Política

ESQUEMA DE FRAUDES

Daniel Vorcaro pode entregar até 15 políticos em sua delação premiada

A estimativa partiu do próprio banqueiro

Da Redação

Sábado - 21/03/2026 às 16:43



Foto: Vorcaro está preso por suspeita de participação em um esquema de fraudes financeiras
Vorcaro está preso por suspeita de participação em um esquema de fraudes financeiras

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, calcula que sua delação premiada deve apontar, em um primeiro momento, o envolvimento de até 15 nomes da política, entre deputados e senadores. A estimativa partiu do próprio banqueiro, conforme revelou neste sábado (21) a coluna de Natália Portinari. Vorcaro foi removido nesta semana da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal, onde assinou um termo de confidencialidade, etapa que marca o início formal das tratativas para o acordo de colaboração.

Vorcaro assinou um termo de confidencialidade para o acordo de colaboração

O empresário está preso por suspeita de participação em um esquema de fraudes financeiras que, de acordo com a PF, movimentou entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões. Seu atual defensor, o advogado José Luis Oliveira Lima, também conduz em paralelo a delação de João Carlos Mansur, ex-presidente da Reag Investimentos. Veja os detalhes do esquema:

1. A engrenagem do esquema financeiro 

Entre 2023 e 2024, aproximadamente R$ 11,5 bilhões teriam sido desviados pelo Master por meio de operações trianguladas. O banco repassava recursos a empresas supostamente de fachada, que os direcionavam a fundos administrados pela gestora Reag Investimentos. Esses fundos, por sua vez, adquiriam por valores superestimados ativos sem lastro real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc). O Banco Central identificou seis fundos da Reag sob suspeita, com patrimônio somado de R$ 102,4 bilhões. Os recursos transitavam entre fundos vinculados aos mesmos intermediários até alcançar os destinatários finais.

2. A lógica da pirâmide 

Para postergar o colapso, o banco concedia empréstimos com carência de até cinco anos. Investidores mais antigos eram quitados com recursos captados de novos CDBs — estrutura típica de um esquema Ponzi. O Master chegou a remunerar seus CDBs em até 140% do CDI, patamar considerado inviável a longo prazo. Quando as primeiras dúvidas sobre a solidez da instituição surgiram, em 2024, a captação estancou e o caixa ruiu.

3. A tentativa de salvatagem via BRB 

Na busca por liquidez, o Master forjou a aquisição de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno — operação que existia apenas nos registros contábeis, sem qualquer movimentação financeira real. O Banco Central analisou os CPFs vinculados à carteira e concluiu que as operações eram fictícias. A mesma carteira foi subsequentemente negociada com o Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões, após manipulação das taxas de juros. Em setembro, o BC bloqueou a tentativa de venda parcial do Master ao BRB — proposta que, segundo as investigações, visava fundir os balanços das instituições e diluir a fraude dentro de um banco público.

4. O processo de intervenção e liquidação 

O Banco Central restringiu a captação do Master ao teto de 100% do CDI, interrompendo sua expansão. A partir de abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a honrar os CDBs vencidos por meio de uma linha emergencial. O controlador tentou, sem êxito, injetar recursos com a alienação de bens pessoais. A liquidação foi decretada quando o banco se mostrou incapaz de cobrir sequer 15% dos vencimentos semanais.

5. O papel central da Reag Investimentos 

A gestora Reag Investimentos figura como peça-chave na sustentação do esquema. A empresa é investigada por supostamente facilitar a constituição de empresas de fachada para empréstimos a fundos, além de ter valorizado ativos fictícios e pulverizado recursos entre diferentes veículos. A liquidação posterior da gestora pelo Banco Central é interpretada como desdobramento direto do caso Master. Após a segunda fase da Operação Compliance Zero, o BC decretou a liquidação da Reag.

6. O racha entre instituições públicas 

Apesar de concentrar apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro nacional, a liquidação do Master provocou atritos entre diferentes órgãos públicos. O caso gerou questionamentos simultâneos no STF, no TCU e no Congresso acerca das decisões técnicas adotadas pelo Banco Central. A autoridade monetária firmou acordo com o TCU para permitir a inspeção de documentos, desde que preservados o sigilo bancário e suas prerrogativas institucionais. O ministro Dias Toffoli, do STF, que concentrou as ações judiciais ligadas ao Master, chegou a cogitar uma acareação envolvendo o diretor de Fiscalização do BC, mas recuou e determinou que a Polícia Federal colhesse apenas depoimentos adicionais de Vorcaro e do ex-presidente do BRB. Toffoli também ordenou que todo o material apreendido na Operação Compliance Zero ficasse sob custódia do STF, autorizando posteriormente sua análise pela PF com apoio da Procuradoria-Geral da República.

7. As consequências para os clientes 

Com a liquidação decretada, o FGC assumiu a responsabilidade de ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes, com previsão de desembolso de aproximadamente R$ 41 bilhões — cerca de um terço do patrimônio total do fundo e o maior resgate de sua história. O limite de cobertura é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. O pagamento, contudo, depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, etapa que ainda não havia sido concluída dois meses após a decretação da liquidação. Os cotistas de fundos da Reag, sem proteção do FGC, têm a opção de migrar para outra gestora. Já os 18 fundos de pensões estaduais e municipais que investiram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras não serão ressarcidos, pois esses instrumentos estão fora do guarda-chuva do FGC.

8. Por que o caso é um marco? 

O escândalo expôs brechas na fiscalização, uso indevido de estruturas de fundos e pressão sobre instituições reguladoras. Auditorias e agências de rating que atestavam a saúde financeira do Master passaram a ser questionadas, assim como os limites da supervisão do sistema financeiro. O episódio deve se tornar referência tanto para mudanças no arcabouço regulatório quanto para o debate mais amplo sobre governança no mercado financeiro brasileiro.

Fonte: Portal 247

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