Em 15 de novembro de 1989, após 25 anos de ditadura e uma campanha que mobilizou milhões nas ruas, os brasileiros foram às urnas pela primeira vez para eleger um presidente. A conquista foi dura e precisa ser lembrada diante de ameaças autoritárias que voltaram a rondar o país.
Quem viveu, sabe. Quem não viveu, precisa saber: A última eleição direta para presidente do Brasil antes da ditadura militar ocorreu em 3 de outubro de 1960, na qual Jânio Quadros foi eleito. Depois disso, o voto direto para presidente da República só voltou ao Brasil em 1989, ou seja, quase três década depois da eleição de "Jango", presidente deposto pelo golpe militar de 31 de março de 1964. Ele morreu no exilio em 6 de dezembro de 1976.
A ditadura instalada em 1964 foi um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. Ela indiciou com um golpe militar liderado pelos generais Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Olympio Mourão Filho, Amaury Kruel e com apoio civil do então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, do então presidente do Congresso Nacional, Auro de Moura Andrade e do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, que coordenou o apoio diplomático, financeiro e militar aos golpistas (nunca punidos).
A ditadura foi um período de 25 anos de silêncio imposto, de perseguição, de prisões arbitrárias, de torturas, morte e desaparecimento líderes estudantis, de intelectuais, políticos e artistas. Foram 25 anos de livros proibidos, de músicas censuradas, de medo. A democracia que se você hoje no Brasil não caiu do céu. Foi arrancada nas ruas, com o povo em peso gritando por liberdade.
O caminho até as urnas
A ditadura militar implantada em 1964 só começou a ruir de verdade quando a pressão popular se tornou insustentável. Entre 1983 e 1984, a campanha das Diretas Já tomou conta do país. Liderada por figuras como Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira, Tancredo Neves, Franco Montoro, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva, a mobilização levou milhões de brasileiros às ruas em comícios históricos.
Em 25 de abril de 1984, a Emenda Dante de Oliveira, que propunha o restabelecimento das eleições diretas para presidente, foi votada na Câmara dos Deputados. Faltaram apenas 22 votos para aprová-la. A derrota foi amarga, mas não significou o fim da luta. A pressão popular já havia aberto uma fissura irreversível no regime.
Em 1985, a eleição indireta de Tancredo Neves, pelo Colégio Eleitoral, selou o fim da ditadura. Tancredo, porém, adoeceu e morreu antes de tomar posse. José Sarney assumiu, e o país seguiu tateando o caminho da redemocratização. No mesmo ano, a Emenda Constitucional nº 25 permitiu eleições diretas para prefeitos das capitais e municípios de segurança nacional — em Teresina, Wall Ferraz foi eleito; em Guadalupe, o médico João Luiz.
A consolidação veio com a Constituição de 1988. E, finalmente, em 15 de novembro de 1989, o Brasil voltou às urnas para escolher um presidente pelo voto direto.
Manifestação gigantesca em Teresina em defesa da democracia
A eleição de 1989
Foram 22 candidatos, 82 milhões de eleitores aptos e uma disputa que inaugurou o marketing político na televisão . No primeiro turno, Fernando Collor de Mello, do PRN, liderou com 30,47% dos votos válidos, seguido por Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, com 17,18%. Leonel Brizola, do PDT, ficou em terceiro, com 16,51% .
Como ninguém alcançou a maioria absoluta, Collor e Lula foram para o segundo turno. Em 17 de dezembro de 1989, Collor venceu com 35 milhões de votos contra 31 milhões de Lula .
O primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura, no entanto, não completaria o mandato. Em 1992, em meio a um processo de impeachment, Collor renunciou.
Por que isso importa agora
A história da redemocratização não é um capítulo encerrado. Quem viveu a ditadura sabe o que significa perder o direito de falar, de se informar, de protestar. Naqueles anos, só na Universidade Federal do Piauí era possível ouvir Chico Buarque, Caetano, Gil. Só lá se descobria quem era Karl Marx.
Hoje, jovens que nasceram livres — com acesso a informações, livros, música, internet — defendem projetos que concentram poder e flertam com o autoritarismo. Essa contradição é o coração de uma preocupação que atravessa gerações.
Os atos de 8 de janeiro de 2023 foram a expressão mais recente dessa ameaça. Uma multidão invadiu e depredou as sedes dos Três Poderes em Brasília, pedindo intervenção militar e tentando destituir um presidente democraticamente eleito . A Polícia Federal concluiu que Jair Bolsonaro atuou de forma "direta e efetiva" na trama golpista . Até junho de 2025, mais de 1.100 pessoas já haviam sido responsabilizadas pelos atos antidemocráticos .
O papel da informação
A imprensa tem um papel que não pode ser terceirizado: informar com verdade. Denunciar fake news. Não normalizar o inaceitável. A desinformação é arma de quem quer confundir o eleitor e minar a confiança nas instituições. Em 2022, por exemplo, circulou a falsa alegação de que a CNN Brasil teria noticiado "fraude" nas eleições — mentira desmentida pela própria emissora e por agências de checagem .
Uma pesquisa rápida no Google mostra quem tem experiência administrativa e quem nunca fez nada além de enriquecer com dinheiro público. Mostra quem respeita as leis e quem tentou rasgá-las. A informação verdadeira é a primeira linha de defesa da democracia.
O voto direto para presidente voltou em 1989. Não foi um presente. Foi uma conquista. E conquistas precisam ser defendidas todos os dias.