UFBA proíbe estudantes de Odontologia de usar shorts e cropped para 'prevenir assédio'

Código de vestimenta também restringe decotes e bonés; direção afirma que medida envolve biossegurança, segurança e prevenção de assédio

A Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) passou a restringir o uso de shorts curtos, minissaias, croppeds e roupas decotadas nos ambientes da instituição. As novas regras de vestimenta valem para estudantes, professores, funcionários e pacientes e têm provocado questionamentos, especialmente entre estudantes mulheres.

Entre as justificativas apresentadas pela direção da faculdade está a prevenção de situações de assédio. A medida, porém, levanta uma discussão sobre a responsabilidade pela prevenção desse tipo de violência: é a roupa da mulher que deve ser limitada ou o comportamento de quem pratica o assédio que deve ser combatido?

O código de vestimenta já está em vigor e foi aprovado pela Congregação da Faculdade de Odontologia. O documento também restringe o uso de bonés e estabelece orientações sobre as roupas utilizadas nos espaços acadêmicos e assistenciais.

Restrição a roupas femininas gera questionamentos

A proibição de peças como minissaias, croppeds e shorts curtos provocou reações entre estudantes. Parte dos alunos questiona se regras que estabelecem quais roupas podem ou não ser utilizadas no ambiente universitário interferem na liberdade individual.

A discussão ganha ainda mais força porque algumas das peças citadas no código são tradicionalmente associadas ao vestuário feminino.

A direção da faculdade afirma que as normas não têm caráter moralizador e que foram elaboradas considerando aspectos relacionados à segurança, biossegurança e às características dos ambientes de atendimento odontológico.

No entanto, ao incluir a prevenção de assédio entre as justificativas para as restrições, a medida passou a levantar questionamentos sobre a forma como a instituição entende o problema.

Roupa da mulher pode prevenir assédio?

A justificativa apresentada pela direção coloca em debate uma questão que ultrapassa os muros da universidade: até que ponto a roupa de uma mulher pode ser utilizada como argumento para prevenir o assédio?

O assédio é uma conduta praticada por quem assedia. Por isso, estabelecer que mulheres devem deixar de usar determinadas peças para evitar esse tipo de comportamento pode ser interpretado como uma transferência da responsabilidade pela prevenção da violência para a própria vítima em potencial.

Nesse sentido, a discussão provocada pelas regras da Faculdade de Odontologia da UFBA não se limita ao direito de usar shorts ou minissaia. Ela envolve a definição de quem deve mudar seu comportamento para evitar o assédio.

A direção da faculdade, por outro lado, afirma que a medida considera situações concretas registradas nos ambientes de atendimento. No caso dos shorts, o diretor citou episódios de comportamento inadequado em consultórios.

Faculdade diz que medida não é moralizadora

A direção da FOUFBA sustenta que o código não foi criado para controlar o comportamento ou a aparência dos estudantes. Segundo a instituição, as regras também consideram questões de biossegurança e segurança dos ambientes.

A proibição de bonés, por exemplo, foi relacionada à possibilidade de dificultar a identificação de pessoas em situações envolvendo furtos.

A faculdade também informou que estudantes participam da Congregação responsável pelas decisões da unidade e que lideranças femininas participaram da elaboração da medida.

Pacientes não serão impedidos de receber atendimento

Apesar das restrições, pacientes que chegarem à Faculdade de Odontologia usando alguma das peças proibidas não terão o atendimento negado, segundo a direção.

A instituição afirmou ainda que segue uma lógica semelhante à adotada pelo Hospital Universitário Professor Edgard Santos, conhecido como Hospital das Clínicas da UFBA.

O novo código, entretanto, continua provocando debate entre os estudantes, principalmente sobre os limites das regras de vestimenta e sobre a justificativa de utilizar a prevenção do assédio como um dos argumentos para restringir roupas usadas principalmente por mulheres.