Política

ENTREVISTA

‘Pior que o mensalão’

No segundo semestre de 2019, após a crise interna que rachou o PSL, Bozzella foi um dos primeiros aliados a romper com Bolsonaro

Da redação

Sexta - 04/06/2021 às 13:47



Foto: Divulgação Junior Bozzella
Junior Bozzella

Em fevereiro de 2019, o deputado federal paulista Júnior Bozzella presenteou Jair Bolsonaro com uma camisa personalizada do Santos, seu time do coração, estampada nas costas com o nome do presidente e o número 17 do PSL. “Agora meu Santos deslancha”, disse o deputado, na ocasião. O encontro descontraído entre os dois, que tinham acabado de ser empossados nos cargos que ocupam atualmente, era o retrato de uma relação estreita que havia beneficiado ambos. O santista Bozzella fizera, ao longo de 2018, intensa campanha pela eleição de Bolsonaro. Organizou carreatas, adesivou carros e criou, no litoral de São Paulo, o “Comitê Central #TimedoMito”. Funcionou. Tanto que ele próprio, que antes havia sido apenas vereador, foi eleito na onda do bolsonarismo. O clima de harmonia, porém, não duraria muito.

No segundo semestre de 2019, após a crise interna que rachou o PSL, Bozzella foi um dos primeiros aliados a romper com Bolsonaro e a sair em defesa do presidente do partido, Luciano Bivar. O reposicionamento estratégico lhe rendeu a posição de vice-presidente da agremiação. Semanas atrás, o nome do deputado apareceu, sem muito destaque, entre os agraciados com o direito de indicar o destino de verbas do chamado orçamento paralelo, uma sinecura destinada aos aliados mais fiéis do governo. Crusoé, então, o procurou para entender o que havia acontecido. Júnior Bozella explicou que foi praticamente um acidente de percurso e, confirmando a lógica da estratégia do Planalto para comprar apoio político à base de recursos públicos, contou os bastidores da distribuição de 92 milhões dentro do PSL – o grosso do valor, afirma, foi para a ala bolsonarista ainda existente no partido. “É um escândalo pior que o mensalão”, diz o deputado, que classifica o governo de Jair Bolsonaro como o “mais corrupto da história”. A seguir, a entrevista.

Como o senhor soube que poderia indicar recursos dentro do orçamento paralelo?
A liderança do PSL fez contato com meu chefe de gabinete para pedir para fazermos os apontamentos, as indicações. Coube à liderança fazer a triagem com base na nossa relação política com prefeitos, com quem a gente tem ligação. Perguntaram quem a gente queria contemplar. Igual (como acontece) com as emendas impositivas. Os técnicos da liderança falaram: ‘Olha, tenho aqui um recurso para indicar para a base’. A liderança do partido liga no gabinete e fala que pode fazer a indicação, é assim. Fui um dos menos contemplados. Os governistas é que foram realmente beneficiados.

Quando foi isso?
Essa questão foi encaminhada lá pelo dia 20 de dezembro de 2020. Foi com base nesse entendimento que o (meu) gabinete fez a indicação de onze municípios pequenos com essas características. Foi bem em cima da hora. A gente não teve tempo de fazer o trabalho, o rastreamento. Coube à liderança do PSL fazer essa distribuição, beneficiando mais os deputados bolsonaristas.

Quem entrou em contato foi o líder do PSL, o deputado Felipe Francischini?
Sim, o Felipe Francischini.

O sr. considera que o orçamento paralelo é uma nova versão do mensalão?
Esse é o governo mais corrupto da história. Daqui a dez anos, as pessoas vão olhar para trás e vão ver que o mensalão foi barato perto disso. É muito mais escandaloso, é um estupro moral com a sociedade, porque quem acreditou nesse governo nunca imaginou que estaria construindo o governo mais corrupto da história, seja em áreas como o meio ambiente ou no toma lá da cá dentro do Parlamento. Por isso que eu digo que o mensalão, se comparado a isso, foi ‘barato’ para o povo brasileiro.

A cooptação de deputados por meio do orçamento paralelo continuou após a eleição para a presidência da Câmara?
A gente sabe que nos quatro cantos da Câmara circulava muito (refere-se às ofertas). Isso foi escancarado. Ninguém escondeu as propostas da emenda extra para quem apoiasse a candidatura do (Arthur) Lira. Então, o Palácio do Planalto entrou de cabeça nessa eleição e usou o dinheiro público para cooptar os deputados e eleger o presidente da Câmara. Mas a cada pauta, a cada discussão, a cada revisão de orçamento, em todas essas discussões, são sempre levadas em conta as emendas extras que são apresentadas a deputados e senadores.

O Planalto cobrou apoio a Arthur Lira ao liberar as verbas?
O que a gente escuta é que cada caso tem um acordo específico. Numa determinada votação, liberação de ‘x’ milhões para aquela votação. A última (liberação) que teve foi por causa do auxílio emergencial. Aí teve mais um quantitativo para a eleição do Arthur.

Fonte: Outline.com/YcJjKs

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