DARK HORSE
Teresinha Ferreira
12 de setembro de 2026 às 08:51 ▪ Atualizado há 5 horas
Documentos relacionados às investigações sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, revelam gastos milionários com hospedagens, figurinos, perucas, transporte e outras despesas da produção cinematográfica. Os dados ganharam maior publicidade após a retirada do sigilo de procedimentos relacionados ao caso Banco Master. Entre as despesas apresentadas estão mais de R$ 1,4 milhão com hospedagens, aproximadamente R$ 518,5 mil com figurinos, além de centenas de milhares de reais destinados a veículos, motoristas, vans e caminhões. Os valores constam de documentos reunidos durante as investigações e entregues pela produtora Go Up Entertainment às autoridades. As despesas, isoladamente, não representam prova de irregularidade. A Polícia Federal investiga principalmente a origem dos recursos, sua movimentação e eventual relação com dinheiro público e outros financiadores do projeto.
Hospedagens ultrapassam R$ 1,4 milhão
Um dos maiores grupos de despesas identificados na documentação envolve hospedagem. De acordo com o detalhamento divulgado a partir dos documentos, os gastos com hotéis chegaram a R$ 1.426.897,51. Desse montante, aproximadamente R$ 733,9 mil foram associados à hospedagem do ator norte-americano Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no longa. Caviezel ficou hospedado no Hotel Unique, estabelecimento de alto padrão localizado em São Paulo, durante parte das gravações. Os registros incluem hospedagem do ator, de seu agente e de integrantes da segurança. Um dos pagamentos, realizado em 8 de dezembro de 2025, foi de aproximadamente R$ 107,5 mil e aparece descrito como a sexta e última parcela relacionada à hospedagem de Caviezel, seu agente e seguranças. Outro lançamento, realizado no fim daquele mês, chegou a aproximadamente R$ 298,3 mil, envolvendo despesas relacionadas à hospedagem e outros serviços.
Perucas e apliques aparecem entre as despesas
Os documentos também mostram gastos destinados à caracterização dos personagens. Há registro de aproximadamente R$ 3 mil para locação de apliques, além de R$ 5,5 mil envolvendo perucas destinadas a dublê e kit de dreadlocks. Outra documentação analisada no âmbito das investigações aponta ainda gasto de aproximadamente R$ 10 mil com uma peruca relacionada à caracterização de Jim Caviezel. A caracterização física do ator é um dos elementos centrais da produção, já que Caviezel interpreta Bolsonaro no filme.
Figurinos custaram mais de R$ 500 mil
Outro conjunto significativo de despesas envolve os figurinos utilizados durante as filmagens. Os documentos apontam aproximadamente R$ 518,5 mil destinados a essa área. Desse total, cerca de R$ 210 mil correspondem a pagamentos à equipe responsável pelos figurinos. Outros R$ 157,5 mil aparecem relacionados à locação de peças e acervo. O transporte dos figurinos teria custado aproximadamente R$ 120 mil. Também aparecem cerca de R$ 30,9 mil em serviços de costura, bordado e lavanderia.
Veículos, vans e motoristas também aparecem nas contas
A logística necessária às gravações também representou parcela importante das despesas. A documentação registra 81 pagamentos relacionados a motoristas, vans e caminhões, somando aproximadamente R$ 375,9 mil. Há ainda registros de quatro pagamentos relacionados à aquisição de veículos, totalizando aproximadamente R$ 402,7 mil. Outras 32 despesas com estacionamento somaram cerca de R$ 14 mil.
Produção teria custado cerca de R$ 75 milhões
Uma perícia contratada pela própria Go Up Entertainment apontou anteriormente um custo aproximado de R$ 75 milhões para a produção de “Dark Horse”. Segundo esse levantamento, mais de R$ 54 milhões, equivalentes a aproximadamente 72% do total, teriam sido gastos nos Estados Unidos. No Brasil, as despesas teriam alcançado aproximadamente R$ 20,9 milhões. O diretor do longa, Cyrus Nowrasteh, contestou publicamente valores que vêm sendo apresentados como orçamento do filme. Ele afirmou que algumas cifras divulgadas misturam despesas efetivas de produção com projeções de marketing e publicidade.
Produtora entregou milhares de documentos
A Go Up Entertainment entregou à Polícia Federal um grande volume de documentos relacionados à produção. O material inclui contratos, notas fiscais e comprovantes bancários. Reportagens apontam que foram entregues cerca de 25 mil páginas às autoridades. A documentação passou a ser analisada no contexto das diferentes investigações relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”.
Filme aparece em investigações diferentes
“Dark Horse” aparece atualmente em mais de uma frente de investigação. Uma delas envolve o financiamento atribuído ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e é analisada em procedimento sob relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Outra frente investiga possíveis relações entre recursos provenientes de emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) e movimentações financeiras envolvendo entidades e empresas ligadas à produtora do filme. Na quinta-feira (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, que cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. A investigação apura suspeitas de desvios de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares. Entre os alvos estavam Mario Frias e a empresária Karina Gama, ligada à Go Up Entertainment.
PF identificou movimentação de R$ 19 milhões
Em relatório relacionado à investigação, a Polícia Federal apontou movimentações consideradas atípicas nas contas da Go Up Entertainment durante o período das gravações. Segundo a PF, a empresa movimentou aproximadamente R$ 19 milhões entre novembro e dezembro de 2025. As filmagens ocorreram entre outubro e dezembro daquele ano, em São Paulo. Os investigadores analisam coincidências temporais entre transferências recebidas por empresas e entidades relacionadas à produtora e despesas realizadas durante a produção. A existência dessas movimentações, entretanto, não significa que todos os recursos utilizados no filme tenham origem pública. Essa é justamente uma das questões investigadas.
Mario Frias nega irregularidades
Mario Frias afirma que os recursos provenientes de suas emendas parlamentares foram destinados a projetos sociais e que irá colaborar com as investigações. A defesa também busca acesso integral aos elementos do inquérito. A produtora sustenta, por sua vez, que os recursos utilizados na realização de “Dark Horse” têm origem privada. As investigações continuam e não há, até o momento, condenação definitiva dos envolvidos pelos fatos apurados.
Filme ainda deve ser lançado
“Dark Horse” tem direção do cineasta norte-americano Cyrus Nowrasteh e Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. O projeto ganhou repercussão nacional depois que investigações passaram a analisar sua estrutura de financiamento e a movimentação dos recursos utilizados para custear a produção. Com a abertura de novos documentos, despesas que até então não eram conhecidas em detalhes passaram a integrar o debate sobre o financiamento da obra. Agora, investigadores procuram estabelecer não apenas quanto foi gasto, mas principalmente de onde saiu o dinheiro e qual caminho os recursos percorreram até chegar às empresas responsáveis pela produção.
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