O mês mais nordestino do ano

Na origem, as festas juninas se relacionam às festividades pagãs europeias de celebração do solstício de verão – que por lá acontece em julho.

O mês de junho pode e deve ser considerado o mais nordestino dos meses – no Brasil, claro, onde este mês inaugurado justo hoje, uma segunda-feira, faz com que os folguedos da região Nordeste, a musicalidade, a gastronomia enfim ditem regras para festividades por todo o país. E olhe que se formos olhar para a origem de tanto arrasta-pé, vamos voltar para a Europa antes de o continente ser Cristão.

Na origem, as festas juninas se relacionam às festividades pagãs europeias de celebração do solstício de verão – que por lá acontece em julho. No Brasil sob ocupação e colonização portuguesa, esses festejos ganham conotação estritamente católica, como celebração a Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). São João é o mais popular e celebrado desses santos – daí as festas poderem ser denominadas também de “joaninas”.

O evento cristão antes muito restrito ao meio rural ou à periferia das cidades, com fogueiras, música, dança e comida é uma parte indissociável da cultura nordestina – e se espalhou pelo Brasil com esse “sotaque cultural” da região, que deu ritmo (o baião, o forró pé de serra, o coco etc.), cores (bandeirolas, as roupas coloridas dos brincantes de quadrilhas), danças (quadrilhas, boi, maracatus) e sabores (bolos de milho, canjica, pamonha, pé-de-moleque etc.) e espaço (o arraial) para a constituição de uma vastidão de festejos que se espalham pelo Brasil. 

O mês mais nordestino do ano, assim, faz da região um enorme palco para milhares de festas, que promovem não somente a cultura regional, mas também para um vigoroso movimento de transformação dessa mesma atividade cultural. Fê-la uma atividade econômica que especialistas citados pela CNN Brasil, no ano passado, calcularam em R$ 7,4 bilhões em todo o país – sendo mais da metade desse valor (R$ 4 bilhões) no Nordeste.

O valor astronômico de movimentação de dinheiro está em uma atividade cultural e de entretenimento que, por exemplo, reinventou a quadrilha junina, de uma dança comunitária ou familiar improvisada, em quase uma ópera popular que tem um enredo, figurinos muito bem desenhados e que estão em linha com o enredo, enfim, um espetáculo culturalmente rico e que se enquadra numa economia criativa crescente em torno das festas juninas. 

Essa economia criativa favorece àquelas cidades ou regiões que tradicionalmente têm arraigadas a celebração junina – e que perceberam nisso uma força dinâmica para as suas economias. Dois dos melhores exemplos disso são as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB), que mantém uma peleja eterna para saber qual delas faz “o maior São João do Mundo”, competição que favorece a ambas porque incentiva investimentos e aprimoramento, mas que também pode ajudar outras regiões ávidas por pegar um naco grande dos bilhões de reais que as festas juninas movimentam.

 É razoável, diante da vivacidade e dinamismo dessa manifestação de fé e cultural nordestinas, que estejamos dispostos a trabalhar para, sem deixar a tradição, seguir melhorando essa nossa poderosa ferramenta de economia criativa. Isso significa garantir que todas as manifestações próprias deste tempo junino sejam preservadas para que delas possam tirar proveito todas as pessoas de agora e de gerações por fim. E como manda nossa mais linda tradição, dou vivas aos santos de junho: Viva, Santo Antônio! Viva São João! Viva São Pedro!