USO PÚBLICO
Por Redação
20 de outubro de 2026 às 11:17 ▪ Atualizado há 58 minutos
O empresário bolsonarista Marcos Molina, fundador da Marfrig, atualmente chamada MBRF, utilizou 36 vezes o heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, desde 2024, sem pagar taxas. Em duas ocasiões em 2026, o nome dele apareceu nas listas de passageiros ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo, com base em documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
De acordo com o levantamento, Molina é o empresário com maior número de registros de pousos e decolagens na estrutura estadual. O heliponto é administrado pela Casa Militar e destinado prioritariamente a atividades institucionais, mas também recebe aeronaves particulares mediante autorização.
A utilização por empresários e outras pessoas sem cobrança de taxas e sem critérios objetivos publicamente definidos levanta questionamentos sobre a transparência na administração do espaço público.
Procurada pela Folha, a assessoria de Molina afirmou que o uso ocorreu “exclusivamente para fins de embarque e desembarque, mediante autorização prévia e conforme as regras aplicáveis, não estando relacionada a agendas institucionais”.
A declaração indica que os deslocamentos do empresário, segundo sua assessoria, não estavam vinculados a compromissos oficiais. O governo paulista, por sua vez, não esclareceu especificamente as autorizações concedidas a Molina nem as circunstâncias dos dois registros em que ele aparece ao lado de Tarcísio.
Governo alega conveniência administrativa
Segundo os dados divulgados pela Folha, empresários aparecem 164 vezes nos registros do heliponto entre 2020 e junho de 2026. Desse total, 94 ocorrências foram registradas durante a gestão de Tarcísio, incluindo as 36 utilizações atribuídas a Molina.
A administração estadual informou que particulares podem utilizar a estrutura por razões de “conveniência administrativa”. Também alegou que existe uma política de cooperação e reciprocidade, pela qual o Estado utiliza gratuitamente instalações de outras instituições.
Entretanto, não foram detalhados os critérios adotados para autorizar cada utilização, nem os motivos específicos que justificaram os acessos do fundador da Marfrig.
Além de Molina, os documentos citam outros empresários, como integrantes da família Labibi, antiga proprietária da FMU, com 32 registros, e Roque Felício Júnior, do Grupo Vida, com 18. Também aparecem nomes como Alexandre Costa, fundador da Cacau Show, e Carlos Sanchez, ligado à farmacêutica EMS.
Especialista questiona falta de critérios claros
Os registros também incluem políticos, entre eles Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, que aparece em 92 ocorrências, além do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e do senador Flávio Bolsonaro.
A reportagem ainda apontou que João Gabriel de Mello Yamawaki, posteriormente investigado por suspeita de envolvimento em lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), recebeu autorização para utilizar o heliponto em 2022, durante a gestão de João Doria. Na ocasião, o objetivo informado era facilitar o deslocamento para uma partida de futebol no Morumbi.
O advogado Saulo Stefanone Alle, doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), afirmou à Folha que decisões discricionárias não podem ser arbitrárias e que seus motivos “devem ser verdadeiros e estar claramente expostos”.
Os registros de utilização, por si só, não comprovam irregularidades. No entanto, a ausência de critérios públicos detalhados reforça os questionamentos sobre a transparência das autorizações e o uso de instalações mantidas pelo poder público.
Fonte: Brasil 247
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