Flávio Bolsonaro faz campanha com amigo investigado por corrupção

Renato Araújo, que usa o nome “Renato Araújo do Bolsonaro” na campanha eleitoral, é antigo aliado da família e teve empresa alvo de busca e apreensão em operação da Polícia Civil

O senador Flávio Bolsonaro (PL) participou, nesse sábado (29), de uma “barqueata em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, ao lado do empresário Renato Araújo, antigo aliado e amigo da família Bolsonaro. A participação ocorre em meio às tentativas do senador de se desvincular da relação com Daniel Vorcaro, pivô do escândalo envolvendo o Banco Master.

Renato Araújo recebeu Flávio em Angra dos Reis, onde a família Bolsonaro mantém uma casa de veraneio, e acompanhou o senador até o embarque para o ato. Nas redes sociais, o empresário publicou registros ao lado de Flávio na Baía de Angra.

A aproximação entre os dois é antiga. Renato é candidato a deputado federal pelo PL-RJ e adotou como nome de urna “Renato Araújo do Bolsonaro”. Ele também é proprietário do jet ski amarelo que foi emprestado à família Bolsonaro e utilizado por Flávio durante um episódio envolvendo uma operação da Polícia Federal na casa de Jair Bolsonaro, em janeiro de 2024.

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Empresa de Renato foi alvo de operação

Renato Araújo também aparece relacionado a uma investigação sobre contratos para obras em escolas públicas do Rio de Janeiro. A Bravo Construções, empresa que já esteve em seu nome e atualmente está registrada em nome de sua mulher, Tainá Nóbrega de Souza, foi alvo de busca e apreensão durante a Operação Sarasvati, deflagrada pela Polícia Civil em 13 de agosto.

A investigação apura suspeitas de fraude e possível direcionamento de contratos para reformas em escolas estaduais durante o governo de Cláudio Castro (PL). Segundo os investigadores, o esquema sob apuração envolve contratos que ultrapassam R$ 1 bilhão.

A Bravo foi contratada em 2025 para realizar reformas em 15 escolas estaduais, em contratos que somavam R$ 16,2 milhões. A contratação também entrou no radar do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), que determinou a suspensão de pagamentos a empresas envolvidas.

Apesar de a Bravo estar atualmente registrada em nome de Tainá, documentos enviados à Secretaria de Estado de Educação em 2025 apresentam Renato como diretor-geral da empresa. Ele também integrou o quadro societário da construtora até pelo menos 2024.

A Polícia Civil investiga se empresas foram direcionadas para executar obras e se houve irregularidades no uso das Associações de Apoio à Escola (AAEs), mecanismo criado para permitir a realização de pequenos reparos de forma mais rápida. Segundo apontamentos do TCE, o modelo teria sido utilizado para reformas de maior porte, com valores milionários.

Até o momento, a investigação não aponta participação de Flávio Bolsonaro ou de outros integrantes da família nos contratos investigados.

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Amizade com a família Bolsonaro

A relação de Renato com os Bolsonaro vai além da política. O empresário é vizinho da família em Angra dos Reis e mantém uma relação de proximidade com Flávio há anos.

Em 2023, funcionários de empresas ligadas a Renato ajudaram em serviços na residência de Jair Bolsonaro na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra. O empresário negou ser responsável pela reforma, mas confirmou que frequentava o imóvel e que seus funcionários participaram da conclusão dos trabalhos.

Renato também já acompanhou Flávio em passeios de barco e pescarias e integrou a comitiva bolsonarista que viajou a Buenos Aires, na Argentina, para a posse do presidente Javier Milei, em dezembro de 2023.

A relação se estendeu às eleições. Renato disputou a Prefeitura de Angra dos Reis pelo PL em 2024 e recebeu Jair e Flávio Bolsonaro durante a campanha. Para a eleição de 2026, passou a usar oficialmente o sobrenome político “do Bolsonaro” em seu nome de urna.

Projeto imobiliário e a PEC das Praias

Além da relação política e pessoal, Renato Araújo também mantém um empreendimento imobiliário em Angra dos Reis que já foi alvo de investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Ele é sócio da Bellavista Portogalo Empreendimentos, responsável por um projeto de condomínio de luxo com 31 mansões, além de estruturas como clube, marina e centro comercial. O empreendimento ocupa cerca de 320 mil metros quadrados.

Desse total, aproximadamente 8 mil metros quadrados estão em terrenos de marinha, áreas que pertencem à União e são justamente um dos pontos abrangidos pela chamada PEC das Praias, relatada por Flávio Bolsonaro no Senado.

A PEC 3/2022 prevê, entre outras mudanças, a possibilidade de transferência da propriedade de terrenos de marinha para estados, municípios e particulares, conforme critérios previstos na proposta.

Uma reportagem da revista piauí, publicada em 2024, apontou que uma eventual aprovação da proposta poderia beneficiar empreendimentos como o Bellavista Portogalo. A publicação também revelou que o projeto era alvo de investigação do Ministério Público por possíveis danos ambientais e questões relacionadas ao licenciamento.

Parte da área também aparece em registros imobiliários como submetida ao regime de aforamento. A Secretaria do Patrimônio da União (SPU), porém, afirmou que não havia sido informada sobre a mudança e que a área continuava sob domínio integral da União em regime de ocupação.

O procedimento criminal relacionado ao empreendimento foi arquivado em 2023. Já a investigação na área cível e ambiental permanecia em andamento à época da reportagem da piauí.

Renato negou qualquer interferência de Flávio Bolsonaro no empreendimento e afirmou que o senador nunca teve ligação com o projeto.

Apesar das diferentes frentes envolvendo o empresário, a Operação Sarasvati não aponta, até o momento, participação de Flávio Bolsonaro nas supostas irregularidades investigadas nos contratos de obras escolares. A proximidade entre os dois, entretanto, é antiga e inclui relações políticas, negócios, convivência pessoal e episódios que voltaram a ganhar visibilidade com a participação conjunta na barqueata deste sábado em Angra dos Reis.