Política

BRASIL

Estrella e Gabrielli criticam modelo atual da Petrobras e apontam riscos ao país

Para ele, o governo perdeu margem para direcionar investimentos e utilizar empresas públicas como ferramentas de desenvolvimento

Da Redação

Domingo - 29/03/2026 às 14:39



Foto: Divulgação Estrella critica modelo atual da Petrobras e apontam riscos ao país
Estrella critica modelo atual da Petrobras e apontam riscos ao país

O geólogo Guilherme Estrella, conhecido por sua atuação na descoberta do pré-sal, fez duras críticas ao atual modelo de funcionamento da Petrobras. Segundo ele, alterações legais e institucionais reduziram a capacidade da estatal de atuar alinhada ao interesse público e limitaram a influência direta do governo em decisões estratégicas.

Tutaméia, Estrella apontou que a nova estrutura de governança das estatais enfraqueceu o papel do Estado na condução de políticas energéticas. Para ele, o governo perdeu margem para direcionar investimentos e utilizar empresas públicas como ferramentas de desenvolvimento. “Hoje, a gestão não segue plenamente os interesses nacionais”, afirmou.

Influência do mercado redefine papel da Petrobras

Na avaliação do ex-diretor, a Petrobras deixou de exercer protagonismo como agente de soberania energética e passou a operar sob forte lógica de mercado. A prioridade, segundo ele, migrou para a maximização de lucros e distribuição de dividendos.

Com maior participação de investidores privados, inclusive estrangeiros, a estatal passou a sofrer pressão por resultados imediatos, o que compromete o planejamento de longo prazo. Estrella critica esse cenário e afirma que a empresa foi transformada em uma estrutura voltada essencialmente ao retorno financeiro.

Diante disso, ele defende mudanças no marco legal que permitam ao Estado retomar maior controle sobre a companhia, destacando que o setor energético exige visão estratégica e não pode depender apenas das regras de mercado.

Defasagem no refino pressiona preços internos

Outro ponto central do debate foi levantado pelo economista José Sérgio Gabrielli, que chama atenção para a limitação da capacidade de refino no país.

De acordo com Gabrielli, o Brasil produz petróleo em abundância, mas não consegue transformá-lo internamente em derivados suficientes, o que obriga a importação de combustíveis como diesel, gasolina e gás de cozinha.

Essa dependência faz com que o mercado interno fique exposto às variações internacionais, especialmente em períodos de instabilidade global, impactando diretamente o bolso do consumidor.

Alta dos combustíveis reflete dependência externa

Na prática, explica Gabrielli, a falta de refinarias suficientes impede o país de amortecer oscilações externas. Com isso, aumentos no preço do petróleo no exterior são repassados quase de forma imediata ao mercado brasileiro.

Ele ressalta que investimentos maiores em refino ao longo dos anos poderiam ter reduzido essa vulnerabilidade e suavizado os reajustes. “Exportamos petróleo bruto, mas dependemos da importação de derivados”, destacou.

Esse cenário evidencia uma fragilidade estrutural na cadeia energética nacional, que limita a capacidade de resposta do país em momentos de crise.

Privatizações reduzem poder de intervenção

Outro fator que contribui para esse quadro, segundo Gabrielli, é a perda de instrumentos de atuação direta no mercado após processos de privatização, como o da BR Distribuidora.

Sem controle sobre a distribuição, a Petrobras deixou de atuar diretamente na ponta final, passando a depender de empresas privadas para chegar ao consumidor. Isso reduz sua capacidade de influenciar preços e conter oscilações.

Além disso, o economista alerta que o mercado costuma antecipar reajustes em cenários de incerteza, ampliando margens de lucro mesmo antes de aumentos reais de custos.

Biocombustíveis têm limite de expansão

Apesar de serem uma alternativa importante, os biocombustíveis não conseguem resolver o problema no curto prazo, segundo Gabrielli.

O Brasil já opera com níveis elevados de mistura de etanol e biodiesel, próximos do limite técnico, o que restringe a possibilidade de ampliar significativamente sua participação na matriz energética.

Dessa forma, embora contribuam para diversificar a matriz, eles não eliminam a dependência de combustíveis fósseis no cenário atual.

Risco à segurança energética do país

Tanto Estrella quanto Gabrielli convergem ao apontar que o Brasil enfrenta hoje uma fragilidade estrutural em sua política energética.

Com a Petrobras mais exposta às pressões do mercado financeiro e o país dependente da importação de derivados, a capacidade de reação a crises internacionais se torna limitada.

Para os especialistas, discutir combustíveis vai além do preço do petróleo e envolve decisões estratégicas sobre refino, regulação e o papel das estatais.

A conclusão é clara: sem reforçar sua estrutura interna e ampliar os instrumentos de intervenção, o Brasil continuará vulnerável às oscilações externas — mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

Fonte: Canal Tutaméia

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