A mídia patronal conservadora brasileira parece ter um manual antigo, mas sempre atualizado, sobre como narrar os governos do PT. A receita é invariável: diante de uma enxurrada de dados socioeconômicos positivos, o foco deve ser deslocado para uma variável menos expressiva ou uma projeção negativa, transformando o sucesso em um "mas" ou um "apesar". A mais recente vítima dessa estratégia é o estudo do economista Sergio Vale, da MB Associados, que, nas mãos de parte da imprensa, se tornou um atestado de fraqueza do presidente Lula, em vez de um reconhecimento de seu êxito na gestão econômica.
A tática é sempre o "enterro" da notícia positiva, a manipulação da informação. Uma matéria da FolhaPress, reproduzida neste domingo (05/07) por diversos veículos, é um caso exemplar de como a informação é moldada para servir a uma narrativa que interessa aos que fazem oposição ao governo. O dado central, que deveria ser o manchete principal, é quase um detalhe no texto: "A seu favor, Lula tem o fato de o índice da miséria estar no menor nível dos últimos 30 anos".
Esta é a informação que realmente importa. Os indicadores que compõem esse índice, a inflação e o desemprego são os que mais afetam o bolso e a vida do cidadão comum. E, nesse aspecto, o governo Lula alcançou um patamar histórico.
· Desemprego: A taxa foi de 5,6% no trimestre até maio, o menor patamar da série histórica, o que significa mais brasileiros com carteira assinada e renda no bolso.
· Inflação: Embora ainda seja uma preocupação, a inflação acumulada em 12 meses subiu para 4,8%. O número é monitorado, mas está muito distante dos dois dígitos que assombraram governos anteriores.
No entanto, como um passe de mágica, a manchete e o lead da matéria da FolhaPress invertem a lógica: o título é "Lula é presidente com aprovação mais sensível à inflação e ao desemprego em 30 anos". A notícia, portanto, não é a melhora real na vida das pessoas, mas a "vulnerabilidade" do presidente a essas melhoras.
Comparações injustas
A matéria ainda faz uma comparação que, por si só, revela o viés da análise. Ela afirma que a aprovação de Lula é quatro vezes mais sensível a esses índices do que a de Jair Bolsonaro.
O que os especialistas apontam, e a matéria menciona, é a razão para isso: Lula é avaliado a partir de uma expectativa mais concreta: melhorar a vida material, garantir comida na mesa, salário com poder de compra, emprego e proteção social. Esse é o contrato simbólico dele com parte importante do eleitorado.
Em outras palavras, o eleitor de Lula cobra resultados práticos porque ele sempre prometeu isso. Já Bolsonaro, segundo a análise, é menos impactado porque sua base é "muito ideológica, antipetista, para quem a questão material... é menor", avalia um especialista.
Ou seja, a má gestão de Bolsonaro na economia, especialmente durante a pandemia, era tolerada por sua base por razões ideológicas, enquanto a boa gestão de Lula é mais cobrada justamente por aqueles que mais confiam nele para resolver esses problemas. A conclusão que a matéria tenta vender é que Lula é "mais frágil", quando a realidade mostra que ele é mais cobrado por seu próprio eleitorado, que exige que ele cumpra seu papel histórico.
Essa estratégia de manipulação da comunicação não é novidade. Desde o final da década de 1970, quando Lula comandou as greves no ABC Paulista, os setores mais conservadores da sociedade, donos dos grandes meios de comunicação, usam seu poder para tentar desqualificar o líder petista.
A história se repete a cada ciclo eleitoral. Quando Lula vence, a manchete é sobre a "crise" ou o "risco". Quando o Brasil vai bem, o foco é no que pode dar errado. Das seis últimas eleições presidenciais, Lula venceu cinco. Isso mostra que, apesar de todo o esforço da "velha mídia" em construir uma realidade paralela, o povo brasileiro, na sua sabedoria, tem resistido à manipulação e reconhecido quem, de fato, trabalha para melhorar suas vidas.
O peso da realidade
A própria matéria, em seus parágrafos finais, é forçada a admitir a força dos dados positivos. Cita que, em agosto de 2025, a percepção de queda no preço dos alimentos fez a aprovação do governo subir de 43% para 46%. E que, segundo o estudo, Lula deve chegar à eleição com uma aprovação entre 44% e 47%, patamar que lhe garante vantagem em eventual segundo turno.
A tentativa de manipulação é cristalina. A mídia tenta, a todo custo, semear a dúvida sobre um governo que, pelos números oficiais, é um sucesso. Mas a persistência desse discurso não é um sinal de força da oposição, e sim de desespero. A realidade, teimosa, insiste em se impor: o índice da miséria no menor nível em 30 anos é um fato que nem a maior criatividade da propaganda negativa consegue apagar.