Polícia desmantela esquema de golpes digitais que fez mais de 100 vítimas no Piauí

Criminosos fingiam pagar por produtos anunciados na internet ou se passavam por consultores de investimentos

A promessa de uma venda concluída ou de um investimento capaz de multiplicar o dinheiro terminou em prejuízo para mais de 100 piauienses. Nesta terça-feira (25), a Polícia Civil do Piauí deflagrou duas operações contra grupos especializados em fraudes eletrônicas e descobriu esquemas que, juntos, provocaram perdas superiores a R$ 1 milhão.

Batizadas de “Compra Fantasma” e “Miragem Financeira”, as operações foram realizadas pelo Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), com apoio da Superintendência de Operações Integradas (SOI), da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, e das Polícias Civis de Minas Gerais e São Paulo.

Ao todo, foram cumpridos mais de 40 mandados judiciais, entre prisões temporárias e buscas e apreensões. As ordens foram expedidas pela Central de Inquéritos da Comarca de Teresina.

As investigações mostram que os criminosos utilizavam estratégias diferentes, mas tinham o mesmo objetivo: convencer as vítimas de que estavam diante de uma negociação legítima para, depois, ficar com o dinheiro ou com os produtos.

Na Operação Compra Fantasma, os criminosos monitoravam anúncios de produtos usados publicados em plataformas como Mercado Livre e OLX. Depois de encontrar uma oferta, entravam em contato com o vendedor fingindo estar interessados na compra.

Os suspeitos enviavam e-mails falsos que simulavam a confirmação de uma transação, fazendo o vendedor acreditar que o dinheiro já havia sido pago. Sem conferir a movimentação diretamente na conta bancária, a vítima entregava o produto.

Em alguns casos, a retirada era feita por motoristas de aplicativo, que buscavam a mercadoria no endereço do vendedor sem necessariamente saber que estavam sendo utilizados no esquema.

Depois, os produtos eram repassados para colaboradores locais e revendidos. Segundo a investigação, a divisão do dinheiro seguia uma espécie de “comissão” criminosa: 70% ficavam com o líder do grupo e 30% com a pessoa responsável por receber a mercadoria.

Na prática, a vítima acreditava ter realizado uma venda, mas descobria posteriormente que nunca havia recebido o pagamento.

Falso investimento fazia vítimas transferirem dinheiro por PIX

O segundo esquema investigado pela Polícia Civil funcionava de maneira diferente, mas também explorava a confiança das vítimas.

Na Operação Miragem Financeira, os criminosos entravam em grupos de aplicativos de mensagens e abordavam possíveis vítimas utilizando perfis falsos de consultores de investimentos.

Para dar aparência de legitimidade ao golpe, eles utilizavam indevidamente o nome de uma instituição financeira conhecida.

As vítimas eram convencidas a instalar um aplicativo falso de corretora, que simulava operações e investimentos. A partir daí, recebiam orientações para realizar transferências via PIX para empresas de fachada controladas por pessoas usadas como intermediárias no esquema.

O dinheiro era enviado acreditando que estava sendo aplicado em investimentos. O problema era que a corretora não existia e os valores não eram destinados a nenhuma aplicação legítima.

A fraude só era percebida quando as vítimas tentavam resgatar o suposto investimento ou percebiam que não conseguiam mais contato com os falsos consultores.

Investigação atravessou três estados

Para chegar aos suspeitos, a Polícia Civil reuniu informações obtidas a partir de dados de inteligência, provedores de aplicativos e instituições financeiras.

As investigações também demonstraram que os grupos não estavam concentrados em apenas uma cidade. Os criminosos atuavam de maneira pulverizada e utilizavam pessoas e estruturas em diferentes estados para dificultar a identificação dos responsáveis.

Por isso, a operação desta terça-feira contou com a participação das Polícias Civis do Piauí, Minas Gerais e São Paulo.

Segundo a Polícia Civil, somente no Piauí já foram identificadas mais de 100 vítimas dos dois esquemas.

Como evitar cair nos golpes

A Polícia Civil alerta que alguns cuidados simples podem impedir que uma negociação aparentemente normal termine em prejuízo.

No caso de vendas pela internet, a orientação é não confiar em e-mails, prints ou mensagens que indiquem que o pagamento foi realizado. O vendedor deve conferir o dinheiro diretamente no aplicativo ou no site oficial do banco antes de entregar o produto.

Também é importante desconfiar de compradores que tentem retirar a negociação das plataformas oficiais ou pressionem pela entrega rápida da mercadoria.

Para investimentos, o alerta é ainda maior diante de ofertas que prometem retornos muito acima do que é praticado normalmente no mercado.

Antes de transferir qualquer valor, a recomendação é verificar se a empresa e o profissional realmente possuem registro nos órgãos competentes, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central do Brasil.

A principal regra é simples: se o dinheiro ainda não apareceu na sua conta, a venda não foi paga — e se uma proposta de investimento parece boa demais para ser verdade, é preciso desconfiar antes de fazer qualquer PIX.