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Por Dulce Silva

Sobre as mães em seu dia

Dia das Mães Dia das MãesFoto: Imagem ilustrativa/Google

Neste domingo se festeja o Dia das Mães aqui no Brasil. Uma data criada por decreto, estabelecendo que ela devesse ser comemorada todo segundo domingo de maio, o que acabou tornando-se uma tradição.

Assim como nos Estados Unidos, Japão, Turquia e Itália, no Brasil, a data é comemorada no segundo domingo de maio, instituída pela Associação Cristã de Moços, em maio de 1918, sendo oficializada pelo presidente Getúlio Vargas, no ano de 1932.

A história do dia das mães tem origem e datas distintas, no Brasil, o Dia das Mães é celebrado em homenagem a Maria, mãe Cristo. Além de ser uma data com simbolismo religioso, baseado na Mãe de Cristo, essa comemoração ganhou força através do comércio que encontrou uma data boa para alavancar as vendas, no entanto, mais do que uma data que movimenta o comércio o que importa realmente é ter um dia especial para comemorar o Dia das Mães.

Mas o que significa ser mãe?

Para além do imaginário patriarcal romantizado acerca dessa figura idealizada como um SER divino, capaz de gerar e perpetuar a espécie humana; dotada de todas as qualidades e sentimentos que possam ser traduzidos em sensibilidade, beleza, candura, encantos, fortaleza física e espiritual e que “carrega em si a natureza e o destino da maternidade”; implica trazer à reflexão alguns aspectos do que, de fato, se constitui esta função tão louvável quanto complexa na vida das mulheres que escolhem ser mãe.

Na cultura ocidental, ser mãe remete, ao mesmo tempo, para uma etapa e um estado específico da vida feminina que envolve a gestação, o parto e a lactação e, cuidados anteriores e posteriores ao parto; estes últimos constituem um conjunto de sentimentos e de ações de longo prazo, dentre os quais se estaca a maternagem que envolve, sobretudo, amar, criar e educar as crianças geradas.

Um retorno no tempo, entretanto, assinala que há três séculos a função maternal não era objeto de tanta atenção e valorização nas sociedades ocidentais. As mulheres não eram glorificadas pelo fato de serem mães, e o amor-maternal não era um valor social e moral. Conforme algumas historiadoras, dentre elas Elizabeth Badinter, pesquisadora da sociedade francesa, essa situação se altera em finais do século XVIII, quando “se opera uma espécie de revolução das mentalidades” e surgem pela primeira vez recomendações escritas para que “as mães se ocupem pessoalmente dos seus filhos”.

Os sentidos usualmente associados às maternidades que vivenciamos na atualidade foram produzidos no advento da modernidade, com base nos pressupostos de que: a maternidade equivale e decorre da capacidade de geração biológica de um novo ser; a geração deste novo ser está circunscrita ao corpo da mulher que processa a reprodução biológica; e a identidade de mulher se reduz a identidade de mãe. Esses sentidos foram produzidos em um período e contexto histórico específicos, aquele em que a vida, de um modo geral, e a da criança em particular entrou na história das sociedades ocidentais. Contexto esse que se configura pela convergência de três importantes movimentos sociais distintos e não coincidentes no tempo, que irromperam na Europa entre os séculos XVII a XIX, representados pelo processo de urbanização, a instauração e o fortalecimento do sistema capitalista de produção; e a formação dos estados nacionais, destacando-se aí a Revolução Francesa.

A partir do século XX registra-se nova configuração da maternidade na sociedade ocidental, produzindo-se a figura da mãe responsável, tanto pelas práticas quanto pelas simbolizações, com o investimento na ampliação do sentimento maternal. Constroem a figura da mãe como aquela que dá o amor a mais, a vida, o alimento e as primeiras e continuas socializações. A inclusão desses discursos demanda um novo modelo feminino, o da mãe zelosa, cuidadosa que deveria estar sempre atenta à sua saúde e à dos membros da família. Responsável pelos mínimos detalhes que pudessem comprometer o desenvolvimento saudável da família, a mulher-mãe deveria ser vigilante, abnegada, afetuosa, assexuada, frágil enquanto mulher, mas forte e saudável enquanto mãe e soberana dentro do lar.

A posição da mãe cuidadosa foi, em parte, uma transformação importante produzida pelo novo modelo de família contemporânea atribuindo outra função à mulher, assim como reformulando as relações familiares, com o desvio do poder paterno para o inalienável binômio mãe-filh@, sob a atribuição de maior controle das mulheres para com a criação d@s filh@s.

Enquanto isso na nova ordem social urbana contemporânea evidencia-se claros sinais de abalos nos padrões de vivência do exercício da maternidade.

Com a inserção da mulher no mercado de trabalho, a inexistência de uma infraestrutura de economia de cuidado, a diminuição da rede de apoio familiar, a mudança social do papel feminino e os avanços tecnológicos a mãe, que antes ficava restrita ao seu mundo doméstico, aparentemente seguro, cuja função básica era prover afetivamente a prole, sob seus cuidados, hoje responde por um conjunto de afazeres e deveres que sobrecarregam a sua existência, sobretudo quando se pensa nessas novas configurações familiares.

Tudo isso para dizer que o exercício da maternidade se produz e se modifica com a cultura e que hoje as mães precisam lidar com situações muito diferentes de outras épocas, inclusive na própria relação com @s filh@s.

Para dizer ainda que na contemporaneidade muitas mulheres que desconhecem a historicização da maternagem e que vivem o dilema de se desdobrarem entre os cuidados maternos e o mundo do trabalho sofrem e se culpam, muitas vezes por não incorporarem o atributo da mãe perfeita. Exatamente por isso a difusão dessa história é importante e necessária na medida em que permite mostrar como determinadas maternidades são significadas politicamente, no interior de um conjunto de discursos e saberes que as normatizam e as definem , e não como experiências desprovidas de história, associadas a uma ideia biológica, considerada como meramente natural do feminino.

Finalmente minha homenagem a toda a diversidade de mães que permeia o universo da família, em seus vários vínculos parentais.

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Dulce Silva

Professora Dulce Silva é maranhense, e piauiense por adoção e feminista radical. Mestra em Serviço Social. Especialista em saúde pública e formação livre em psicanálise. É professora e pesquisadora da UFPI. Desenvolve as atividades - Militante de Movimentos Sociais e Feministas, na defesa das Mulheres, da Saude Pública, dos Direitos Humanos, da Diversidade Social e contra o racismo; - Membra do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Mulheres e do Conselho Estadual de Saúde do Piauí; - Coordenadora Adjunta do Coletivo Feminista GEMDAC - (Gênero, Mulher, Desenvolvimento e Ação Cidadã); - Vários Artigos publicados em Livros, Revistas; em Anuários da REDOR e nos Cadernos de Economia e Política Feminista, da Rede Mulher & Democracia.

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Abordagem de temáticas sobre: Mulheres, gênero, feminismo, sexualidade, violência de gênero, violência contra as mulheres, Feminicidio é demais questões relacionadas à causa das mulheres.

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