Desde o ano passado, a substituição da jornada de trabalho 6x1 pela 5x2 tem gerado debate entre os brasileiros. Qual é a melhor jornada de trabalho para o país? O que os trabalhadores pensam sobre esse assunto? Eles sabem a diferença entre as duas jornadas de trabalho?
A equipe do Portal Piauí Hoje foi às ruas para saber a opinião dos teresinenses e as respostas foram diversas. O estudante Anderson Rodrigo da Silva, disse que prefere a escala 0 x 7, ou seja, não trabalhar e apenas ganhar dinheiro."Ganhar dinheiro sem trabalhar. Eu tenho muita preguiça de pegar ônibus todo dia com um monte de gente. Eu quero é ganhar dinheiro fácil", declarou.
Estudante Anderson Rodrigo da Silva| Foto: Piauí Hoje
A vendedora de livros Núbia Lima afirmou que não sabia o significado das escalas de trabalho. Após a explicação da nossa equipe, ela disse preferir o modelo 6x1, já que atua com vendas e depende diretamente do volume de trabalho para aumentar a renda.
Vendedora de livros Núbia Lima | Foto: Piauí Hoje
A jornada 5x2 não é muito boa para quem depende de vendas como eu. Para mim quanto mais trabalhar melhor. A 6 por 1 é melhor, eu trabalho de segunda a sábado.
A funcionária pública Andreia Inarili prefere a escala 5x2 pois é dona de casa e precisa de tempo para cuidar dos filhos e netos. "Porque a gente que é dona de casa, tem filho, tem neto. Tem que ter tempo pra você resolver os seus problemas de saúde. É bom ter dois dias de folga pra poder resolver os seus problemas pessoais", afirmou.
Funcionária pública Andreia Inarili | Foto: Piauí Hoje
Já o eletricista Gabriel Lima defende a adoção da jornada de trabalho 5x2. Assim como Andreia, ele acredita que esse modelo garante mais tempo para resolver questões pessoais e também para descansar.
Eletricista Gabriel Lima | Foto: Piaui Hoje
A escala 5x2 é a escala que a gente gostaria de ter, pra ter mais tempo pra gente poder descansar, essas coisas, resolver alguns problemas. Porque na escala 6x1 é meio difícil, porque a maioria das coisas funcionam na escala 6x1 e no horário que a gente tá no trabalho, então é meio difícil da gente conseguir resolver os problemas.
O que significa 6x1 e 5x2?
A jornada de trabalho 6x1 é um modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de trabalho consecutivos e tem apenas um dia de folga na semana. Esse formato é bastante comum em setores como comércio, supermercados, restaurantes, hotéis e serviços em geral.
Normalmente, o funcionário trabalha de segunda a sábado ou em escala que pode incluir domingos, desde que haja um dia de descanso semanal. A carga horária costuma seguir o limite previsto na legislação brasileira, que é de até 44 horas semanais, distribuídas nesses seis dias.
Já a jornada 5x2 funciona de forma diferente. Nesse modelo, o trabalhador atua cinco dias na semana e tem dois dias de descanso, que geralmente são sábado e domingo, embora também possam variar dependendo da empresa ou do setor. Essa é uma escala comum em atividades administrativas e escritórios. Assim como na escala 6x1, a carga semanal também costuma respeitar o limite de 44 horas semanais, mas distribuída em cinco dias, o que faz com que a jornada diária seja um pouco maior.
A principal diferença entre os dois modelos está na quantidade de dias de descanso. Enquanto na escala 6x1 o trabalhador tem apenas um dia de folga, na escala 5x2 ele tem dois dias de descanso por semana, o que muitas vezes é apontado como um fator que contribui para mais tempo de lazer, convivência familiar e recuperação física.
Por outro lado, alguns setores defendem a escala 6x1 por facilitar a organização de atividades que funcionam todos os dias, como comércio e serviços.
Mais de 70% dos brasileiros apoiam fim da escala 6x1
Uma pesquisa nacional realizada pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados revela que a maioria dos brasileiros é favorável à ampliação do descanso semanal e ao fim da escala 6x1. De acordo com o levantamento, 84% defendem que os trabalhadores tenham, no mínimo, dois dias de folga por semana.
O estudo foi realizado entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro, nas 27 unidades da Federação, com 2.021 entrevistados acima de 16 anos. Segundo os dados, 73% apoiam o fim da escala 6x1, desde que não haja redução de salário.
Quando questionados de forma geral, 63% afirmaram ser favoráveis ao fim da escala 6x1. No entanto, ao considerar a possibilidade de redução salarial, o apoio diminui significativamente. Apenas 28% mantêm posição favorável caso haja corte na remuneração. Outros 40% concordam com o fim da jornada somente se os salários forem preservados.
Entre os 22% que se declararam contrários à proposta, parte admite rever a posição caso não haja impacto financeiro. Desses, 10% disseram que poderiam apoiar a mudança se os rendimentos fossem mantidos.
Fim da jornada 6x1 é prioridade do governo Lula
Presidente Lula | Foto: reprodução
O governo Lula trata como prioridade para este ano de 2026 a aprovação do projeto que põe fim à jornada de trabalho 6x1. A declaração foi feita na abertura do ano legislativo, em 2 de fevereiro.
Nosso próximo desafio é o fim da escala 6x1 de trabalho, sem redução de salário. O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família.
A tabela abaixo mostra a jornada semanal média de trabalho por país, com base em dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O brasileiro trabalha mais do que a média mundial dos países analisados.
| Butão | 54,4 |
| Emirados Árabes Unidos | 50,9 |
| Catar | 48 |
| Índia | 46,7 |
| China | 46,1 |
| Colômbia | 44,2 |
| Turquia | 43,9 |
| México | 43,7 |
| Peru | 43 |
| África do Sul | 42,6 |
| Angola | 41,4 |
| Cuba | 41 |
| Chile | 40,4 |
| Rússia | 39,2 |
| Brasil | 39 |
| Venezuela | 38,7 |
| Coreia do Sul | 38,6 |
| Israel | 38,5 |
| Média mundial | 38,2 |
| Portugal | 38,2 |
| Estados Unidos | 38 |
| Uruguai | 37,3 |
| Argentina | 37 |
| Espanha | 36,7 |
| Japão | 36,6 |
| Islândia | 36,3 |
| Itália | 36,3 |
| França | 35,9 |
| Reino Unido | 35,9 |
| Suíça | 35,7 |
| Irlanda | 35,6 |
| Luxemburgo | 35,6 |
| Suécia | 35,3 |
| Bélgica | 35 |
| Finlândia | 34,4 |
| Alemanha | 34,2 |
| Dinamarca | 33,9 |
| Noruega | 33,7 |
| Áustria | 33,5 |
| Nova Zelândia | 33 |
| Austrália | 32,3 |
| Canadá | 32,1 |
| Etiópia | 31,9 |
| Países Baixos | 31,6 |
| Vanuatu | 24,7 |
Entenda as propostas
A Proposta de Emenda a Constituição (PEC 148/2015) já foi aprovada em 10 de dezembro de 2025 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com relatório do senador Rogério Carvalho (PT-SE). A proposta está pronta para ser votada no Plenário do Senado, o objetivo é aumentar de um para dois dias o descanso mínimo semanal, preferencialmente aos sábados e domingos. E diminui de 44 para 36 horas o tempo máximo de trabalho semanal, sem contar horas extras.
Senador Rogério Carvalho (PT-SE) | Foto: reprodução/senado
De acordo com o texto, o fim da chamada escala 6x1 ocorrerá de forma gradual. No ano de publicação do texto, as regras atuais se manterão. Já no ano seguinte, o número de descansos semanais passará de um dia para dois dias na semana e a jornada começará a ser reduzida. Apenas seis anos depois os novos direitos estarão plenamente instituídos.
O texto ainda precisa passar por duas votações no Plenário do Senado e mais duas votações na Câmara, com voto favorável de pelo menos 49 senadores e 308 deputados. Após a aprovação nas duas casas a PEC será promulgada e passar a valer.
Ainda não há definição sobre a proposta que vai a votação
Segundo o próprio relator, Rogério Carvalho (PT-SE), o Palácio do Planalto deve enviar um novo projeto de lei em regime de urgência constitucional para acelerar a tramitação.
Na abertura dos trabalhos legislativos na segunda-feira (2) ele defendeu a redução da jornada, que deverá beneficiar milhões de pessoas.
É o projeto que mais vai mexer com a vida dos brasileiros. Serão 38 milhões de trabalhadores [contratados pela Consolidação das Leis do Trabalho — CLT] beneficiados. Sem contar os 120 milhões de brasileiros que, de alguma forma, terão ganho com a redução da jornada.
Mesmo salário
Os empregadores não poderão reduzir a remuneração do trabalhador como forma de compensar os dois de descanso.
Mesmo após a transição, será mantido o limite de oito horas por dia, na jornada normal. No entanto, futuros acordos trabalhistas poderão alterar o tempo de trabalho para ajustá-los ao teto final de 36 horas semanais.
O expediente poderia ser, por exemplo:
- oito horas de segunda-feira à quinta-feira, e quatro horas, na sexta-feira;
- sete horas e 12 minutos de segunda-feira à sexta-feira, entre outras alternativas.
A PEC mantém a possibilidade de compensar horários e reduzir as jornadas por meio de acordos de trabalho, como a Constituição já prevê.
Impacto financeiro
No dia da aprovação do texto na CCJ, o senador Izalci Lucas (PL-DF) afirmou em Plenário que a medida poderá trazer efeitos negativos na economia que, para ele, ainda não foram considerados.
O que custa isso? Quem é que paga essa conta? Acho que essas pessoas não fazem conta, acham que o dinheiro só cai do céu. Eu fico imaginando as pequenas empresas, que têm um, dois funcionários.
Senador Izalci Lucas (PL-DF) | Foto: reprodução/PL
Beneficiados
Os contratados pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) a serem beneficiados representam 37% das pessoas que declararam ter alguma ocupação em 2024, segundo uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) citada na justificativa do relatório aprovado na CCJ.
Também terão direito à redução da jornada:
- servidores públicos;
- empregadas domésticas;
- trabalhadores de portos e
- outros trabalhadores avulsos.
Contratados como pessoas jurídicas não terão o direito à nova jornada. No entanto, tanto esses como os trabalhadores informais terão a vantagem de um novo padrão no mercado de trabalho para se espelhar, segundo o relatório.
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