A flexibilização das regras para venda de armas anunciada pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos pode facilitar o acesso de facções criminosas no Brasil a armamentos pesados. A avaliação é de especialistas em segurança pública ouvidos pela Agência Brasil.
Entre as medidas propostas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF, na sigla em inglês), destacam-se a permissão para compras de armas pelos correios e a redução do tempo para manutenção de registros de vendas. Essas alterações são vistas como um risco adicional, dado que os EUA já são uma fonte significativa de armas para o crime organizado em várias regiões.
Estudos demonstram que um alto percentual das armas de fogo apreendidas no Caribe e em outras localidades tem origem nos EUA. No Brasil, um levantamento do Journal of Illicit Economies and Development mostrou que, entre 2019 e 2023, 54% dos fuzis ilegais apreendidos no Sudeste eram de fabricação norte-americana.
Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, alerta que a facilidade de envio de peças semiprontas por correio, sem registros adequados, torna mais difícil a identificação e apreensão pelas alfândegas, beneficiando o tráfico de armas.
Robson Rodrigues, cientista social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, observa que o fortalecimento do lobby pró-armas nos EUA amplia a dificuldade de controle da exportação para mercados vulneráveis, como o brasileiro.
Em 2025, as restrições para exportação de armas para 36 países foram revogadas, criando novas oportunidades para fabricantes dos EUA, em detrimento da segurança pública internacional. Para Langeani, a prática vai na contramão dos esforços declarados pelos EUA de combate ao crime organizado na América Latina.