Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltou à mira de investigadores e da imprensa a pouco mais de dois meses do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em poucos dias, três inquéritos foram abertos no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar suspeitas de corrupção e tráfico de influência relacionadas a negócios privados e possíveis contatos com órgãos do governo federal.
As novas frentes fizeram ressurgir um roteiro conhecido. Desde que o nome do filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no caso Gamecorp, em 2005, acusações, investigações antigas e suspeitas não comprovadas voltam ao noticiário durante campanhas presidenciais.
Um levantamento da Fórum em registros do Ministério Público Federal (MPF), peças da Polícia Federal, decisões judiciais, documentos do Congresso e reportagens publicadas ao longo de duas décadas mostra que Lulinha esteve sob investigação, reativação de casos ou intensa exposição pública em cinco dos seis ciclos eleitorais desde 2006.
O dado mais relevante, frequentemente escondido sob manchetes e acusações políticas, é outro: Lulinha nunca virou réu. Nos casos históricos que chegaram a um desfecho, as investigações foram arquivadas ou encerradas sem denúncia criminal aceita pela Justiça. As apurações de 2026 ainda estão em andamento e tampouco produziram denúncia.
Juridicamente, denúncia é a acusação formal apresentada pelo Ministério Público e recebida pela Justiça. Quando o termo aparece nesta reportagem fora dessa acepção, refere-se às acusações públicas e políticas reproduzidas no debate eleitoral.
Lulinha nunca virou réu: o que a cronologia mostra
Para verificar a alegação de que Lulinha é colocado na mira de quatro em quatro anos, a Fórum considerou como ciclo eleitoral o ano da eleição presidencial e o ano imediatamente anterior.
Por esse critério, houve investigação ativa, abertura de uma nova frente ou recuperação de casos pela imprensa nos ciclos de 2005-2006, 2009-2010, 2017-2018, 2021-2022 e 2025-2026.
A exceção é 2014. Não foi localizado registro de inquérito criminal específico contra Fábio Luís aberto ou em andamento em 2013 ou 2014. A Lava Jato teve início naquele ano, mas o nome de Lulinha só passou a aparecer diretamente em diligências e relatórios da operação a partir de 2016.
O levantamento, portanto, não permite afirmar que um novo inquérito foi aberto contra ele em todas as eleições. Permite afirmar algo diferente: o nome de Lulinha reapareceu em cinco dos seis ciclos presidenciais, ainda que, em alguns deles, a imprensa estivesse recuperando uma investigação antiga.
2006: Gamecorp vira manchete durante a campanha
O primeiro grande caso começou em 2005, um ano antes da eleição em que Lula disputaria o segundo mandato. A antiga Telemar, posteriormente incorporada pela Oi, investiu R$ 5 milhões na Gamecorp, empresa que tinha Fábio Luís entre seus sócios.
O MPF abriu o procedimento nº 1.16.000.001827/2005-38 para examinar possível favorecimento à empresa e suspeita de tráfico de influência. A relação entre Telemar e Gamecorp também foi analisada pela CPI dos Correios, mas Fábio Luís não foi incluído no relatório final da comissão.
O inquérito policial propriamente dito, de nº 1.267/2007, só foi instaurado em junho de 2007, após a eleição. Isso significa que a investigação formal começou na janela eleitoral de 2005-2006, mas não houve um inquérito policial aberto durante a campanha de 2006.
Depois de sete anos de apuração, o caso foi arquivado. Em registro oficial, a Câmara de Coordenação e Revisão do MPF homologou o encerramento por unanimidade. As suspeitas que dominaram o noticiário eleitoral não se transformaram em acusação criminal contra Lulinha.
2010: o mesmo caso continuava aberto e voltou ao noticiário
Quatro anos depois, durante a campanha presidencial de 2010, o caso Gamecorp voltou a ocupar manchetes. Não se tratava, entretanto, de uma investigação nova.
Em agosto daquele ano, uma reportagem registrou que o inquérito havia sido aberto três anos antes e estava praticamente paralisado por uma disputa entre unidades do Ministério Público do Rio de Janeiro e de São Paulo. Segundo a própria publicação, a investigação ainda se resumia a recortes de jornais e a uma disputa de pareceres.
No fim de dezembro de 2010, a imprensa voltou ao tema ao publicar dados sobre aportes da Oi na Gamecorp e decisões do governo para o setor de telecomunicações. Mais uma vez, o material tratava do mesmo negócio investigado desde 2005, e não de um novo inquérito contra Lulinha.
O procedimento permaneceu aberto durante toda aquela eleição e só foi definitivamente arquivado em 2012. A apuração atravessou, assim, duas campanhas presidenciais sem que Fábio Luís se tornasse réu.
2018: novo inquérito, mas o objeto foi distorcido
Em 2018 houve efetivamente a abertura de um novo inquérito, o IPL nº 178/2018. O objeto inicial, porém, não era o suposto enriquecimento ilícito de Lulinha, como passou a ser apresentado em publicações políticas.
A Polícia Federal investigava a possível ocultação, alteração ou destruição de documentos por pessoas ligadas às empresas do Grupo Gol, do empresário Jonas Suassuna, antes da Operação Aletheia, deflagrada em 2016.
Fábio Luís apareceu posteriormente em uma representação conjunta da PF que reuniu esse procedimento a outros inquéritos da Lava Jato. A polícia chegou a pedir sua prisão temporária, mas a Justiça negou a medida.
Uma perícia patrimonial realizada pela PF também não identificou evolução patrimonial de Lulinha sem cobertura nos rendimentos declarados. O inquérito de 2018 não produziu denúncia criminal aceita contra ele.
2022: dois arquivamentos durante a disputa presidencial
Na janela da eleição de 2022, Fábio Luís voltou a enfrentar investigações originadas em provas e suspeitas produzidas pela Lava Jato.
Uma delas tramitou nos autos nº 5003017-83.2021.4.03.6181 e examinou supostos pagamentos sem causa entre empresas ligadas a Lulinha e a dois de seus irmãos.
Em novembro de 2021, o próprio MPF promoveu o arquivamento. A procuradora responsável concluiu que a prova essencial derivava de elementos considerados ilícitos e que não havia demonstração da materialidade do delito nem justa causa para manter o inquérito.
Outra frente foi a Operação Mapa da Mina, deflagrada em dezembro de 2019 como a 69ª fase da Lava Jato. A operação recuperou as antigas suspeitas sobre pagamentos da Oi e da Telemar a empresas do grupo Gamecorp e Gol.
Em janeiro de 2022, a Justiça Federal arquivou o caso. A decisão reconheceu a nulidade de medidas que derivavam de processos conduzidos pelo ex-juiz Sergio Moro, cuja parcialidade havia sido declarada pelo STF, e acolheu o pedido de encerramento apresentado pelo Ministério Público.
Mais uma vez, o nome de Lulinha atravessou um ciclo eleitoral sob acusações e manchetes, mas os procedimentos terminaram sem que ele se tornasse réu.
2026: relatório contra Lulinha foi rejeitado e PF não o indiciou
O roteiro reapareceu no ciclo de 2026 a partir da investigação sobre os descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O nome de Lulinha passou a ser relacionado publicamente ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. A CPMI criada no Congresso para investigar o esquema aprovou, em votação simbólica e num bloco de 87 requerimentos, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís.
O ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu a medida. A decisão apontou que quebras de sigilo atingem direitos fundamentais e não poderiam ser aprovadas coletivamente, sem fundamentação individualizada. Segundo a Agência Brasil, Dino suspendeu especificamente a deliberação da CPMI que determinava a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva.
O relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar, incluiu Lulinha entre os nomes que pretendia indiciar e chegou a sugerir que autoridades avaliassem sua prisão. O parecer, entretanto, foi rejeitado por 19 votos a 12. A comissão encerrou os trabalhos sem relatório final aprovado.
Em julho, a primeira conclusão da Polícia Federal sobre um dos núcleos da fraude no INSS indiciou 48 pessoas. Como mostrou a Fórum, Lulinha não apareceu na lista, e a polícia não identificou naquela etapa elementos que demonstrassem pagamentos do Careca do INSS a ele.
A ausência de indiciamento naquele núcleo não impediu a abertura de novas frentes. Entre 30 de julho e 4 de agosto, o STF autorizou três inquéritos contra Fábio Luís.
O primeiro apura se ele teria ajudado Antônio Carlos Camilo Antunes em tratativas relacionadas a um projeto de medicamentos à base de cannabis medicinal no Ministério da Saúde. O negócio investigado não chegou a ser concretizado.
O segundo examina uma suposta atuação em favor de uma empresa interessada em negócios com a Dataprev. A Fórum mostrou que o novo inquérito foi aberto depois de a apuração original sobre o INSS não produzir provas que ligassem Lulinha aos descontos indevidos.
O terceiro inquérito, autorizado por Flávio Dino, investiga suspeita de tráfico de influência em favor de empresas com interesses no governo federal. Dino também determinou a abertura de uma apuração separada sobre possíveis vazamentos de informações sigilosas, atendendo a uma demanda apresentada pela defesa.
Até agora, os três inquéritos continuam em fase investigativa. Não houve denúncia criminal apresentada e recebida pela Justiça, ação penal ou condenação contra Fábio Luís.
Defesa denuncia “pesca probatória” em plena eleição
Os advogados de Lulinha afirmam que setores da Polícia Federal estariam realizando uma “fishing expedition” — expressão jurídica usada para descrever uma investigação excessivamente ampla, aberta na expectativa de que alguma irregularidade seja encontrada posteriormente.
Em entrevista à Fórum, o advogado Marco Aurélio Carvalho acusou setores da PF de retomarem métodos associados à Lava Jato e afirmou que a multiplicação de procedimentos às vésperas da eleição expõe uma motivação política.
Essa é uma avaliação da defesa. Não existe decisão judicial que reconheça uma perseguição coordenada contra Fábio Luís. A cronologia, porém, mostra que investigações antigas, novas suspeitas e acusações sem desfecho judicial ganham intensidade e espaço no noticiário justamente durante disputas presidenciais.
O presidente Lula afirmou que não usará o cargo para proteger o filho e que Fábio Luís deverá responder como qualquer cidadão caso alguma acusação seja formalizada. Ao mesmo tempo, recordou a sucessão de histórias falsas que atribuíram a Lulinha fazendas, frigoríficos, aviões, rebanhos e participações em grandes empresas.
Casos antigos foram encerrados; os atuais ainda não chegaram à Justiça
A documentação não sustenta a afirmação de que um novo inquérito foi aberto contra Lulinha em todas as eleições. O que ela revela é um padrão mais preciso: em cinco de seis ciclos presidenciais houve investigação ativa, nova frente ou retomada de acusações no noticiário.
Nos casos históricos que tiveram um desfecho, a Justiça ou o Ministério Público determinaram o arquivamento. No episódio de 2018, o inquérito também não resultou em denúncia criminal aceita contra Fábio Luís.
Os três procedimentos de 2026 ainda precisam ser investigados e avaliados pela Procuradoria-Geral da República. Uma investigação não equivale a culpa, indiciamento não equivale a denúncia, e denúncia só transforma alguém em réu quando é recebida pela Justiça.
Depois de duas décadas de acusações recuperadas de quatro em quatro anos, permanece o fato que raramente recebe o mesmo destaque das manchetes: Lulinha nunca virou réu.