnaíba), o Piauí tem modos próprios de preparos dos peixes, de carnes de bovinos, cabras e ovelhas, das galinhas caipiras e dos capotes oriundos da África – ave que dá origem a uma comida típica somente possível de encontrar com frequência no território piauiense, frito, cozido, ao molho pardo ou misturado ao arroz, como se faz a maria-izabel, prato de carne seca com arroz que ganha o nome das mães de Cristo e de seu primo João Batista. É quase uma coisa sagrada para o piauiense.

Mais para o Sul, em São João do Piauí e em São Raimundo Nonato, come-se um prato muito próprio daquela região semiárido, que é o pintado. Com nome que quem não conhece confunde com peixe (nosso surubim), o pintado é um cozido de feijão e milho, com partes de porco. Prato que dá sustança, porque no sertão comer carnes e gorduras era um meio de dar conta da pesada faina com o gado em tempos imemoriais.

Note-se até aqui que a carne está muito presente em nossa mesa, mas não devemos nos esquecer de coisas absolutamente piauienses como o feijão cozido com abóbora, quiabo e maxixe, o doce de limão que só se tem notícia de ser feito com perfeição em nossa terra.

Mas é a carne que reina absoluta como ingrediente fundamental em nossa culinária. Herança dos nossos tempos em que até padres vaqueiros, os jesuítas, estavam nos sertões do Piauí tocando a vacada. Isso faz o piauiense botar carne em tudo.

O hot dog que os norte-americanos criaram com salsicha, pão e um fio de mostarda completando, em nossa terra ganhou uma versão com carne de boi moída, cozida num caldo generoso, acrescida de ovo, legumes e um sem número de ingredientes ao gosto do freguês. Até salsicha se pôs no cachorro quente piauiense servido num prato. Mais típico e cheio de sustança, impossível de achar.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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