Polícia

CASO ANA CLARA

Família da menina morta por PM defendido por Flávio Bolsonaro ainda espera justiça

Criança de 5 anos foi atingida por disparo de fuzil quando brincava com o irmão em frente de casa, em Niterói (RJ), em 2021. Cinco anos depois, o policial acusado continua sem julgamento, e a atuação do senador na defesa voltou ao debate nacional.

Da Redação

20 de outubro de 2026 às 13:06 ▪ Atualizado há 8 minutos

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  • Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, morreu por disparo de fuzil durante ação policial em Niterói em 2021.
  • O policial Bruno Dias Delaroli é acusado de homicídio qualificado, mas ainda não foi julgado e permanece em liberdade.
  • Flávio Bolsonaro fez parte da defesa de Delaroli, tentando reverter a decisão de levá-lo a júri popular, sem sucesso.
  • O Ministério Público afirma que não havia confronto armado no momento do disparo, versão contestada pela defesa.
  • A mãe de Ana Clara, Cristiane Gomes, ainda luta por justiça e relata sofrimentos emocionais e financeiros.
  • O julgamento de Delaroli foi adiado várias vezes e está marcado para maio de 2027.
  • O caso ganhou atenção durante o debate presidencial de 2022 entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Reprodução Ana Clara Gomes Machado tinha cinco anos quando morreu após ser atingida por um disparo de fuzil
Ana Clara Gomes Machado tinha cinco anos quando morreu após ser atingida por um disparo de fuzil

Ana Clara Gomes Machado tinha apenas cinco anos e brincava com o irmão mais novo na porta de casa quando foi atingida por um disparo de fuzil durante uma ação da Polícia Militar, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A menina morreu no dia 2 de fevereiro de 2021, deixando uma família que, mais de cinco anos depois, ainda aguarda o julgamento do policial acusado de provocar sua morte.

O caso voltou ao centro do debate nacional após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionar, durante o debate presidencial da Band, no domingo (18), a participação do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) na defesa do cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) por homicídio qualificado.

Flávio integrou a equipe jurídica do policial e teve seu nome registrado em um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2024, para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento de Delaroli pelo Tribunal do Júri. O pedido foi rejeitado.

O policial responde ao processo em liberdade e ainda não foi julgado pela morte da criança. Sua defesa nega a responsabilidade pelo disparo fatal e sustenta que houve confronto armado no local, versão contestada pelo Ministério Público. 

Ana Clara brincava com o irmão quando foi atingida

A tragédia aconteceu na comunidade Monan Pequeno, na região de Pendotiba, em Niterói. Naquele dia, Ana Clara estava com o irmão Pedro, então com dois anos, quando policiais militares realizavam uma ação na área.

Segundo a denúncia do Ministério Público, o cabo Bruno Dias Delaroli disparou em direção a uma região residencial, mesmo diante da presença de moradores. A acusação sustenta que não havia confronto armado no momento dos tiros. A criança foi atingida e levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.

A versão apresentada pela defesa é diferente. O policial afirma que reagiu à presença de criminosos armados e nega que o disparo responsável pela morte tenha partido de sua arma. A divergência entre a acusação e a defesa deverá ser examinada pelo Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida. 

Mãe relata sofrimento e espera por julgamento há cinco anos

A morte de Ana Clara transformou a vida de sua mãe, Cristiane Gomes da Silva, que tinha apenas 15 anos quando a filha nasceu. Em entrevista publicada pela Agência Pública nesta segunda-feira (19), Cristiane contou que ouviu os disparos e correu até o local onde as crianças estavam. Segundo seu relato, encontrou a filha ferida e precisou insistir para que os policiais prestassem socorro. A mãe afirma que nunca recebeu um pedido de desculpas de representantes do Estado e descreve as dificuldades emocionais e financeiras enfrentadas pela família desde a morte da menina.

Pedro, irmão de Ana Clara, hoje com oito anos, também sofre as consequências da tragédia. De acordo com Cristiane, o menino recebe acompanhamento psicológico e atualmente mora com a avó. A mãe diz que continua esperando uma resposta da Justiça e que não pretende deixar a história da filha cair no esquecimento. “Vou gritar o nome de Ana Clara”, afirmou Cristiane à Agência Pública, ao explicar sua decisão de continuar cobrando justiça. 

Qual foi a participação de Flávio Bolsonaro na defesa do policial?

O senador Flávio Bolsonaro, que também é advogado, passou a integrar a equipe de defesa de Bruno Dias Delaroli depois que a Justiça decidiu submeter o policial a julgamento popular. Em 2024, o nome do parlamentar apareceu entre os advogados vinculados a um recurso examinado pelo Superior Tribunal de Justiça. O objetivo da defesa era reverter a decisão de pronúncia — etapa processual em que a Justiça determina que um acusado seja julgado pelo Tribunal do Júri. Em abril daquele ano, a Quinta Turma do STJ rejeitou o recurso por três votos a dois, mantendo o encaminhamento do policial ao júri. A participação de Flávio Bolsonaro ocorreu na esfera jurídica. A controvérsia política envolve a escolha do senador de participar da defesa.

Caso foi citado por Lula durante debate presidencial

O episódio voltou ao noticiário nacional durante o debate realizado pela Band no domingo (18), entre Lula e Flávio Bolsonaro, candidatos à Presidência da República. Ao abordar a segurança pública, Lula questionou por que o adversário havia participado da defesa do policial acusado pela morte da criança e tentado reverter a decisão que o levaria a júri popular. 

Julgamento foi adiado para maio de 2027

A demora no julgamento é uma das principais preocupações da família. A Justiça determinou em novembro de 2021 que Bruno Dias Delaroli fosse submetido ao Tribunal do Júri. A decisão foi mantida em instâncias superiores e tornou-se definitiva, quanto ao encaminhamento ao júri, em agosto de 2025. O julgamento chegou a ser previsto para abril de 2026, posteriormente transferido para outubro. Segundo Cristiane Gomes da Silva, em entrevista à Agência Pública, a sessão foi novamente adiada e está remarcada para 5 de maio de 2027. A mãe questiona a sucessão de adiamentos e teme que o tempo prolongue ainda mais o sofrimento da família. Ana Clara teria completado 11 anos em abril de 2026. A mãe conta que ainda imagina como a menina estaria hoje, como seriam seus cabelos, sua altura e sua vida.


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Fonte: Agência Pública, Folha