Por Yasmin Lyra (*)
09 de outubro de 2026 às 01:14 ▪ Atualizado há 1 hora
Há uma espécie de silêncio que só aparece quando a política entra pela porta de casa. Ele se senta à mesa durante o jantar, atravessa o sofá, dorme ao lado do casal e, às vezes, acorda entre duas pessoas que juram se amar. É o silêncio de quem prefere não perguntar o que o outro pensa quando os direitos de uma mulher estão em disputa. É o silêncio de quem acredita que o amor pode ser um território neutro, protegido das contradições do mundo. Mas não existe neutralidade quando aquilo que está em jogo é a nossa liberdade. Talvez seja necessário fazer uma pergunta desconfortável, sobretudo neste período eleitoral: você ama uma mulher ou ama a ideia de uma mulher que não te contraria?
A pergunta parece íntima, mas é profundamente política. Simone de Beauvoir escreveu, em O Segundo Sexo, que “não se nasce mulher: torna-se mulher”. A frase atravessou gerações porque desmonta uma das maiores mentiras produzidas pelo patriarcado: a de que os lugares ocupados por homens e mulheres seriam naturais, inevitáveis, determinados pelo corpo ou pelo destino. Tornar-se mulher também significa aprender a existir dentro de estruturas que definem o que podemos ser, desejar, fazer e ocupar. Mas precisamos perguntar: quem controla essas estruturas? O Estado controla algumas, a economia controla outras, a família reproduz muitas delas. A religião, a cultura, a escola e o mercado de trabalho também participam desse processo. E a política atravessa todas essas dimensões. Por isso, dizer que política não entra no relacionamento é uma ingenuidade conveniente.
A política está presente quando uma mulher decide se terá condições de trabalhar porque existe ou não uma creche pública. Está presente quando uma trabalhadora doméstica luta pelo reconhecimento de seus direitos, quando uma mulher vítima de violência precisa de uma rede pública de proteção, quando mulheres negras enfrentam simultaneamente o racismo, o machismo e a desigualdade econômica. Está presente quando uma mulher precisa decidir sobre o próprio corpo, quando meninas crescem aprendendo quais profissões podem exercer, quais lugares podem frequentar e quanto de sua liberdade precisam negociar para serem consideradas “boas mulheres”. A política está, inclusive, dentro do quarto, porque o corpo também é território político.
É por isso que as eleições de 2026 precisam ser discutidas para além dos jingles, das brigas nas redes sociais e da velha frase “eu voto em quem eu quiser”. Sim, cada pessoa tem o direito de escolher seu candidato. Mas escolhas políticas não existem em um vácuo moral: elas produzem consequências. Quando falamos de Lula e Flávio Bolsonaro, não estamos apenas falando de dois nomes em uma disputa eleitoral.
Estamos falando de projetos políticos diferentes, de concepções distintas sobre o papel do Estado, das políticas sociais e da própria sociedade. O campo político liderado por Lula apresenta uma agenda associada à manutenção e à ampliação de políticas sociais, ao enfrentamento da violência contra as mulheres, à autonomia econômica e aos direitos trabalhistas. O bolsonarismo, por sua vez, construiu sua identidade política em oposição a diversas pautas feministas, movimentos sociais e políticas de promoção da igualdade, frequentemente tratando essas agendas como ameaças ideológicas ou exageros de uma suposta guerra cultural.
Isso não significa que todo eleitor de Lula seja feminista, tampouco que todo eleitor de Flávio Bolsonaro seja pessoalmente violento contra mulheres. Seria intelectualmente desonesto reduzir indivíduos inteiros ao candidato que escolheram. Mas existe uma pergunta que continua de pé: que projeto político você está ajudando a fortalecer quando vota? É justamente aqui que o amor precisa ser colocado diante do espelho.
Um homem pode amar sua esposa e continuar reproduzindo o machismo. Pode amar sua filha e defender ideias que limitam a liberdade de outras mulheres. Pode respeitar sua mãe e acreditar que o feminismo é uma ameaça. Pode ser gentil com a companheira dentro de casa e apoiar discursos que deslegitimam mulheres fora dela. O problema é que aprendemos a medir o caráter de um homem pela maneira como ele trata “as mulheres dele”, como se mulheres fossem propriedade afetiva organizada por círculos de pertencimento: minha mãe, minha esposa, minha filha, minha irmã. Como se fosse suficiente respeitar aquelas que possuem algum vínculo com ele.
Mas o feminismo nunca foi sobre pedir que homens sejam gentis apenas com as mulheres que amam. É sobre questionar uma estrutura social que transforma mulheres em seres cuja humanidade parece depender da relação que possuem com um homem. É nesse ponto que bell hooks se torna indispensável. Em O Feminismo é para Todo Mundo, a autora defende uma compreensão do feminismo como luta contra o sexismo e as estruturas de dominação. Isso exige muito mais do que homens dizerem que respeitam as mulheres.
Respeitar mulheres é pouco quando esse respeito não se traduz em práticas, escolhas e posicionamentos. É preciso defender sua liberdade, reconhecer sua autonomia e aceitar que uma mulher possa discordar de você sem que isso seja interpretado como uma ameaça. Uma mulher não precisa ser doce para ser digna de respeito, não precisa ser sua mãe, sua esposa ou sua filha. Ela precisa simplesmente ser reconhecida como humana.
E o pensamento de Lélia Gonzalez nos obriga a dar mais um passo. Não podemos falar de mulheres como se todas experimentassem o patriarcado da mesma maneira. A mulher negra brasileira não ocupa o mesmo lugar social que a mulher branca. A trabalhadora doméstica não experimenta as mesmas condições de uma mulher da elite. A mulher periférica, a mulher indígena, a mulher lésbica e a mulher trans enfrentam diferentes formas de vulnerabilidade, discriminação e resistência. Lélia Gonzalez nos ensinou a olhar para o Brasil a partir das marcas profundas do racismo e do sexismo. Por isso, não basta perguntar se um homem ama sua esposa. Precisamos perguntar que sociedade ele deseja construir para ela e para todas as outras mulheres.
Quando uma mulher negra sofre violência, ela pode encontrar não apenas o machismo, mas também o racismo institucional. Quando uma trabalhadora doméstica reivindica direitos, enfrenta uma história brasileira construída sobre a exploração do trabalho feminino e racializado. Quando uma mulher pobre precisa escolher entre trabalhar e cuidar dos filhos, sua liberdade de escolha está condicionada por estruturas econômicas concretas. Não basta falar de amor ignorando as condições materiais que permitem ou impedem que mulheres sejam livres. A emancipação não acontece apenas dentro de um relacionamento; ela também depende de direitos, políticas públicas e transformações sociais.
Por isso, quero provocar os homens que dizem amar suas companheiras. O que acontece quando ela diz que é feminista? Você continua ao lado dela quando denuncia o machismo dos seus amigos? Você escuta quando ela fala sobre violência? Você se incomoda quando ela ganha mais do que você? Você aceita que ela tenha uma carreira, autonomia financeira e uma vida que não gire exclusivamente ao seu redor? Você divide o trabalho doméstico ou apenas “ajuda” dentro da própria casa? Você reconhece que cuidar dos filhos também é responsabilidade sua? Você defende políticas públicas que permitam às mulheres conquistar autonomia econômica? E, sobretudo, se amanhã os direitos dela estiverem ameaçados, você vai lutar ao lado dela ou vai dizer que política não se discute em casa?
Existe uma forma bastante confortável de amar: aquela em que o outro não incomoda nossas convicções.
É fácil amar uma mulher que concorda, que não questiona, que não denuncia o machismo e que aceita cuidar da casa, dos filhos e da família sem reivindicar uma divisão justa dessas responsabilidades. Difícil é amar uma mulher livre. Difícil é amar uma mulher que lê, pesquisa, argumenta, discorda e muda de opinião quando considera necessário. Difícil é amar uma mulher que não aceita ser diminuída, que diz não e que não precisa de você para existir. Talvez seja justamente aí que alguns homens confundam amor com controle. Não querem uma mulher livre, mas alguém fiel à imagem que construíram dela. Não querem uma companheira, mas alguém que não ameace seus privilégios.
Quando uma mulher pergunta ao companheiro se ele lutaria pelos direitos dela, não está necessariamente perguntando se ele votará no mesmo candidato. Está perguntando algo muito maior: quando os direitos dela entrarem em conflito com aquilo em que ele acredita, será capaz de reconhecer sua humanidade? Essa é uma pergunta difícil, e deve continuar sendo.
Não precisamos transformar relacionamentos em tribunais políticos. Pessoas podem discordar, votar diferente e debater. Mas existe uma fronteira que não deveria ser relativizada: a dignidade. Um homem não precisa pensar exatamente como sua companheira, mas deveria compreender que os direitos dela não são moeda de negociação política. Se defende um candidato cujas propostas podem prejudicar esses direitos, precisa ter coragem de discutir as consequências dessa escolha, em vez de esconder-se atrás da frase “mas eu amo você”.
Amor não é salvo-conduto moral. Não adianta abraçar sua esposa depois de votar em um projeto político contrário a direitos que beneficiam milhões de mulheres e dizer que, com ela, é diferente. Por que deveria ser diferente? Por que a mulher que você ama merece liberdade, mas as outras deveriam aceitar menos? Por que sua filha merece proteção, mas a filha de outra pessoa não? Por que sua esposa merece dignidade, mas uma trabalhadora doméstica pode continuar invisibilizada? Se o seu amor só funciona quando a mulher está dentro da sua casa, talvez você não ame a liberdade dela. Talvez ame apenas a possibilidade de controlar aquilo que acontece ao seu redor.
Neste período eleitoral, enquanto homens e mulheres discutem Lula, Flávio Bolsonaro, esquerda, direita, democracia, segurança, economia e futuro, precisamos levar uma pergunta para dentro de nossas casas: que mundo estamos ajudando a construir para as mulheres que dizemos amar? Porque a eleição não termina na urna. Ela aparece no orçamento público, na escola, no hospital, na delegacia, no mercado de trabalho, na universidade, na periferia, na cozinha, na cama, no corpo e na vida. O voto é individual, mas suas consequências são coletivas. É por isso que política é, sim, assunto de casal, de família, de amizade e de amor. A pessoa que você ama também vive dentro da sociedade que você ajuda a construir.
Eu não quero um homem que diga que vai me proteger. Quero um homem que entenda que não preciso da proteção de um homem para ter direitos. Quero alguém que compreenda que meu corpo não é propriedade do Estado, da religião, da família, do companheiro ou de qualquer candidato. Quero alguém que saiba que minha liberdade não é um favor, mas um direito. E, se um dia alguém tentar tirá-la de mim, não quero ouvir apenas “eu te amo”. Quero saber o que você fez quando teve a chance de escolher.
Porque candidatos passam, governos passam, presidentes passam, partidos mudam. Mas as consequências das escolhas políticas permanecem na vida das pessoas. No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja apenas “você vota em Lula ou em Flávio Bolsonaro?”, mas “quando os meus direitos estiverem em disputa, de que lado você estará?”. A resposta pode revelar muito mais sobre um relacionamento do que qualquer declaração de amor.
Amar uma mulher não deveria significar apenas segurá-la pela mão quando o mundo é cruel. Deveria significar não ajudar a construir o mundo que será cruel com ela. E, se o seu amor exige que uma mulher permaneça em silêncio para que sua ideologia permaneça intacta, talvez seja hora de admitir uma verdade incômoda: isso não é amor. É poder usando o amor como disfarce.

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