Pai de criança autista ressignifica a paternidade e luta pela autonomia do filho

Servidor público, Adriano Rodrigues conta como aprendeu a enxergar o autismo, acompanhou a alfabetização de Artur e transformou a paternidade em uma jornada de presença e aprendizado

Para muitos pais, o nascimento de um filho vem acompanhado de sonhos, planos e expectativas sobre o futuro. Para o servidor público Adriano Rodrigues, a paternidade ganhou novos significados quando ele e a esposa receberam o diagnóstico que o filho, Artur Rodrigues, era autista. O diagnóstico, recebido inicialmente com dificuldade de aceitação, trouxe medo, dúvidas e preocupação sobre o futuro. 

Com o passar dos anos, porém, a família transformou as incertezas em aprendizado, dedicação e conquistas. Nesse Dia dos Pais, celebrado neste domingo (9), a história de Adriano representa a trajetória de tantos pais que aprendem, diariamente, a compreender o mundo a partir das necessidades e potencialidades dos filhos autistas.

No começo, o servidor público não conseguia aceitar que o filho Artur fosse uma criança autista. Ele percebia que o filho era diferente em alguns aspectos, mas não associava essas características ao transtorno.

“No começo foi difícil, não foi fácil a aceitação. Porque eu não queria muito aceitar, eu achava ele normal, mas eu achava diferente. Mas não havia assim a questão de ser autista, uma deficiência, não passava na minha cabeça”, relata.

A confirmação veio após a realização de testes médicos. Para o pai, o diagnóstico representou um momento de grande impacto emocional, acompanhado por questionamentos sobre como seria a vida do filho e de que maneira a família poderia ajudá-lo.

“Aquilo, o primeiro momento foi um baque muito grande. Que eu me perguntava como é que a gente vai ajudar, como é que vai ser, o mundo de pensamentos sobre o futuro, o que vai ser dele e tal”, lembra.

Foi também depois do diagnóstico que Adriano passou a perceber características que antes não identificava. O conhecimento sobre o autismo mudou sua forma de enxergar o filho e também sua maneira de exercer a paternidade.

Para ele, uma das principais missões como pai passou a ser ajudar o filho a desenvolver independência.

“Mas a partir desse momento eu tenho lutado como pai para que ele tenha independência, que ele possa caminhar com as próprias pernas”, afirma.

O desejo é que Artur consiga resolver seus próprios problemas e tenha autonomia para conduzir a própria vida.

“Ele sempre vai ter características de um autista, mas que ele tenha autonomia para poder resolver os problemas dele”, destaca.

Adriano Rodrigues, seu filho Artur Rodrigues | Foto: Arquivo PessoalUm pai presente na rotina

A presença de Adriano não se limita ao acompanhamento escolar. Como servidor público, ele possui redução da jornada de trabalho para conseguir acompanhar Artur nas terapias, consultas e demais atividades.

A rotina é dividida entre trabalho, cuidados domésticos, escola e acompanhamento terapêutico.

“O servidor público, tem essa questão da redução da carga horária, para acompanhar os filhos, e isso tem me ajudado muito. Graças a Deus, estou sempre presente, eu gosto de estar sempre presente nas terapias.”

Para ele, estar presente é parte essencial da paternidade.

“Hoje eu tenho essa parceria com ele, ajudar ele a ser uma criança independente, uma criança que consiga resolver suas coisas sozinha. E eu estou sempre presente ali do lado dele, com as dificuldades que ele tem.”

Entre o medo e a descoberta

Antes de conhecer de perto o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Adriano tinha uma visão limitada sobre a condição. Ele conta que imaginava o autismo a partir de estereótipos relacionados principalmente a crianças que não falavam, não interagiam ou apresentavam comportamentos considerados diferentes.

“A ideia que a gente tinha de autismo era aquelas crianças agitadas, que se batiam na parede, que não falavam com ninguém, era muito, aquela coisa toda”, afirma.

Com o passar do tempo, o pai descobriu que o autismo se manifesta de diferentes maneiras e que cada pessoa apresenta características, necessidades e potencialidades próprias.

Segundo o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista é uma condição do desenvolvimento do cérebro que pode afetar a comunicação, a interação social e os comportamentos. O termo “espectro” representa justamente a diversidade de manifestações do autismo, que pode exigir diferentes níveis de apoio no cotidiano.

Entre as características que podem aparecer estão dificuldades na interação social, na comunicação, no reconhecimento de expressões e emoções, comportamentos repetitivos e sensibilidades relacionadas a estímulos sensoriais.

Foi a partir dessa compreensão que o servidor público Adriano passou a enxergar que o diagnóstico não deveria determinar sozinho o futuro do filho. 

Uma família que aprendeu junto

A busca pela autonomia de Artur também passou pela escola. No início da trajetória escolar, a família enfrentou dificuldades e chegou a acreditar que o menino poderia não conseguir se alfabetizar.

A situação levou a mãe de Artur a tomar uma decisão que marcou a história da família: ela entrou no curso de Pedagogia para aprender maneiras de auxiliar o filho no processo de leitura e aprendizagem.

“Minha esposa até se formou em pedagogia para ajudar ele, e hoje ele está no sexto ano já, está indo bem no colégio, é um bom aluno”, conta Adriano.

A família percebeu que Artur precisava de estratégias diferentes para acompanhar o conteúdo escolar. Segundo o pai, ele chegou ao segundo ano sem conseguir ler e escrever adequadamente.

“Ele já estava no segundo ano e não sabia ler direito, não sabia escrever direito”, relata.

Adriano Rodrigues, seu filho Artur Rodrigues e sua esposa | Foto: arquivo pessoalA formação da mãe passou a ser utilizada diretamente no acompanhamento do filho. Durante o curso, ela recebia orientações de professores e tutores e aplicava os conhecimentos na rotina de Artur.

“Foi quando a minha esposa tomou essa atitude de fazer o curso de pedagogia, e tudo que ela ia aprendendo, ia aplicando com ele. Os tutores orientavam ela, os professores orientavam ela, como é que ela ensinava o Artur, e foi ensinando, e graças a Deus, o Artur, hoje ele lê, escreve, ele lê um texto, ele consegue entender”, afirma.

Hoje, Artur está no sexto ano. Ainda enfrenta algumas dificuldades e, em determinadas disciplinas, precisa de adaptações para acompanhar o ritmo da turma. Para Adriano, no entanto, a evolução representa uma das grandes conquistas da família.

Artur e as pequenas grandes conquistas

Aos 12 anos, Artur tem uma rotina ativa. Estuda, faz terapias, realiza as atividades escolares e gosta de passear com a família. Entre os programas preferidos estão ir ao shopping, comer pizza, tomar sorvete, passear no parque e assistir a filmes no cinema.

“Ele gosta muito de ir para o colégio, ele gosta de passear, ele gosta de ir ao shopping, a gente sai, ele sai para comer uma pizza, tomar um sorvete, passear no parque, ele gosta muito dessas coisas”, conta o pai.

As experiências fora de casa também fazem parte da construção da autonomia do menino. Adriano conta que Artur não apresenta grande sensibilidade a barulhos e que a família consegue realizar atividades como ir ao cinema.

Artur Rodrigues, 12 anos | Foto: arquivo pessoalO desenvolvimento também trouxe mudanças na forma como a família enfrenta situações que antes provocavam constrangimento. Adriano lembra que, especialmente no início, algumas atitudes do filho eram interpretadas por desconhecidos como falta de educação.

“Dá aquele constrangimento que as pessoas olham, não sabe educar o filho, não imagina que ele tem um problema”, relata.

Hoje, segundo o pai, essas situações são menos frequentes. O amadurecimento de Artur, aliado às terapias e ao acompanhamento familiar, trouxe mais segurança para todos.

Uma nova forma de ser pai

A trajetória de Adriano começou com a dificuldade de aceitar o diagnóstico, passou pelo medo diante do futuro e chegou a uma compreensão diferente sobre o que significa criar um filho autista.

A experiência também mostrou ao servidor público que proteger não significa fazer tudo pelo filho. Para ele, o verdadeiro desafio está em oferecer apoio para que Artur consiga, pouco a pouco, fazer as coisas por conta própria.

Neste Dia dos Pais, a história de Adriano ganha um significado especial. É o retrato de um pai que precisou desconstruir expectativas, aprender sobre o autismo e descobrir novas formas de acompanhar o crescimento do filho.

É também a história de uma família que se movimentou para que Artur pudesse avançar. Uma mãe que decidiu estudar Pedagogia para ajudá-lo a aprender a ler e escrever. Um pai que reorganizou a própria jornada de trabalho para estar presente nas terapias. E um menino que, aos 12 anos, segue construindo sua própria trajetória.

Adriano Rodrigues, seu filho Artur Rodrigues e sua esposa | Foto: arquivo pessoalMais do que celebrar a paternidade, o Dia dos Pais também pode ser um momento para reconhecer esses pais que, diante de um diagnóstico inesperado, precisam aprender uma nova maneira de cuidar, educar e sonhar.

No caso de Adriano, o sonho deixou de ser sobre seguir um caminho previamente imaginado. Hoje, é sobre garantir que Artur possa construir o próprio caminho — com apoio, autonomia e a certeza de que terá o pai ao lado enquanto precisar.

O autismo no Brasil

A história de Artur faz parte de uma realidade que alcança milhões de famílias brasileiras. Pela primeira vez, o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) investigou a população com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista.

Segundo os dados apresentados no material da reportagem, foram identificadas 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA por um profissional de saúde, o equivalente a 1,2% da população brasileira. O levantamento apontou ainda uma maior proporção de diagnósticos entre homens, com 1,44 milhão de pessoas, enquanto as mulheres somaram 0,96 milhão.

Entre crianças e adolescentes, a presença do diagnóstico também chama atenção. O percentual foi de 2,6% entre crianças de 5 a 9 anos. Quando considerados conjuntamente os recortes de sexo e idade, os meninos de 5 a 9 anos apresentaram o maior percentual: 3,8%, correspondentes a cerca de 264,6 mil indivíduos. Entre as meninas da mesma faixa etária, o percentual foi de 1,3%, totalizando aproximadamente 86,3 mil pessoas.

Os números ajudam a dimensionar uma realidade que vai muito além das estatísticas. Por trás de cada diagnóstico existe uma família que precisa aprender, muitas vezes do zero, como oferecer suporte, garantir direitos e criar condições para que aquela criança desenvolva suas capacidades.