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Por Álvaro Mota

Sobre sacrifícios pessoais

Álvaro Fernando Mota

Advogado

O período que precede a Páscoa cristã é de sacrifício. Porém, a imensa maioria dos cristãos – eu entre eles – não se aplica a essa pratica milenar que remonta ainda aos judeus em sua celebração da libertação do Egito. No caso da Páscoa cristã, o sacrifício lembra os 40 dias que Jesus passou no deserto.

Nas três grandes religiões monoteístas, o sacrifício de jejuar em determinado período é uma recorrência. Entre os islâmicos, o mês do Ramadã obriga homens e mulheres adultos ao sacrifício do jejum durante o dia.

Se nós perdemos a capacidade de fazer sacrifícios pessoais no espaço do sagrado e da fé, muito certamente estaremos menos predispostos a fazê-los no mundo real, secular. Ou se fazermos esse sacrifício, ele se dá num espaço controlado, em face de nossos interesses, como o trabalho ou a formação de patrimônio, e a família – pelos filhos, quase sempre.

Como o sacrifício pessoal é um ato de renúncia, em geral,para obter em troca paz interior e não um benefício, atos penitentes como jejum deixaram de representar uma atitude mais corriqueira de católicos, notadamente daqueles que somente se declaram seguidores desta fé, mas não a praticam em suas vidas cotidianas.

O jejum, como um sacrifício pessoal em qualquer das três religiões monoteístas, se presta a que os seguidores sintam a dor do seu semelhante causada pela falta de comida, ou de saúde ou de recursos para manter bem a família. Pôr-se no lugar do outro, experimentando ainda que por metáfora o padecimento alheio, é um modo de adentrar na experiência da solidariedade, da caridade e da generosidade.

Seria um ato de pouca lealdade comigo mesmo propor que as pessoas, somente por estarmos no período pascal, se dessem aos sacrifícios próprios da época. Mas é bastante razoável que estejamos dispostos a ter posturas mais afeitas a sacrifícios pessoais durante o ano. Talvez até mais que isso: a aprender a lição da humildade, que está tão presente em um dos mais belos atos litúrgicos dos ritos que antecedem o domingo da Ressurreição: a cerimônia do lava-pés.

Quando um clérigo católico, entre eles o próprio Papa, se coloca diante de 12 homens e lhes lava os pés, esta é uma cenografia para lembrar a grandeza de ser humilde, de servir antes de ser servido, de ser solidário sempre.

Então, se não estamos dispostos, por variadas razões, aos sacrifícios pessoais que nos ensinam a respeitar a dor do próximo e ajuda-lo quando necessário, que tenhamos nas lições de humildade do próprio Jesus Cristo um caminho para agir conforme o ensinamento de amar ao próximo como a si mesmo.

Neste sentido, parece adequado que os sacrifícios feitos como atos penitenciais possam ser entendidos como demonstração de fé e de experimentação da dor alheia. Porém, a humildade exercida todos os dias é possivelmente mais importante para nosso engrandecimento como pessoas humanas. O Cristo lavou os pés de seus discípulos. A nós cabe ao menos ser um pouco disso.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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