Brasil

HEROÍNA DA PÁTRIA

Os 74 anos da morte de Antonieta de Barros, primeira mulher negra eleita no Brasil

Educadora, jornalista e primeira deputada negra do Brasil, catarinense marcou a história ao romper barreiras de gênero e raça no século XX

Isabel Fonseca (*)

Sábado - 28/03/2026 às 11:10



Foto: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina Antonieta de Barros
Antonieta de Barros

Neste 28 de março, o Brasil relembra os 74 anos da morte de Antonieta de Barros (1901-1952) , uma das figuras mais importantes da história do país na defesa da educação pública e da igualdade racial. Primeira mulher negra a assumir um mandato eletivo no Brasil, ela construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela resistência.

Uma vida dedicada à educação e à transformação social

Nascida em 1901, em Florianópolis, Antonieta era filha de uma lavadeira e de uma pessoa ex-escravizada. Em meio a um cenário de fortes desigualdades, encontrou na educação o caminho para transformar sua realidade e impactar outras vidas.

Ainda jovem, iniciou sua trajetória acadêmica na Escola Lauro Müller e, aos 17 anos, ingressou na Escola Normal Catarinense. Já em 1919, demonstrava interesse pela escrita ao colaborar com a revista da instituição. Formou-se professora em 1921. Pretendia seguir no ensino superior, mas, em sua época, o curso de direito era proibido a mulheres.

No ano seguinte, criou em sua própria casa um curso voltado à alfabetização de pessoas carentes — iniciativa que manteve ao longo da vida. Posteriormente, atuou como professora e também como diretora do Colégio Estadual Dias Velho, função da qual foi afastada em 1951 por motivos políticos.

Jornalismo como ferramenta de crítica e mobilização

Além da educação, Antonieta teve atuação marcante no jornalismo. Em 1926, fundou o jornal A Semana, tornando-se a primeira mulher cronista de Santa Catarina.

Sob o pseudônimo Maria da Ilha, publicou textos em defesa da educação pública, da participação feminina e da redução das desigualdades sociais. Em 1932, denunciou em artigo no Jornal República as barreiras enfrentadas por mulheres no acesso ao ensino superior.

Também dirigiu a revista Vida Ilhoa e publicou, em 1937, Farrapos de Ideias, considerado o primeiro livro lançado por uma mulher negra no estado. Sua produção literária foi marcada pela crítica social e pela valorização de princípios humanísticos.

Antonieta de Barros.     Foto: Reprodução

Pioneirismo na política brasileira

A atuação política de Antonieta ganhou força na década de 1930. Em 1934, após a conquista do direito ao voto feminino no Brasil, candidatou-se a deputada estadual.

Inicialmente suplente, assumiu o mandato entre 1935 e 1937, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar um cargo eletivo no país e uma das primeiras três mulheres no Legislativo brasileiro.

Sua atuação foi voltada principalmente à defesa da educação e ao combate à discriminação racial e de gênero, em um período em que mulheres — especialmente negras — eram excluídas dos espaços de poder. Escreveu dois capítulos da Constituição catarinense, sobre Educação e Cultura e Funcionalismo, até ser destituída do cargo pelo golpe de Getúlio Vargas.

Criação do dia do professor

Durante sua atuação política, Antonieta de Barros teve papel decisivo na valorização do magistério ao propor a lei que instituiu oficialmente o Dia do Professor em Santa Catarina. Embora a data já fosse celebrada de forma informal, foi a partir da Lei nº 145, de 12 de outubro de 1948, de sua autoria, que a comemoração passou a integrar o calendário oficial do estado, incluindo feriado escolar. A iniciativa antecedeu em cerca de duas décadas a oficialização nacional da data, que só ocorreria em 1963, durante o governo de João Goulart.

Posicionamento firme diante do racismo e misoginia

Ao longo da vida, Antonieta também enfrentou episódios de preconceito. Em 1951, reagiu em uma crônica no jornal O Estado a um ataque racista feito pelo historiador Oswaldo Rodrigues Cabral, defendendo sua trajetória e reafirmando sua identidade como mulher negra e educadora.

Em sua resposta, Antonieta compara as palavras de Osvaldo com os Estados Unidos e a Alemanha Nazista.

Confira abaixo a resposta na íntegra.

A frase é a que epigrafa estas linhas. Rimos. É tudo tão pueril, que achamos graça. E, pensamento distante, perguntamos aos amigos: Mas onde foi isto? Na Alemanha de Hitler, ou nos Estados Unidos? Não é do nosso feitio essa modalidade de comportamento. Somos leais. Leal e agradecida. Sempre fomos. E é um característico dos negros. Fizemos do Magistério o nosso caminho, e agimos sempre respeitando a professora que não morreu em nós, ainda, graças a Deus. Como, pois, a intriga? Compreendemos que a delicada sensibilidade do nobre Deputado tenha sofrido diante daquela frase. Sua Excelência, para a felicidade de todos quantos são arianos – apesar de portador de um diploma de jornalista – não milita no ensino público. Dizemos felicidade porque, à sua Excelência, falta uma das qualidades de professor: não distinguir raças, nem castas, nem classes...

Antonieta foi um dos pilares centrais para a criação do dia do professor. Foto: Acervo do Museu da Escola Catarinense (Mesc/Udesc)

Vida pessoal

Antonieta de Barros nunca se casou e manteve uma vida pessoal discreta, marcada pela dedicação à educação e à vida pública. Religiosa, era devota de Nosso Senhor dos Passos, o que também influenciava sua visão de mundo.

Mesmo com a forte espiritualidade, defendia a emancipação feminina por meio da educação, posicionamento que, em alguns momentos, gerou resistência entre setores mais conservadores da sociedade.

Heroína da pátria e reconhecida como doutora

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou no dia cinco de janeiro de 2023, a inclusão do nome de Antonieta de Barros no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. 

O relator do projeto de lei para a inclusão de Antonieta de Barros no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria (PL 4940/2020), quando a proposta foi analisada no Senado, em dezembro, foi o senador Flávio Arns (Podemos-PR).

Em dezembro de 2022, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passou a considerá-la doutora honoris causa, in memoriam.

Legado que segue atual

Antonieta de Barros morreu em 28 de março de 1952, devido a complicações causadas por diabetes; mas sua trajetória permanece como símbolo de resistência e transformação.

Mais de sete décadas depois, sua história continua inspirando debates sobre racismo estrutural, igualdade de gênero e o papel da educação na construção de uma sociedade mais justa.

Foto: UFMG

(*) Isabel Fonseca é estagiária de Jornalismo sob supervisão dos jornalistas Malu Barreto e Gilson Rocha.

Fonte: Cátedra Antonieta de Barros

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