O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) apresenta, na campanha eleitoral de 2026, propostas voltadas à proteção, à autonomia financeira e ao bem-estar das mulheres. Entretanto, o histórico do parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) inclui votos contrários a medidas destinadas a restringir a exploração da imagem feminina em cartões-postais turísticos e declarações que associavam a beleza das brasileiras ao potencial turístico do país.
Em 2005 e 2006, quando era deputado estadual, Flávio se posicionou contra duas iniciativas relacionadas ao tema. Na época, a discussão envolvia a comercialização de cartões-postais que utilizavam imagens de mulheres em trajes sumários, inseridas artificialmente em fotografias de pontos turísticos, e a aplicação de multas aos estabelecimentos que descumprissem a proibição.
As informações foram recuperadas pela jornalista Carol Pires, que consultou registros da Alerj e publicou o levantamento em sua newsletter em 18 de outubro de 2026.
Flávio chamou mulheres de patrimônio turístico
Em maio de 2006, ao justificar sua oposição à proposta que previa punições para estabelecimentos comerciais, Flávio Bolsonaro afirmou que as mulheres brasileiras representavam um atrativo turístico do país.
“Com todo o respeito à Sra. Deputada Alice Tamborindeguy, sou contra. Acho que não tem que haver esse tipo de restrição. Acho que a mulher brasileira também é um patrimônio turístico do nosso país, é uma beleza do nosso Estado, principalmente a mulher carioca”, declarou o então deputado.
A proposta discutida na Alerj buscava estabelecer multas para gráficas, bancas de jornal, lojas de lembranças, quiosques e outros estabelecimentos que comercializassem os cartões-postais considerados inadequados.
Em outro trecho do pronunciamento, Flávio questionou a aplicação de punições aos comerciantes e afirmou que a exposição de imagens de mulheres de biquíni não deveria ser motivo para penalidades.
“Não sei, acho que a intenção da Sra. Deputada Alice Tamborindeguy é tentar combater o incentivo à prostituição. Deve ser isso. Mas lembremos que, em qualquer orla do nosso Estado, em qualquer praia, estão mulheres de carne e osso, e não há qualquer tipo de combate. O corpo é delas, façam o que quiser”, afirmou.
A declaração foi criticada pela deputada estadual Inês Pandeló, que repudiou a associação entre as mulheres brasileiras e os atrativos turísticos no contexto da discussão sobre o combate ao turismo sexual.
Projeto contra cartões-postais foi aprovado
A primeira proposta, apresentada em 2005 pela deputada Alice Tamborindeguy, proibia a exposição e a venda de cartões-postais turísticos com imagens de mulheres em trajes sumários que não tivessem relação com a fotografia original do ponto turístico.
Flávio foi o único parlamentar a votar contra essa iniciativa, que acabou aprovada e transformada na Lei Estadual nº 4.642, de novembro de 2005.
No ano seguinte, o então deputado também se posicionou contra a proposta que estabelecia multas para os estabelecimentos infratores. O texto foi aprovado por 37 votos a um, sendo Flávio o único voto contrário, segundo os registros recuperados pela jornalista.
Plano de governo inclui propostas para mulheres
Na atual campanha presidencial, Flávio apresenta o programa “Brasil por Elas”, que reúne propostas sobre proteção contra a violência, autonomia financeira, qualificação profissional e cuidados com a família.
Entre as iniciativas anunciadas estão a criação de uma Central da Mulher, de um aplicativo para reunir serviços de denúncia e orientação e de medidas para ampliar o acesso a creches. O plano também menciona capacitação profissional e oportunidades de geração de renda.
O contraste entre as propostas atuais e as posições registradas na Alerj coloca em discussão a relação entre o discurso eleitoral do candidato e sua atuação parlamentar anterior. Enquanto a campanha apresenta medidas voltadas ao público feminino, os registros das votações e as declarações de 2005 e 2006 permitem questionar como Flávio compreendia, naquele período, a proteção da imagem das mulheres e o enfrentamento ao turismo sexual.