NO SISTEMA
Da Redação
27 de setembro de 2026 às 13:47 ▪ Atualizado há 47 minutos
A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República chegou a R$ 56,9 milhões em receitas declaradas à Justiça Eleitoral até 24 de setembro. Desse total, nada menos que R$ 53,5 milhões foram transferidos pelo Partido Liberal - PL, principalmente com recursos públicos do Fundo Eleitoral. Na prática, aproximadamente 94% de tudo o que havia entrado no caixa da candidatura vinha desse repasse partidário oriundo dos cofres públicos.
Para um candidato que se apresenta como crítico ao "Sistema", a arrecadação da campanha mostra outra realidade. Os números mostram o peso cada vez maior do dinheiro público no financiamento da política brasileira, ao que Flávio Bolsonaro se adaptou muito bem.
Enquanto isso, as doações particulares para a candidatura de Flávio Bolsonaro somavam pouco mais de R$ 3 milhões, mas dezenas de milhões de reais provenientes dos cofres públicos sustentam sua estrutura eleitoral.
A situação não é exclusividade do candidato do PL. O financiamento público tornou-se a principal fonte de recursos das grandes campanhas brasileiras desde a proibição das doações empresariais. Em 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) dispõe de exatos R$ 4.961.519.777 para serem distribuídos aos partidos. O dinheiro sai do Orçamento da União.
Além disso, existe o Fundo Partidário, que é diferente do Fundo Eleitoral e serve para financiar a manutenção das legendas, embora parte de seus recursos também possa ser utilizada nas eleições. A Lei Orçamentária de 2026 reservou cerca de R$ 1,43 bilhão para esse fundo. Somadas as duas fontes, os partidos têm à disposição mais de R$ 6,4 bilhões em recursos públicos em 2026.
No caso de Flávio, os R$ 53,5 milhões transferidos pelo PL representam aproximadamente 94% dos R$ 56,9 milhões arrecadados até 24 de setembro. O próprio PL é o maior beneficiário do Fundo Eleitoral de 2026: a legenda recebeu aproximadamente R$ 881 milhões, enquanto o PT ficou com cerca de R$ 615 milhões.
Os números dão dimensão de uma característica do sistema eleitoral brasileiro: campanhas que defendem diferentes projetos políticos acabam recorrendo pesadamente aos mesmos cofres públicos para financiar a disputa pelo voto.

Congresso abriu um cofre bilionário para as eleições
O volume destinado às eleições ajuda a dimensionar o custo da política para o contribuinte. Só o Fundo Eleitoral chega a quase R$ 5 bilhões em 2026, distribuídos entre 30 partidos. A maior parte não é dividida igualmente: a legislação considera, entre outros critérios, o tamanho das bancadas no Congresso Nacional.
Somados aos cerca de R$ 1,43 bilhão do Fundo Partidário, são mais de R$ 6,4 bilhões de recursos públicos destinados às legendas neste ano eleitoral. O tamanho dessas cifras mantém aberto o debate sobre quanto o Estado deve gastar para financiar partidos e campanhas, especialmente diante das demais demandas do Orçamento público.
É importante registrar que o financiamento é previsto em lei e está sujeito à fiscalização da Justiça Eleitoral. A discussão, portanto, não é sobre a legalidade dos repasses feitos dentro das regras, mas sobre a dimensão que o financiamento público da atividade político-eleitoral alcançou no Brasil.
“Véi da Havan” não abriu a carteira para Flávio
Enquanto o dinheiro público domina o caixa da candidatura de Flávio Bolsonaro, um dos empresários mais identificados com o apoio financeiro a seu pai em 2022 não repetiu o gesto.
O empresário Luciano Hang, dono da Havan e conhecido como “Véi da Havan”, não aparece como doador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro até o levantamento mais recente.
A situação é bem diferente da eleição de 2022. Naquele ano, Hang desembolsou aproximadamente R$ 1,6 milhão em contribuições eleitorais, sendo R$ 1 milhão destinado diretamente à campanha de Jair Bolsonaro à Presidência.
Em 2026, Hang declarou R$ 300 mil em doações, mas o dinheiro foi destinado a candidatos a deputado federal e estadual. Até agora, nenhum valor foi registrado em favor de Flávio Bolsonaro.
A ausência da contribuição, isoladamente, não permite concluir que houve rompimento ou mudança na relação política entre o empresário e os Bolsonaro. O que os registros permitem afirmar é apenas que Hang, até o período consultado, não financiou oficialmente a campanha presidencial de Flávio.
Doações particulares são bem menores
As contribuições individuais representam uma pequena parcela do caixa de Flávio quando comparadas aos R$ 53,5 milhões transferidos pelo PL.
Entre os principais doadores individuais aparece Erasmo Carlos Battistella, CEO da Be8, com R$ 500 mil. Battistella também destinou R$ 500 mil à campanha de Lula.
Walter Schlatter, prefeito de Chapadão do Sul (MS), aparece com R$ 300 mil. Em 2022, ele havia destinado R$ 700 mil à campanha de Jair Bolsonaro, divididos entre primeiro e segundo turnos.
Também estão entre os doadores informados Waldemar Verdi Junior, presidente do conselho do Grupo Rodobens, com R$ 180 mil; Marco Antonio Branquinho Junior, CEO da Vicunha, com R$ 125 mil; Taicia Fofanoff Junqueira, com R$ 122 mil; e Alexandre Ribeiro Chequer, com R$ 120 mil.
Levantamento publicado durante a campanha também mostrou Flávio entre os presidenciáveis com maior volume de contribuições de pessoas físicas, com cerca de R$ 2,55 milhões contabilizados naquele momento.
Ainda assim, os valores privados são pequenos diante da transferência milionária feita pelo próprio partido.
Dinheiro público virou protagonista das campanhas
O modelo atual ganhou importância depois que o Supremo Tribunal Federal proibiu, em 2015, as doações eleitorais feitas diretamente por empresas. Pessoas físicas continuaram autorizadas a contribuir dentro dos limites estabelecidos pela legislação.
Em 2017, o Congresso criou o Fundo Especial de Financiamento de Campanha. Desde então, o chamado Fundo Eleitoral passou a ocupar papel central no financiamento das disputas.
Em 2026, a dimensão alcançada pelos dois principais mecanismos públicos chama atenção: R$ 4,961 bilhões no Fundo Eleitoral e aproximadamente R$ 1,43 bilhão no Fundo Partidário.
O resultado é um sistema em que partidos e candidatos, independentemente do discurso político que adotem sobre gastos governamentais, disputam fatias de bilhões de reais provenientes do Orçamento da União.
No caso de Flávio Bolsonaro, os números são particularmente claros: dos R$ 56,9 milhões registrados até 24 de setembro, R$ 53,5 milhões chegaram por meio do PL. O financiamento privado, apesar dos grandes empresários entre os doadores, representa uma fração muito menor.
Os dados das campanhas permanecem sujeitos a atualização. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que receitas, despesas, doadores e fornecedores podem ser consultados publicamente no sistema DivulgaCandContas.

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