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PROTEÇÃO ANIMAL

Aposentada abre mão de remédios para alimentar gatos de rua e sofre ameaças em Teresina

Dona Francisca Santana mantém rotina diária de cuidado com animais abandonados, mesmo enfrentando problemas de saúde e episódios de violência

Isabel Fonseca (*)

Segunda - 06/04/2026 às 09:00



Foto: Arquivo pessoal Dona Santana com sua gatinha
Dona Santana com sua gatinha

No Conjunto Planalto Uruguai, na Zona Leste de Teresina, a rotina de dona Francisca Santana começa ainda nas primeiras horas da manhã, antes mesmo do café. Diariamente, ela separa a ração disponível, enche recipientes com água e sai a pé pelas ruas do bairro para alimentar gatos em situação de abandono, seguindo um percurso já conhecido pelos animais.

Em entrevista ao portal Piauí Hoje, dona Francisca afirmou que a atividade teve início de forma espontânea, mas se transformou em um compromisso permanente, mantido mesmo diante de limitações físicas, dificuldades financeiras e episódios de ameaça. Segundo ela, não consegue ignorar a presença de animais em situação de fome e, sempre que encontra algum, busca garantir ao menos a alimentação básica.

Santana também explicou como começou a cuidar dos animais. De acordo com o relato, a iniciativa surgiu de forma inesperada, quando foi até um lixão em busca de um trator para aluguel. No local, não encontrou o equipamento, mas se deparou com gatos que se aproximaram em busca de comida. Após ser informada de que se tratava de animais de rua, ela voltou para casa, comprou ração e retornou para alimentá-los. A partir desse episódio, passou a repetir a ação, que evoluiu para uma rotina diária.

Dona Santana alimentando gatinhos perto da escola.  Foto: Arquivo pessoal

Tratamento interrompido por falta de recursos

Dona Francisca relata que enfrenta uma série de problemas de saúde, incluindo hérnias de disco e artrose, que afetam diretamente sua mobilidade.

Eu tenho seis hernias de disco. Eu tenho uma artrose nos meus joelhos. A minha perna esquerda é menor do que a direita uns quatro centímetros...

Apesar do diagnóstico, o tratamento não teve continuidade, pois, segundo dona Francisca, o custo dos medicamentos inviabilizou a manutenção. Ela afirmou que chegou a utilizar a medicação por apenas um mês, já que uma caixa com dez comprimidos custava cerca de R$ 200, valor que não tem condições de arcar. Diante disso, os recursos disponíveis passaram a ser direcionados prioritariamente para a alimentação dos animais.

Eu não vou deixar de comprar um saco de ração para deixar o meu bichinho na rua com fome para comprar uma coisa para mim.

Atualmente, quando as dores se intensificam, dona Francisca afirma que recorre a medidas pontuais, como o uso de paracetamol para aliviar os sintomas.

Rotina diária, mesmo com limitações físicas

Mesmo com as dificuldades, dona Francisca mantém a rotina de alimentação dos animais. Segundo ela, o percurso é feito a pé, carregando ração e água. Ela afirma que, mesmo nos dias em que sente limitações físicas, reúne forças para sair de casa e cumprir o trajeto.

A saída costuma ocorrer por volta das 6h, com retorno cerca de uma hora depois. Dona Francisca relata que leva recipientes com água — cerca de quatro litros — além da ração, para atender os pontos onde os animais costumam se concentrar.

A alimentação é feita em pontos fixos do bairro, onde os animais costumam se concentrar.

Gatos de rua sendo alimentados.    Foto: Arquivo pessoal

Ameaças durante a distribuição de ração

Além das dificuldades financeiras e de saúde, dona Francisca afirma já ter sido alvo de ameaças enquanto realizava o trabalho.

Olha, filha, eu já fui ameaçada de morte. Um cara disse que ia passar um carro por cima de mim… tudo eu dando comida pelos animais.

Além das dificuldades financeiras e de saúde, dona Francisca afirma já ter sido alvo de ameaças enquanto realizava o trabalho. Segundo ela, já houve situações em que pessoas reagiram de forma agressiva à alimentação dos animais, incluindo ameaças de violência.

De acordo com o relato, um dos episódios mais recentes ocorreu em 1º de maio de 2025, quando teria sido ameaçada por uma mulher enquanto alimentava os gatos. Na ocasião, a suspeita também teria derramado a ração e a água que seriam destinadas aos animais.

Dona Santana informou que não registrou denúncia formal sobre o caso, afirmando que não estava com o celular no momento. 

Falta de recursos e aumento da demanda

O principal desafio, segundo dona Francisca, é a alimentação dos animais. A quantidade de ração disponível varia conforme doações e recursos próprios, o que impacta diretamente a regularidade do atendimento.

Hoje mesmo eu só tenho um pouquinho.

Além disso, ela aponta a necessidade de medicamentos veterinários e de melhores condições para abrigar os animais. De acordo com o relato, as dificuldades envolvem tanto a alimentação quanto os cuidados básicos de saúde dos gatos, especialmente em casos de doenças e infestação por parasitas.

A situação se agrava em períodos de chuva, quando os animais ficam mais expostos e sem locais adequados para se proteger.

A renda da família é limitada: o filho Marcos atua como vendedor, dona Francisca é aposentada e outra filha trabalha com telemarketing, o que, segundo eles, dificulta a ampliação dos cuidados e a compra regular de ração e medicamentos.

Gatos que moram perto da igreja católica.   Foto: Arquivo pessoalAtuação sem apoio público

Segundo a família, não há qualquer tipo de assistência governamental para o trabalho realizado. De acordo com Marcos Paulo Santana, filho de dona Francisca, a iniciativa é mantida exclusivamente com recursos próprios, sem apoio institucional.

A família também aponta que a ausência de políticas públicas contínuas de controle populacional, como programas de castração, contribui para o aumento do número de animais em situação de rua no bairro.

Durante a entrevista, dona Francisca também relembrou episódios que marcaram sua experiência no cuidado com os animais. Um deles envolveu um gato que era alimentado em uma casa desocupada utilizada como ponto de apoio. Segundo ela, o animal foi envenenado e acabou morrendo em suas mãos após conseguir sair do local e chegar até uma residência vizinha. O caso, de acordo com a mulher, evidencia situações recorrentes de maus-tratos na região e reforça as dificuldades enfrentadas no trabalho diário de assistência aos animais.

Rede informal de cuidadores

Além da atuação individual, dona Francisca integra uma rede informal de moradores que também se dedicam à alimentação de animais em situação de rua no bairro. Segundo ela, esse grupo é formado por pessoas que atuam de forma independente, sem qualquer tipo de apoio institucional, e que enfrentam dificuldades semelhantes para manter o trabalho.

Entre os nomes citados estão o senhor Paulo, que trabalha como segurança e é conhecido por alimentar animais em áreas próximas a casas abandonadas, além de moradoras como Thelma e Thaís, que também contribuem com a distribuição de ração em diferentes pontos do bairro.

Todo mundo junto cuida de acho que uns 350 gatos. 

De acordo com dona Francisca, todos os envolvidos enfrentam problemas para manter a atividade, principalmente relacionados à falta de ração e de recursos financeiros. A escassez é recorrente e impacta diretamente a regularidade da alimentação dos animais.

Mesmo com a atuação coletiva, o trabalho ocorre de forma descentralizada, sem coordenação formal, o que dificulta a organização de ações mais amplas e o acesso a suporte técnico ou institucional.

Dona Francisca procurando seus gatos na casa abandonada.   Foto: Arquivo pessoal

Continuidade do trabalho

Apesar das dificuldades, dona Francisca afirma que pretende continuar com a atividade. Segundo ela, a motivação está relacionada a princípios pessoais e religiosos, que orientam sua rotina de cuidado com os animais.

A palavra de Deus diz que dá comida a quem tem fome, dá água a quem tem sede.

A rotina diária segue sendo mantida com os recursos disponíveis, ainda que limitados, priorizando os pontos já atendidos e os animais que dependem diretamente da alimentação.

Dona Francisca também relata o desejo de ver uma redução nos casos de maus-tratos a animais. Segundo ela, há uma convivência desigual no bairro, onde parte dos moradores contribui com os cuidados, enquanto outros praticam violência contra os animais.

Ela defende que pessoas que não desejam cuidar dos animais evitem qualquer tipo de agressão e deixem essa responsabilidade para quem se dispõe a ajudar. Francisca também afirma que mantém práticas religiosas em sua rotina, incluindo orações direcionadas à proteção dos animais que acompanha diariamente.

O que eu mais gostaria, antes de morrer, é não ver mais nenhuma carroça no meio da rua, porque as pessoas maltratam muito os bichinhos. Eu gostaria de dizer a essas pessoas que matam os animais que elas tivessem mais respeito, porque, na verdade, os verdadeiros animais somos nós. Que Deus abençoe todos e dê um coração novo, um coração de carne, para que as pessoas respeitem os animais.

Como ajudar

A família informou que recebe doações para manutenção do trabalho:

O caso de dona Francisca evidencia a atuação de cuidadores independentes em áreas urbanas, onde a assistência a animais em situação de rua depende majoritariamente de iniciativas individuais, muitas vezes realizadas em condições de vulnerabilidade social e sem suporte institucional.

(*) Isabel Fonseca, estagiária de Jornalismo com supervisão dos jornalistas Gilson Rocha e Malu Barreto.

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