O aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros começou a produzir efeitos concretos na economia do Piauí. Embora o estado tenha uma pauta de exportações concentrada na soja, destinada principalmente à China, um dos seus produtos mais tradicionais no mercado internacional — o mel — tornou-se um dos mais afetados pela política comercial norte-americana.
Levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que a cadeia de mel e silvicultura do Piauí registrou retração superior a 50% nas exportações para os Estados Unidos entre agosto e dezembro de 2025, após a entrada em vigor das tarifas adicionais impostas pelo governo do presidente Donald Trump.
O estudo aponta que, apesar de o impacto agregado sobre a balança comercial brasileira ter sido amortecido pela abertura de novos mercados, alguns estados sofreram perdas expressivas justamente por dependerem de poucos produtos e de poucos compradores internacionais.
Mel: principal vítima do tarifaço no Piauí
A apicultura é uma das atividades que mais geram renda para agricultores familiares piauienses. Segundo dados do Governo do Estado, em 2024 o Piauí exportou cerca de US$ 22,4 milhões em mel natural para os Estados Unidos, mercado que absorvia aproximadamente 87% de todo o mel exportado pelo estado. Essa elevada concentração tornou o setor extremamente vulnerável quando os Estados Unidos elevaram as tarifas sobre produtos brasileiros.
Na prática, o importador americano passou a pagar mais para comprar o mel brasileiro. Como consequência, muitos compradores reduziram encomendas, renegociaram preços ou passaram a buscar fornecedores em outros países. Para milhares de pequenos produtores distribuídos principalmente nas regiões semiáridas do estado, isso significou redução da renda e aumento da insegurança sobre a próxima safra.
Soja continua protegida, mas cenário preocupa
Ao contrário do mel, a soja produzida no Cerrado piauiense possui baixa dependência do mercado americano. Dados da Secretaria do Desenvolvimento Econômico indicam que a maior parte das exportações piauienses segue para a China, responsável pela compra da maior parcela da produção estadual. Em 2025, o Piauí exportou aproximadamente US$ 1,2 bilhão, sendo que a soja respondeu por cerca de 73% desse valor. esmo assim, economistas alertam que o estado não está totalmente protegido.
Mudanças no comércio internacional podem provocar:
- redução dos preços internacionais das commodities;
- aumento da concorrência em mercados asiáticos;
- custos logísticos mais elevados;
- menor rentabilidade para produtores.
O que o Governo do Piauí está fazendo
Diante da queda das exportações do mel, o Governo do Estado anunciou uma série de medidas voltadas à proteção da cadeia produtiva. Entre elas estão:
- realização de estudos para identificar novos mercados consumidores;
- abertura de negociações comerciais com países da Europa, Oriente Médio e Ásia;
- fortalecimento da participação do mel piauiense em feiras internacionais;
- apoio às cooperativas exportadoras;
- articulação com o Governo Federal para acesso às linhas especiais de financiamento do BNDES.
Segundo o governo estadual, a prioridade é diminuir a dependência do mercado norte-americano e ampliar a presença do produto piauiense em outros destinos internacionais. Outra medida já colocada em prática foi a ampliação das compras institucionais. Parte da produção passou a abastecer programas públicos de alimentação escolar, garantindo mercado para agricultores familiares enquanto novas oportunidades de exportação são buscadas.
Apoio do Governo Federal
O Governo Federal lançou o Plano Brasil Soberano, destinado às empresas prejudicadas pelo tarifaço. O programa disponibilizou R$ 30 bilhões em crédito e garantias para exportadores, além de mecanismos para estimular a abertura de novos mercados e preservar empregos.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que a prioridade do governo continua sendo negociar com os Estados Unidos, mas ressaltou que o Brasil também trabalha para ampliar sua inserção comercial em outros mercados e reduzir a dependência de um único comprador.
O que dizem os especialistas
O estudo técnico do BNDES conclui que o tarifaço não provocou uma crise generalizada na economia brasileira porque parte significativa das exportações foi redirecionada para outros países. Entretanto, o banco alerta que estados especializados em poucos produtos — como ocorre com o mel no Piauí — tendem a sofrer impactos muito superiores à média nacional. Na avaliação de especialistas em comércio exterior, o principal desafio agora será acelerar a diversificação dos mercados. A abertura de compradores na União Europeia, Oriente Médio e Ásia pode reduzir a dependência histórica dos Estados Unidos, mas exige certificações sanitárias, investimentos em logística, adaptação das embalagens e fortalecimento das cooperativas exportadoras.
Oportunidade em meio à crise
Apesar das perdas imediatas, especialistas avaliam que o tarifaço também pode representar uma oportunidade para o Piauí. Ao ampliar sua presença em novos mercados, o estado reduz riscos futuros e fortalece sua estratégia de internacionalização. A expansão da produção agrícola no Matopiba, a melhoria da infraestrutura logística e a valorização de produtos sustentáveis, como o mel orgânico, podem ampliar a competitividade do estado nos próximos anos. O desafio, contudo, será transformar uma resposta emergencial à crise em uma política permanente de promoção das exportações piauienses.