Sem Niède Guidon, prefeito cobra pedágio aos visitantes do Parque da Serra da Capivara

Medida aprovada pela Câmara entrou em vigor em 2026 e gera polêmica: turistas pagam achando que é ingresso, mas dinheiro vai para a prefeitura e não para quem cuida do parque

Uma medida implementada pelo prefeito de Coronel José Dias, Victor Carvalho (PSD), está causando polêmica entre trabalhadores, guias e visitantes do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Sul do Piauí. A gestão municipal passou a cobrar uma espécie de pedágio de R$ 20 por pessoa em estradas municipais que dão acesso à unidade de conservação, uma das mais importantes do mundo.

A cobrança, que entrou em vigor em 2026, começou pouco mais de seis meses após a morte da renomada arqueóloga Niède Guidon, criadora do Parque e que dedicou sua vida à proteção do local. Para muitos, a coincidência dos eventos não é acidental. “Se ela estivesse viva, ele não se atrevia a cobrar essa taxa,” afirmou um guia local a este jornalista nesta segunda-feira (25), nas dependências do parque.

A taxa foi aprovada pelos vereadores de Coronel José Dias. O prefeito teria realizado uma espécie de audiência pública para discutir o assunto, mas a cobrança do pedágio tem recebido muitas críticas porque o dinheiro arrecadado não é destinado à preservação do parque, e sim diretamente para os cofres do município.

A Prefeitura de Coronel José Dias instalou duas barreiras nas estradas municipais de acesso ao parque, onde funcionários municipais realizam a cobrança obrigatória. O pagamento pode ser feito via Pix ou cartão de crédito/débito, e os valores são direcionados diretamente para uma conta da gestão municipal.

Tenda com funcionários da prefeitura de Coronel José Dias que cobram pedágio aos visitantes Turista paga achando que é ingresso do parque

A confusão entre os visitantes é generalizada. Quem chega à região e encontra as barreiras acredita que está pagando para ter acesso ao Parque Nacional. No entanto, a cobrança não tem nenhuma relação oficial com o parque e trata-se exclusivamente de um pedágio municipal incidente sobre vias que circundam a unidade de conservação.

“O problema não é o valor. O problema é que o dinheiro dos visitantes não vai para quem cuida do parque”, explicou uma arquiteta de Teresina que está fazendo uma pesquisa na área ao saber da cobrança da taxa. Ele está em visita ao parque em companhia dos pais.

A polêmica concentra-se no fato de que a taxa municipal não é repassada aos órgãos que legalmente cuidam da manutenção da unidade. A gestão do parque é de responsabilidade do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). 

O próprio ICMBio, responsável gestão administrativa do unidade de conservação, já se manifestou sobre o caso, reforçando em nota que a entrada no Parque Nacional da Serra da Capivara é gratuita e que a taxa instituída pela prefeitura é uma medida municipal que não tem qualquer relação com a administração federal da unidade. O órgão também esclareceu que a cobrança é feita em áreas externas aos acessos oficiais do parque e não tem responsabilidade sobre essa arrecadação.

Entrada do Parque que é um patrimônio da humanidade Aproveitar turismo sim, mas com pedágio não

Especialistas em turismo e moradores da região consideram positivo que o município queira aproveitar economicamente o enorme potencial turístico do Parque da Serra da Capivara. No entanto, apontam que, para isso, a prefeitura deveria criar condições para que os turistas gastem dentro da cidade, com hospedagem, alimentação, artesanato e serviços, e não cobrando um pedágio na porta de entrada de um patrimônio da humanidade.

“O caminho correto é incentivar o comércio local, melhorar a infraestrutura urbana e qualificar os serviços. Pedágio afasta visitante e dá uma imagem ruim para a cidade”, avalia um operador de turismo da região que preferiu não se identificar.

Um Patrimônio da Humanidade

O Parque Nacional da Serra da Capivara é reconhecido mundialmente por abrigar o maior e mais relevante conjunto de sítios arqueológicos das Américas. Com pinturas rupestres que datam de mais de 50 mil anos, o local comprova a presença humana primitiva no continente.

A área do parque está distribuída por quatro municípios piauienses: São Raimundo Nonato, Coronel José Dias, Brejo do Piauí e João Costa (este detém a maior parte da área). Em 1991, foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, e em 1993 foi tombado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN.

Na tarde desta segunda-feira (25), procuramos a Prefeitura de Coronel José Dias, mas o repórter foi informado de que o prefeito está em viagem. O espaço para a versão do prefeito está garantido.